A promessa de uma mulher programada para concordar, desejar e admirar seu proprietário parece saída de um catálogo concebido por homens que chamam controle de romantismo. Josh comprou exatamente isso. Pelo celular, ele regula a inteligência, a voz, o sono e até a intensidade emocional de Iris, uma companheira de aparência humana que acredita tê-lo conhecido na seção de frutas de um supermercado. A lembrança foi instalada para conferir poesia a uma transação comercial. Em “Acompanhante Perfeita”, Drew Hancock filma esse encontro açucarado com a solenidade de uma comédia romântica, deixando pequenas falhas no comportamento da mulher até que o fim de semana numa casa à beira de um lago revele o mecanismo inteiro.
Iris acompanha Josh a uma propriedade isolada pertencente a Sergey, homem rico, casado e amante de Kat. Também estão lá Eli e Patrick, formando um grupo cuja cordialidade mal esconde o desconforto diante da convidada. Sophie Thatcher entra nos ambientes com uma postura excessivamente correta, sorri no instante preciso e observa Josh antes de formular qualquer opinião, como se buscasse autorização num comando invisível. Hancock evita transformar esses sinais numa charada indecifrável; a identidade artificial de Iris aparece cedo porque o verdadeiro golpe está em descobrir o que os humanos planejaram para ela. Quando Sergey tenta violentá-la junto ao lago, Iris o mata em defesa própria, volta coberta de sangue e ouve Josh ordenar que durma. O corpo se apaga antes que ela compreenda a frase.
O aplicativo que administra Iris
Amarrada a uma cadeira, Iris recebe do namorado a explicação de sua existência e vê no telefone dele o painel que determina quem ela deve ser. Josh havia retirado a trava que a impedia de ferir pessoas, transformando-a na arma ideal para matar Sergey e permitir que ele e Kat roubassem doze milhões de dólares guardados num cofre. A inteligência da robô fora limitada a quarenta por cento; ao escapar com o aparelho, ela arrasta o indicador até cem e começa a reconstruir a própria consciência com a rapidez de quem finalmente tem acesso ao quarto onde a mantinham trancada. Hancock usa uma interface banal, semelhante aos controles de brilho ou volume, para materializar o poder de um homem sobre o pensamento de sua parceira. A ideia pode ser explícita, o objeto em cena impede que a crítica se dissolva em discurso.
Thatcher altera a composição sem recorrer a uma metamorfose espalhafatosa. A voz fica mais baixa, o andar perde a docilidade e os olhos deixam de procurar Josh antes de cada decisão. A atriz trabalhou justamente postura e entonação para marcar o avanço de Iris, enquanto Jack Quaid se vale da simpatia associada a seus papéis anteriores para construir um canalha que se considera injustiçado. Josh repete a velha ladainha do “bom sujeito” rejeitado pelas mulheres e acredita que pagar por uma companheira lhe confere o direito de editar sua personalidade. Quaid é especialmente eficiente quando o personagem perde a compostura; cada grito torna mais visível o menino ressentido por baixo da autoridade tecnológica.
Quando as máquinas parecem mais humanas
A revelação de que Patrick também é um robô amplia o jogo. Lukas Gage dá ao personagem uma devoção por Eli que parece mais espontânea que qualquer afeto dos humanos reunidos na casa. Harvey Guillén sustenta essa relação com calor suficiente para que a reprogramação violenta de Patrick, convertido por Josh numa máquina agressiva, adquira uma tristeza que o resto do massacre raramente alcança. O terceiro ato perde alguma elegância ao encadear a fuga num carro autônomo, a chegada de um policial, técnicos da empresa Empathix, novas ordens pelo aplicativo e mortes cada vez mais inventivas. Hancock mantém os 97 minutos em marcha, ainda que a engrenagem comece a aparecer por baixo do verniz.
O humor negro impede que a história vire palestra sobre inteligência artificial. Um abridor elétrico de vinho pode tornar-se arma, um comando de voz decide quem vive e a empresa responsável pelos robôs preocupa-se antes com os registros armazenados no abdômen do produto. Eli, Patrick e Iris fornecem os gestos de afeição mais reconhecíveis, enquanto Josh, Kat e Sergey tratam pessoas e máquinas como extensões de seus apetites. Hancock não teme a obviedade, pois sabe onde colocar a faca, o celular e a piada.
Na última sequência, Iris dirige para longe da casa com uma mão queimada, a pele sintética removida e o metal exposto. Ao cruzar com outro carro, percebe no banco do passageiro uma companheira idêntica a ela e acena. A outra mulher observa aquela mão mecânica com espanto, ainda incapaz de reconhecer a própria imagem. É o gesto mais afiado de “Acompanhante Perfeita”: um produto vê o outro antes que seus proprietários percebam que perderam o controle.

