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Poucos cineastas são tão felizes em iluminar as guerras do homem com todas as variáveis que não pode domar quanto Christopher Nolan. É Nolan quem mais poderia reivindicar, se quisesse, o predicado de diretor cabeça, Truffaut redivivo, e prolífico executor de filmes cujo apuro estético em nada deve à qualidade da pesquisa, profunda, metódica, irretocável. Atesta-se o fenômeno em “Interestelar” (2014) e “Dunkirk” (2017), em que ele escrutina o resgate de mais de trezentos mil soldados aliados no litoral da França, encurralados pelas tropas de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Seu autodesafio da vez é fazer o público enxergar as contradições de um herói, um herói fanfarrão, vaidoso, atrapalhado, mas digno, história que venceu a precarização da linguagem e o horror do raciocínio binário. Ambicioso, o diretor pretende que “A Odisseia” seja uma tocante reflexão sobre a natureza humana, instável, vítima de si mesma e à mercê das trapaças do destino, porém sempre apta a uma redenção qualquer.

Mitologia e vida real

Há muitas ressalvas a serem feitas acerca de “A Odisseia”, bem como muitos elogios. A Odisseia nolaniana é, por óbvio, uma livre adaptação do poema escrito por Homero entre 725–675 a.C., mas concentra-se na culpa de um rei guerreiro caído em desgraça após um período de glórias e uma sucessão de fiascos. Os desdobramentos da Guerra de Troia (1194-1184 a.C.) vêm a lume nas meditações de Odisseu, o soberano de Ítaca, absorto em devaneios, mas narrando com impressionante lucidez aquele que seria seu grande feito, não fosse a tentação do orgulho. Se em “Troilo e Créssida” (1609) William Shakespeare (1564-1616) volta-se para os anos finais das batalhas entre gregos e troianos, Homero força Odisseu a cometer inconfidências e detalhar a convivência com a esposa, Penélope, que aguarda seu retorno enquanto os pretendentes ao trono de Ítaca aboletam-se ao seu redor, malgastam a comida e embriagam-se de vinho. Obliquamente, Nolan vale-se dessa relação como a salvação do herói, inferência que torna-se palpável no encerramento, com o reencontro de Odisseu, agora um mendigo, e sua rainha. Em aparições bissextas ao longo dos 172 minutos, Anne Hathaway é o justo complemento para a dureza necessária da atuação de Matt Damon. Se Homero exalta a guerra, Nolan vê em “A Odisseia” um hino ao amor. Ah se toda licença poética fosse assim!


Filme: A Odisseia The Odyssey
Diretor: Christopher Nolan
Ano: 2026
Gênero: Ação/Aventura/Fantasia
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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