Aos 93 anos, Thelma Post vive sozinha em Los Angeles quando, após receber uma ligação falsa, entrega uma grande quantia a criminosos e decide recuperar o dinheiro sem depender da família. Lançada em 2024 e dirigida por Josh Margolin, a comédia de ação “Thelma” acompanha essa busca pela cidade, movida tanto pela revolta contra o golpe quanto pelo desejo da protagonista de provar que ainda pode tomar as próprias decisões.
Thelma (June Squibb) mantém uma relação afetuosa com o neto Daniel (Fred Hechinger), um jovem carinhoso, inseguro e bastante familiarizado com computadores. Ele aparece com frequência para ajudá-la a mexer no celular, responder mensagens e lidar com pequenos problemas tecnológicos. A proximidade entre os dois permite que os criminosos montem uma fraude convincente. Um homem telefona fingindo ser Daniel, afirma que sofreu um acidente e pede dinheiro para resolver uma emergência.
Assustada, Thelma acredita que o neto está em perigo. Ela segue as instruções recebidas e envia a quantia solicitada. Quando descobre que Daniel está bem e que tudo não passou de uma armadilha, a vergonha se mistura à raiva. A polícia oferece poucas perspectivas de recuperação, enquanto seus familiares começam a questionar se ela deveria continuar morando sozinha.
Uma vítima que se recusa a esperar
Gail (Parker Posey), filha de Thelma, e Alan (Clark Gregg), seu genro, reagem ao episódio com preocupação verdadeira. O problema está na maneira como esse cuidado chega até a idosa. Os dois discutem o futuro dela, mencionam riscos domésticos e consideram mudanças capazes de diminuir sua independência. Thelma escuta tudo e percebe que o golpe pode custar mais do que dinheiro.
A protagonista decide localizar os responsáveis pela fraude usando as poucas informações que conseguiu guardar. Sem carro e com dificuldades para circular por uma cidade extensa, ela precisa procurar ajuda. A solução aparece na figura de Ben (Richard Roundtree), um velho amigo que vive numa residência assistida e se desloca numa scooter elétrica.
Ben não demonstra entusiasmo pela aventura. Ele sabe que seguir criminosos pode terminar mal e teme colocar a amiga em perigo. Thelma, porém, insiste em ir até o endereço relacionado ao golpe. A partir desse acordo pouco equilibrado, os dois atravessam Los Angeles em um veículo lento, expostos ao trânsito, ao calor e à impaciência de motoristas que não parecem dispostos a facilitar a passagem.
A scooter vira veículo de fuga
A maior graça de “Thelma” nasce da diferença entre a missão imaginada pela protagonista e os recursos disponíveis. Ela se inspira nos filmes de ação que assiste com Daniel, mas não possui carro veloz, equipamentos sofisticados ou preparo físico de agente secreto. Tem uma scooter emprestada, um amigo preocupado e uma determinação que frequentemente supera o bom senso.
Josh Margolin constrói a aventura sem tratar a idade dos personagens como uma piada permanente. Thelma e Ben cansam, precisam parar, calculam distâncias e enfrentam dificuldades reais para entrar em determinados lugares. Ainda assim, não aparecem apenas como pessoas frágeis esperando ajuda. Eles tomam decisões, discordam entre si e avançam mesmo quando a cidade torna cada deslocamento mais complicado.
June Squibb sustenta essa mistura com enorme naturalidade. Sua Thelma é inteligente, teimosa e, em alguns instantes, imprudente. Ela não procura parecer adorável o tempo inteiro, detalhe que torna a personagem muito mais interessante. A atriz permite que a idosa seja dura com Ben, impaciente com Daniel e incomodada com qualquer tentativa de tratá-la como criança.
Richard Roundtree oferece a Ben uma presença serena e elegante. O personagem conhece os perigos da missão, mas também carrega suas próprias frustrações com uma vida cercada por horários, atividades programadas e vigilância. Ao acompanhar Thelma, ele sai da rotina e recupera parte da liberdade que parecia ter deixado para trás.
A família inicia outra busca
Enquanto Thelma procura os golpistas, Daniel, Gail e Alan tentam descobrir onde ela está. O desaparecimento transforma a preocupação familiar numa corrida paralela. Os três dependem de celulares, aplicativos e informações incompletas, ferramentas que deveriam aproximá-los da idosa, mas que também revelam o pouco que sabem sobre os planos dela.
Daniel sofre de maneira particular. Ele se culpa pelo golpe, já que os criminosos usaram seu nome, e também percebe que sua relação com a avó não pode ser baseada apenas na ideia de protegê-la. Fred Hechinger interpreta o rapaz com delicadeza, mostrando alguém sem emprego estável, cheio de dúvidas sobre a vida adulta e profundamente ligado a Thelma.
O vínculo entre os dois oferece ao filme sua parte mais sensível. Thelma precisa de Daniel para algumas tarefas, mas isso não significa que tenha perdido toda capacidade de escolha. Daniel deseja protegê-la, embora nem sempre saiba diferenciar ajuda de controle. A busca pelo dinheiro obriga ambos a encarar essa dependência mútua sem transformar a conversa num sermão familiar.
Ação pequena com riscos reais
“Thelma” trabalha com uma escala modesta. A ameaça não envolve governos, armas secretas ou o destino do planeta. O objetivo é recuperar uma quantia roubada por pessoas que exploram o medo de idosos e familiares. Essa dimensão cotidiana aproxima a história do público, pois o golpe telefônico parece possível fora da tela e depende de poucos minutos de confusão.
Margolin mantém o ritmo ao alternar o percurso de Thelma e Ben com a procura organizada pela família. As interrupções criam expectativa sem esconder que os protagonistas possuem limitações físicas. Uma rua movimentada pode ser mais perigosa do que uma perseguição cinematográfica. Uma escada pode interromper um plano. Uma bateria fraca pode comprometer o caminho inteiro.
O diretor também permite que a comédia surja das escolhas dos personagens. Thelma pega objetos emprestados sem pedir, invade espaços com uma segurança desproporcional e adapta ideias aprendidas em filmes de espionagem. Ben reage com cautela, reclama das decisões da amiga e tenta impedir que a missão fique ainda mais arriscada. A dupla funciona porque nenhum deles domina a situação por completo.
Sem revelar a resolução da busca, “Thelma” cresce quando transforma uma fraude comum numa discussão familiar acessível. O dinheiro oferece o ponto de partida, mas a protagonista luta principalmente para manter autoridade sobre a própria rotina. Sua família teme que algo pior aconteça, enquanto ela teme perder a vida que construiu por causa de um único erro.
A aventura preserva leveza, afeto e certa dose de absurdo sem ignorar a violência do golpe. June Squibb ocupa o centro do filme com firmeza e torna Thelma uma heroína improvável, capaz de errar, insistir e seguir pela cidade numa scooter que mal acompanha o trânsito. Quando todos percebem onde ela chegou, já precisam correr para alcançá-la.

