Todo império precisa de uma arena onde a crueldade possa vestir-se de espetáculo, receber aplausos e adquirir a aparência respeitável de um costume. A Roma de “Ben-Hur” aperfeiçoara esse expediente com bigas, galés, crucificações e uma burocracia militar capaz de destruir famílias sem que nenhum centurião perdesse o sono. Timur Bekmambetov entra nesse território carregando um fardo ingrato: adaptar novamente o romance publicado por Lew Wallace em 1880 e enfrentar a lembrança do épico de William Wyler, que, em 1959, levou onze Oscars e transformou Charlton Heston numa escultura de mármore em movimento. A versão de 2016 dispõe de tecnologia, velocidade e cem milhões de dólares; falta-lhe a solenidade monstruosa que fazia o sofrimento de Judah Ben-Hur parecer maior que o próprio Coliseu.
Judah, vivido por Jack Huston, é um príncipe judeu de Jerusalém, senhor de terras e de uma família respeitada, criado ao lado de Messala como se ambos fossem irmãos de sangue. A diferença entre eles começa a ganhar forma quando Messala deixa a casa e se alista no Exército Romano, experiência que lhe confere a dureza conveniente aos homens que desejam subir num regime sustentado por submissão. Quando retorna, ele já aprendeu a transformar afeto em fraqueza e obediência em virtude. Um ataque contra o governador romano oferece-lhe a oportunidade de provar fidelidade ao império: Judah é condenado às galés, enquanto Naomi e Tirzah, sua mãe e irmã, desaparecem nos calabouços. Toby Kebbell confere a Messala a impaciência de quem passou a vida sentindo-se um agregado; Huston reage com uma honradez um tanto limpa demais para um homem submetido a tamanha desgraça.
O inferno sob o convés
Bekmambetov encontra seu melhor filme no porão do navio romano. Acorrentado ao remo, Judah conhece a guerra por pequenas aberturas no casco, ouvindo ordens, batidas de tambor, madeira estilhaçada e o impacto dos corpos antes de compreender o que ocorre no mar. A câmera permanece rente aos escravizados, impedindo que a batalha naval se converta numa exibição confortável de computação gráfica. Água, fogo e sangue invadem a embarcação enquanto os comandantes discutem estratégia no convés, alheios aos homens que movimentam aquela máquina de morte. O diretor, tão afeito ao movimento espalhafatoso, acerta ao restringir o campo de visão; a angústia nasce da impossibilidade de escapar e da certeza de que qualquer vitória romana continuará sendo uma derrota para quem segura os remos.
A corrida que sustenta o espetáculo
Resgatado pelo xeque Ilderim, personagem que Morgan Freeman interpreta com uma cabeleira capaz de rivalizar com os efeitos visuais, Judah aprende a conduzir bigas e encontra o caminho de volta a Messala. O filme enfim alcança a corrida que todos esperam, rodada durante 45 dias numa pista de aproximadamente trezentos metros, com câmeras presas às carruagens, drones e pouco uso de imagens digitais nas tomadas principais. Bekmambetov filma rodas quebrando, cavalos espumando, competidores esmagados contra a mureta e a areia entrando pelos olhos dos condutores. Há vigor físico nessa sequência, ainda que a proximidade excessiva da câmera diminua a dimensão do hipódromo e prive o espectador da visão ampla que tornara a disputa de 1959 um delírio coreográfico. O confronto funciona porque Kebbell mantém o ressentimento de Messala mesmo quando o corpo do personagem já começa a ceder.
Rodrigo Santoro surge como Jesus em aparições breves, caminhando entre soldados e miseráveis com uma serenidade que o roteiro insiste em traduzir por meio de frases edificantes. O primeiro encontro ocorre quando Cristo oferece água a Judah, gesto devolvido durante a marcha para o Calvário. A simetria é clara, talvez clara demais, e o perdão chega ao terceiro ato como uma determinação superior para encerrar a vingança e reconciliar os irmãos. Nazanin Boniadi, Ayelet Zurer e Sofia Black-D’Elia defendem Esther, Naomi e Tirzah sem receber espaço suficiente para que o martírio familiar adquira peso próprio. Bekmambetov fez um épico ágil, ocasionalmente brutal, atravessado por uma fé administrada com pressa. Quando a poeira da corrida baixa, “Ben-Hur” permanece de pé, ferido e digno, pequeno diante da estátua que escolheu escalar.

