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Há um sem fim de maneiras de se contar as tantas histórias de inadequação, de desajuste, de inconformidade com o vasto mundo que nos cerca, com a austera vida que nos devasta. Cada um tem uma capacidade muito sua no que diz respeito a torcer representações imagéticas e pensar a realidade a seu gosto, surgindo daí narrativas que não condizem com o que se observa no plano da realidade e, por extensão, são usadas para validar expedientes que dão no exato oposto do que se queria.

A humanidade se divide entre os céticos, que acreditam que milagres não acontecem nunca, e os cínicos, aqueles que atribuem aura de sobrenaturalidade a tudo que aparece na Terra, e Annabelle Wilson move-se nos dois universos. A protagonista de “O Dom da Premonição” sustenta os três filhos com a habilidade de enxergar para além do que se deixa ver, e sendo a figura central de um filme de Sam Raimi, guarda alguns segredos e muitas epifanias.

Sempre refinadamente excêntrico, o diretor vai urdindo suas considerações acerca de tópicos como possessão demoníaca e mediunidade, levando o público por um nebuloso labirinto de sensações.

Força estranha

Depois que perdeu o marido num acidente, Annie tira cartas para uma clientela fiel e, contrariando expectativas e preconceitos, encara seu lado místico sem glamour. Cuidadoso e estimulante, o texto de Tom Epperson e Billy Bob Thornton mira a mulher delicada, mas forte por trás da feiticeira para chegar às outras peças que movimentam a história, esposas que apanham de maridos caipiras; senhoras entediadas que tapeiam os cônjuges; marmanjos inseguros; e xerifes que honram suas estrelas, tudo isso em meio às alamedas de salgueiros-chorões de Broxton, noroeste da Geórgia.

Embalada pela excelente fase após a indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Elizabeth” (1998), de Shekhar Kapur, Cate Blanchett lidera um elenco afinado, e poucas intérpretes sabem encarnar a potência rebelde da alma feminina como ela.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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