O destino nos prepara surpresas, e em muitas dessas surpresas estão fracassos retumbantes. Nos fracassos retumbantes, escondem-se grandes oportunidades de se descobrir caminhos para chegar aos sonhos mais intangíveis — desde que não se tema as ondas.
De quando em quando, a Europa se vê acossada pela ameaça do totalitarismo de extrema-direita, oxigenado por quem sequer desconfia do risco do pensamento autocrático, malgrado a cor ideológica com que se pinte. Esse engano pode passar despercebido para qualquer um, mas nos jovens tem especial poder de destruição, uma vez que corrompe arcabouços cognitivos ainda em formação e agita corações inclinados a paixões diversas.
Entre 2016 e 2017, um grupo de berlinenses de vinte e poucos anos arregaça as mangas e enfrenta de peito aberto a crise migratória, depois de uma verdadeira saga para arrecadar fundos e comprar uma embarcação para tirar do oceano uma parte das 239 mil pessoas que tentam chegar à Europa em pequenos barcos, fugindo de guerras e perseguições políticas. Esses sonhadores fizeram da quimera uma emocionante proeza ao salvar as 23 mil vidas do título, feito registrado por Markus Goller neste filme belo e rigoroso.
Barco sem vela
O idealismo da mocidade chega a ser comovente. Mesmo quando equivocada, a tendência a achar que tudo na vida converge para soluções que agradam a todos, mesmo quando os problemas desafiam a lógica e se estendem no tempo, pode ser o antídoto para o pior dos venenos, o que mata a fé e a esperança.
O drama real de quem é forçado a deixar sua pátria para não perder a dignidade e a vida move Lukas, que preocupa os pais por não conseguir um emprego formal e não cursar uma faculdade. Oliver Ziegenbalg, um colaborador habitual de Goller, junta-se ao documentarista italiano Michele Cinque, e os dois condensam em 112 minutos uma odisseia de nove anos, algo que Cinque já havia esboçado em “Iuventa” (2018).
Esse é o nome do barco de médio porte que Lukas consegue adquirir por meio da Jugend Rettet, ONG fundada para receber contribuições e lidar com expedientes burocráticos. Um casal de Kreuzberg transfere o dinheiro, Lukas, a capitã Viola e Sören, o chefe da missão, arregimentam outros voluntários e vão à luta, sem ter ideia de até onde podem ir.
Com riqueza de detalhes, Goller, Ziegenbalg e Cinque narram os percalços da equipe, levada a julgamento por tráfico de pessoas, mas absolvida. Valeu a pena.

