Tornar-se quem se é sempre leva tempo. Vencer as cruentas batalhas que a vida nos impõe logo no princípio de nossa jornada requer de cada um doses maiores ou menores de sacrifício, renúncias e privações, empreitada que nem todos temos fibra moral para bancar. Os anos passam e impingem-nos a lucidez e a necessidade de encontrar no mundo um cantinho que seja só nosso e de mais ninguém, tendo claro que esse lugar não é um feudo, hereditário e eterno, e nem a própria vida é feliz e plácida — é, muitas vezes, o oposto disso.
Personalidades ainda por se consolidarem, aliadas ao ímpeto a toda prova, força física em pleno vigor e a propensão natural da pouca idade não raro degringolam em isolamento social, crime e, por fim, a tragédia do confinamento compulsório em instituições mantidas pelo Estado, um dos recortes da indonésia Gina S. Noer em “Eu Antes de Mim”. A diretora narra uma história sobre alguém que experimenta alguns golpes do destino, permite-se enredar nas teias do infortúnio, mas evita a queda, porque verdadeiramente sábio.
Um garoto-prodígio
Noer combina um humor leve a um olhar quase pessimista sobre as relações, mirando os vários desencontros da existência. As inquietações, lembranças desditosas, aquela sensação de estar à deriva, indo para lugar nenhum, vulnerável, materializam-se em Jati, um estudante da nona série que vira uma celebridade por ganhar todos os simulados e concursos de conhecimentos gerais da escola.
Numa dessas circunstâncias, um trabalho sobre a história de sua família leva-o a mergulhar em seu passado, e o que parecia a iminência de um novo troféu vira uma descoberta que a diretora-roteirista elabora de forma intensa, mas natural, contando com a atuação de Bima Sena, na qual nada falta ou sobra.

