Quando o teto do apartamento de Reinaldo Arenas em Hell’s Kitchen ficou encharcado, começou a vazar e por fim desabou, seus manuscritos escaparam da água. Era 1983. O escritor cubano contou o desastre a Ann Tashi Slater depois de uma entrevista na Biblioteca Firestone, da Universidade de Princeton, e de um passeio por um pomar próximo. Arenas, que passara a infância perambulando entre árvores no interior de Cuba, ficou encantado com o ar livre. Depois voltou de trem para aquele apartamento precário em Nova York, onde o telefone demorava um mês para ser instalado e até o teto parecia determinado a lhe impor censura. Os papéis, por sorte, estavam secos.
O detalhe combina de forma quase suspeita com a biografia de um homem que passou boa parte da vida tentando impedir que seus livros desaparecessem. Manuscritos foram escondidos, confiscados, reconstituídos, despachados com títulos falsos, publicados sem que o autor soubesse e, num ou noutro caso, escritos novamente porque a primeira versão havia sumido. A história editorial de Arenas não corre ao lado de sua literatura como informação complementar, dessas que cabem na orelha. Está dentro dela, pressionando a forma, multiplicando vozes, alterando finais e convertendo cada romance numa fuga que precisa ser recomeçada.
No dia 16 de julho de 2026, completam-se 83 anos do nascimento de Reinaldo Arenas Fuentes, ocorrido em Aguas Claras, na antiga província cubana de Oriente. A ocasião pode servir para reler um escritor cuja glória póstuma trouxe uma injustiça embutida. “Antes que Anoiteça”, a autobiografia publicada depois de sua morte, e o belo filme que Julian Schnabel realizou em 2000 fizeram dele uma personagem mundialmente reconhecível: o homossexual perseguido por Fidel Castro, o escritor preso, o fugitivo de Mariel, o exilado com aids que ditou suas memórias antes de se suicidar aos 47 anos. Tudo isso é verdade, embora nem todos os detalhes tenham a mesma solidez documental. O problema começa quando essa verdade biográfica, tão poderosa e cinematográfica, ocupa o espaço inteiro e empurra para um canto o romancista que a tornou possível.
Arenas cresceu numa pobreza rural severa, abandonado pelo pai ainda bebê e cercado pela mãe, pelos avós e por uma extensa família de mulheres também abandonadas. A natureza lhe oferecia o que os adultos não tinham para dar: mistério, liberdade, erotismo e um repertório de imagens que jamais deixaria sua escrita. A infância reaparece com brutalidade e fantasia em “Celestino Antes del Alba”, seu primeiro romance, publicado em Cuba em 1967. O narrador é um menino sem nome que vive numa casa rural cheia de fome, agressões, mortes provisórias, ressurreições e mulheres infelizes. Seu único aliado pode ser um primo real, imaginário ou as duas coisas, o poeta Celestino, que cobre os troncos das árvores com versos incompreensíveis. O avô responde àquele desperdício de madeira e autoridade cortando as árvores.
Seria cômodo transformar o velho de machado numa antecipação doméstica de Fidel Castro, mas a literatura de Arenas funciona melhor do que esse tipo de correspondência escolar. O avô não é o Estado cubano em miniatura, Celestino não é exatamente Reinaldo e o romance, escrito quando o jovem autor ainda encontrava espaço nas instituições revolucionárias, não é uma denúncia cifrada de acontecimentos futuros. O que já existe ali é algo mais fundo: a incompatibilidade entre a imaginação e qualquer poder que pretenda decidir onde as palavras podem ser escritas. A árvore é derrubada, Celestino escreve em outra. O livro anuncia três finais e continua depois dos três. Os personagens morrem com frequência e voltam na página seguinte, como se até a morte tivesse sido denunciada por abuso de autoridade.
O poeta escreve em outra árvore
A adesão inicial de Arenas à Revolução Cubana não foi uma ilusão juvenil incompreensível que o futuro dissidente precisasse esconder. Para um adolescente pobre formado sob a ditadura de Fulgencio Batista, a derrubada do regime prometia terra, estudo e alguma dignidade. Ele se juntou aos rebeldes quando a luta já chegava ao fim e foi depois beneficiado pelos programas educacionais do novo governo. Trabalhou como contador agrícola, estudou em cursos patrocinados pelo Estado, mudou-se para Havana e conseguiu emprego na Biblioteca Nacional José Martí. A Revolução o retirou do isolamento rural, pôs livros ao alcance de suas mãos e lhe permitiu entrar no campo literário. Mais tarde, o mesmo aparato que o educara passaria a vigiar sua sexualidade, impedir suas publicações e eliminar seu nome da vida cultural. Há uma revolução que se converteu em governo e um escritor incapaz de converter rebeldia em obediência.
“Celestino Antes del Alba” recebeu menção num concurso da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba e acabou se tornando o único romance de Arenas publicado no país durante sua permanência na ilha. Seus primeiros leitores oficiais puderam tratá-lo como denúncia da miséria camponesa anterior a 1959, mas a forma do livro já era difícil de enquadrar no otimismo histórico exigido pela cultura revolucionária. Não havia progresso, herói positivo, chegada a um futuro luminoso ou sequer uma realidade única. Havia fragmentos, mudanças inexplicadas de pessoa narrativa, citações de escritores célebres misturadas a falas banais da família e aquelas mortes que não conseguiam pôr fim a nada. O autor que o governo poderia apresentar como produto da nova Cuba recusava a ideia de que a nova Cuba fosse o ponto final da história.
Frei Servando pula o muro
Seu segundo romance tornou o desacordo impossível de disfarçar. “O Mundo Alucinante” recria a vida do frade mexicano Servando Teresa de Mier, que no fim do século 18 escandalizou a hierarquia católica, enfrentou a Inquisição, atravessou países, colecionou prisões e participou da luta pela independência do México. Arenas encontrou o personagem enquanto pesquisava literatura mexicana na Biblioteca Nacional e compreendeu que os dois pertenciam à mesma família espiritual: a dos homens que escapam de uma cadeia para cair em outra, sobrevivem ao poder sem jamais deixar de carregá-lo nas costas e chegam ao triunfo a tempo de descobrir que a tirania apenas trocou de roupa.
O livro não tenta devolver ao leitor o “verdadeiro” frei Servando. Em seu começo, avisa que contará a vida como foi, como poderia ter sido e como o autor gostaria que tivesse sido. Os capítulos iniciais repetem os mesmos acontecimentos em primeira, segunda e terceira pessoa; depois o sistema se desarranja, os tempos verbais enlouquecem e cada voz contradiz as outras. Arenas cita as memórias do frade para desmenti-las com uma fantasia, empregando a fonte histórica como combustível para a mentira literária. Personagens de épocas diferentes se cruzam, Virginia Woolf entra em cena por meio de “Orlando”, prisões se multiplicam e a cronologia perde a compostura.
A ousadia não consiste em misturar realidade e ficção, prática tão antiga quanto o primeiro historiador que decidiu melhorar uma batalha. Arenas recusa a existência de uma versão com autoridade para organizar todas as outras. Nem o documento, nem o narrador, nem o escritor têm a última palavra. A história oficial se apresenta como linha reta porque o poder gosta de marchas; “O Mundo Alucinante” responde com círculos, desvios, quedas e uma porção de gargalhadas. O resultado é uma das obras precursoras do chamado novo romance histórico latino-americano, mas o rótulo soa comportado demais para um livro que trata a História como um preso trata o lençol da cela: material disponível para fabricar uma corda e pular o muro.
O manuscrito recebeu menção honrosa num concurso de 1966, não foi editado em Cuba e saiu clandestinamente no exterior no fim da década. A leitura política parecia inevitável, sobretudo depois que o próprio Arenas se transformou em dissidente, mas testemunhos recolhidos posteriormente sugerem que o conflito com os censores também passou por sua recusa a cortar as cenas homoeróticas do romance. Separar as duas coisas talvez seja impossível. Na Cuba revolucionária daquele período, a homossexualidade masculina era apresentada como decadência burguesa, fraqueza moral e ameaça política. O corpo que não obedecia à masculinidade militar já carregava, antes de qualquer panfleto, uma acusação contra o regime.
A sexualidade de Arenas não entra na obra apenas como tema ou credencial de autenticidade. Entra como princípio formal. Seus personagens atravessam fronteiras, mudam de identidade, recusam classificações, entregam-se ao desejo em lugares impróprios e fazem do prazer uma experiência incompatível com a administração burocrática da vida. O erotismo pode ser jubiloso, grotesco, cômico e às vezes cansativo — como também ocorre, diga-se, com a enumeração quase industrial de aventuras sexuais em “Antes que Anoiteça”. A liberdade sexual não surge idealizada. Pode produzir solidão, perigo e ridículo.
Em 1973, um episódio numa praia de Havana levou Arenas e um amigo à prisão sob acusações que incluíam escândalo público e corrupção ou abuso de menores. O escritor negou a versão oficial, fugiu antes de ser encarcerado definitivamente, passou semanas escondido no Parque Lenin e foi recapturado. Seu caso foi então engrossado pela publicação clandestina no exterior, pela condição de dissidente e por suas tentativas de escapar do país. Preso em El Morro entre 1974 e 1976, conviveu com criminosos comuns, escreveu cartas para outros detentos em troca de papel e acabou coagido a assinar uma confissão em que renunciava à própria conduta sexual e admitia atividades contrarrevolucionárias.
A fórmula segundo a qual Arenas foi “preso por ser homossexual” é politicamente verdadeira e juridicamente incompleta. O Estado não precisou criar o crime de escrever romances fantásticos sendo gay. Bastou reunir acusações comuns, legislação moral, controle editorial e uma cultura institucional em que homossexualidade e deslealdade à Revolução eram tratadas como vizinhas, quando não como sinônimas. Tampouco se deve confundir sua passagem por El Morro com as Unidades Militares de Ajuda à Produção, os campos de trabalho que funcionaram sobretudo na década anterior e receberam homossexuais, religiosos e outros indivíduos considerados desviantes. A repressão tem modalidades, datas e repartições. Juntar tudo numa única masmorra imaginária favorece a propaganda, inclusive a propaganda justa, mas atrapalha a compreensão.
A prisão deixou marcas profundas e forneceu ao personagem público de Arenas um de seus episódios centrais, porém sua literatura não esperou por El Morro para descobrir que o mundo era uma cadeia. Prisões, fugas e perseguições já estruturavam “O Mundo Alucinante”. Em “Celestino Antes del Alba”, a casa familiar era um espaço sem saída. A “Pentagonía”, o projeto de cinco romances que Arenas desenvolveu durante quase toda a vida, faria da história cubana uma sucessão de confinamentos familiares, políticos, sexuais e linguísticos. A experiência confirmou a metáfora; não a inventou.
Formada por “Celestino Antes del Alba”, “El Palacio de las Blanquísimas Mofetas”, “Otra Vez el Mar”, “El Color del Verano” e “El Asalto”, a “Pentagonía” acompanha a formação, o apogeu e a decomposição da Revolução sem se comportar como crônica histórica. Os personagens reaparecem transformados, a autobiografia se espalha entre máscaras, o tempo dobra sobre si mesmo e a Cuba real é submetida a exageros que a tornam, paradoxalmente, reconhecível. No último volume, o Estado totalitário alcança uma espécie de perfeição obscena: todos vigiam todos, a linguagem foi devastada e o próprio desejo precisa funcionar na clandestinidade.
A sátira mais exuberante do ciclo está em “El Color del Verano”, carnaval de centenas de personagens, perseguições, paródias e aparições de figuras da vida cultural cubana. A ilha começa a se soltar de sua base e ameaça navegar mar afora, solução geográfica desesperada para um problema político persistente. O excesso pode exaurir. Arenas nem sempre sabe — ou deseja — parar uma piada depois que ela já atingiu o alvo, e seus ditadores grotescos às vezes perdem espessura ao se transformar em bonecos de pancadaria. Contra o poder que elimina versões, ele produz versões demais.
Nova York não era o fim da fuga
Em 1980, o êxodo de Mariel lhe deu a saída que inúmeras tentativas frustradas não haviam conseguido. Arenas chegou à Flórida entre cerca de 125 mil cubanos, grupo marcado nos Estados Unidos por suspeitas políticas, raciais e sexuais. Miami lhe pareceu uma caricatura de Cuba. Mudou-se para Nova York, onde encontrou liberdade para publicar e falar, mas não o repouso que a palavra exílio costuma prometer de longe. A língua ao redor era outra, o dinheiro era escasso, os apartamentos eram ruins e o país que o acolhera se mostrava capaz de produzir sua própria mistura de solidão e vulgaridade.
Na entrevista de 1983, Arenas descreveu o exilado como alguém que vive num lugar enquanto continua caminhando pelas ruas de outro, espécie de fantasma dividido entre dois contextos. Gostava de Nova York porque ali todos eram estrangeiros e a cidade lhe permitia alternar multidão e isolamento. Não dizia estar bem. Dizia, com precisão menos promocional, sentir-se menos mal. Começou então a imaginar uma “literatura do desenraizamento”, perceptível em textos como “O Porteiro” e “Viaje a La Habana”, nos quais a liberdade americana aparece contaminada pela precariedade, pelo consumo, pela nostalgia e pela impossibilidade de regressar ao lugar que só continua existindo na memória.
O diagnóstico de aids veio em 1987, depois de meses de febre. Arenas passou a trabalhar contra um prazo que deixara de ser literário. Concluiu os volumes finais da “Pentagonía”, organizou manuscritos e ditou “Antes que Anoiteça” em mais de vinte fitas. Em 7 de dezembro de 1990, debilitado pela doença e incapaz de continuar escrevendo, suicidou-se em seu apartamento de Hell’s Kitchen. Deixou uma carta atribuindo a decisão à saúde e transformando a própria morte, até o último momento, numa declaração contra Fidel Castro.
Seria ingênuo ler “Antes que Anoiteça” como ata notarial. Arenas reorganiza a experiência, funde episódios, exagera números, encena conversas e se apresenta simultaneamente como camponês prodigioso, amante insaciável, vítima exemplar e inimigo irredutível da ditadura. O livro constrói um Reinaldo Arenas à altura de sua própria lenda. Isso não o torna falso. Torna-o autobiografia — gênero em que a vida precisa aceitar as exigências formais de um personagem chamado “eu”. Pesquisas baseadas em cartas, manuscritos e depoimentos de contemporâneos vêm corrigindo ou relativizando detalhes, sem desmontar o quadro histórico de censura, homofobia, prisão e exílio que sustenta o relato.
O êxito internacional da autobiografia, ampliado pelo filme de Schnabel e pela interpretação de Javier Bardem, garantiu a Arenas uma posteridade que muitos escritores censurados não conseguem alcançar. Quem passa por “Antes que Anoiteça” e não chega a “Celestino Antes del Alba”, “O Mundo Alucinante” ou à “Pentagonía” conhece o personagem e perde o escritor — justamente o homem que desconfiava de realidades únicas, inclusive daquela realidade chamada Reinaldo Arenas.
Seus arquivos estão hoje preservados em universidades, submetidos à calma classificação de bibliotecários: caixas, correspondência, versões, datiloscritos. É um destino respeitável para papéis que passaram décadas correndo perigo. Um manuscrito de “Con los Ojos Cerrados”, escrito em folhas que ainda trazem no verso o timbre da Biblioteca Nacional José Martí, saiu clandestinamente de Cuba, permaneceu anos esquecido num armário e sobreviveu para contar a história. Outro exemplar chegou a Montevidéu e foi publicado sem que Arenas tomasse conhecimento.
Primeiro cortaram as árvores em que Celestino escrevia. Depois censuraram os livros, revistaram quartos, confiscaram papéis, fecharam o autor numa fortaleza, empurraram-no para fora do país e deixaram que o teto de seu apartamento americano viesse abaixo. Reinaldo Arenas continuou escrevendo. Não porque acreditasse que a literatura derrotaria a História — ele conhecia a História bem demais para esse tipo de otimismo —, mas porque escrever era a única forma de não permitir que ela tivesse uma versão final.

