Campos Lara ainda dorme. Maria Rosa, não. Antes que o poeta abra os olhos para um mundo ofensivamente composto de contas, comida, roupa e crianças, sua mulher já se levantou, percorreu a casa, fez render o que quase não existe e enfrentou a pequena multidão de objetos pobres que exigem providências. A discussão sobre arte virá depois. Primeiro, trabalho.
É assim que Orígenes Lessa abre “O Feijão e o Sonho”, romance publicado em 1938 e transformado pelo tempo em seu livro mais famoso, dando à personagem supostamente prosaica o comando da cena. Maria Rosa acorda antes do marido, antes dos filhos e, num sentido que a narrativa desenvolverá sem precisar sublinhar, antes do próprio sonho. Alguém tem de pôr a casa em movimento para que Campos Lara possa se dar ao luxo de permanecer imóvel.
O feijão não é o vilão
O título é ótimo, mas armou uma emboscada crítica que sucessivas gerações de professores e estudantes não fizeram grande esforço para evitar. De um lado estaria o feijão, alimento terrestre, símbolo da vulgaridade prática, do dinheiro, das exigências mesquinhas da vida. Do outro, o sonho, domínio do espírito, da poesia, da beleza, de tudo aquilo que torna a existência menos parecida com uma repartição pública. Maria Rosa seria o feijão. Campos Lara, o sonho.
Que beleza. Dá até para montar uma questão de múltipla escolha.
O problema é que o romance de Lessa, embora escrito numa prosa clara e hospitaleira, está longe de ser tão simplório quanto o esquema. O feijão, coitado, virou com o passar das décadas uma espécie de vilão filisteu, inimigo da arte e da transcendência. No livro ele é almoço, principalmente quando falta. O sonho pode ser a grande literatura que justifica uma vida, claro, mas também servir de biombo elegante para egoísmo, vaidade e irresponsabilidade. A poesia não perde sua grandeza por causa disso. O poeta é que perde um pouco da sua.
Campos Lara, chamado Juca na intimidade, não é um impostor. Esse detalhe conta muito. Lessa poderia ter facilitado as coisas fazendo dele um poetastro ridículo, um sujeito sem talento que tortura a família em nome de versos destinados ao esquecimento. Seria uma sátira mais simples, talvez engraçada, certamente menor. Campos Lara acredita de verdade na literatura e tudo indica que possui algum talento. Sua dor diante da incompreensão não é falsa. Falsa é a conta que ele faz, atribuindo ao futuro reconhecimento de sua obra o poder de pagar retroativamente as privações impostas aos outros.
Maria Rosa também não recebe auréola. Cansada, irritada e muitas vezes agressiva, ela não é a dona de casa santa que sofre em silêncio para permitir que o gênio masculino floresça. Ainda bem. Fala, reclama, acusa, humilha. Em certos momentos, acerta o marido onde dói com a precisão de quem conhece os pontos fracos daquele corpo e daquele orgulho. Sua humanidade está justamente nisso. A mulher que passa o dia tentando evitar que a família desabe não chega à noite com disposição para exercer a delicadeza compreensiva que se espera das esposas de artistas em biografias edificantes.
Lessa constrói o casamento sobretudo pelo diálogo, um de seus grandes recursos como ficcionista. Maria Rosa fala a língua dos prazos, das necessidades e das coisas que precisam ser feitas agora. Campos Lara responde com explicações, esperanças e um reconhecimento sempre localizado em alguma curva futura da estrada. Ela enumera o que falta. Ele tenta demonstrar que aquilo que ainda não existe pode ser mais importante.
Não se trata de decidir qual dos dois tem razão – ou pelo menos não apenas disso. Os dois têm, mas só uma pessoa paga diariamente pela razão dos dois.
O romance é muito mais inteligente quando expõe essa desigualdade do que quando parece satisfeito com a oposição simbólica anunciada no título. A pobreza não aparece como conceito, estatística ou paisagem social contemplada da janela. Está nos utensílios da cozinha, na comida escassa, nas dívidas, nas pequenas decisões que ocupam a cabeça de Maria Rosa e passam longe da de seu marido. Aquilo que hoje se chama trabalho invisível se torna visível sem receber nome, porque Lessa mostra a mulher em ação. O narrador não precisa explicar que a casa depende dela. Basta deixar que todos continuem dormindo.
Um poeta com emprego
Há uma tentação biográfica evidente no livro, e convém não se atirar sobre ela com o entusiasmo de quem encontrou a chave de uma porta que talvez nem exista. Orígenes Lessa conheceu a dificuldade material. Nos primeiros anos no Rio de Janeiro, trabalhou como professor, instrutor de ginástica e jornalista. Em 1928, entrou no departamento de propaganda da General Motors, iniciando uma carreira que o levaria por agências brasileiras e estrangeiras e duraria décadas. A publicidade foi seu ganha-pão, como definiu Francisco de Assis Barbosa ao recebê-lo na Academia Brasileira de Letras.
Isso não transforma Campos Lara num autorretrato. O contraste é mais interessante. Na vida, Lessa encontrou uma solução prática para o problema que dilacera seu personagem. Vendeu sua capacidade de escrever no mercado publicitário e preservou, como pôde, espaço para a literatura. Escrevia anúncios, textos para rádio, contos e romances. Não escolheu entre o feijão e o sonho. Tratou de pôr os dois no mesmo prato, combinação menos elegante que a dualidade romântica e muito mais difícil de executar.
Pode-se imaginar o que Campos Lara pensaria dessa saída. Talvez a considerasse uma rendição. Talvez visse na linguagem publicitária uma prostituição do talento, palavra de grande sucesso entre artistas sem dinheiro quando falam do trabalho alheio. Lessa parece ter tido menos frescura. Conhecia o risco de a sobrevivência devorar a vocação, mas conhecia também o perigo contrário, aquele em que a vocação devora todo mundo em torno do sujeito vocacionado.
Publicado quando o autor tinha 35 anos, “O Feijão e o Sonho” recebeu em 1939 o Prêmio Antônio de Alcântara Machado e se tornou o centro estável de uma carreira longa e muito mais variada do que sua reputação atual sugere. Lessa escreveu contos urbanos, livros de reportagem, ficção fantástica, memórias de infância, ensaios e uma quantidade industrial de literatura para jovens. Nada alcançou a permanência deste casamento em crise.
O recreio depois do sonho
A televisão ajudou. Em 1976, Benedito Ruy Barbosa adaptou o romance para uma novela de 85 capítulos exibida pela Globo. A trama doméstica, com suas brigas, humilhações e esperanças, tinha qualidades óbvias para o folhetim. A adaptação ampliou o público da obra e reforçou a imagem do casal dividido entre realidade e ideal, uma oposição que a televisão, obrigada a fazer conflitos aparecerem de longe, não tinha motivo algum para tratar com sutileza excessiva.
Depois veio a escola. Incorporado à Série Vaga-Lume pela Ática, décadas após a publicação original para adultos, “O Feijão e o Sonho” passou a formar leitores ao lado de aventuras juvenis, romances policiais e histórias de mistério. A operação editorial foi um sucesso, mas produziu outro tipo de achatamento. Um título composto por dois substantivos simbólicos, cada um esperando sua interpretação, é praticamente um presente para questionários pedagógicos. O aluno identifica o feijão, identifica o sonho, relaciona as colunas e vai para o recreio.
O livro é melhor que a atividade de compreensão.
Sua linguagem acessível também contribuiu para que fosse tratado como obra simples, destino frequente de escritores que dominam a técnica de contar uma história sem espalhar andaimes pela página. Lessa não faz do estilo um espetáculo autônomo. Sua frase se empenha em pôr gente em movimento, distribuir forças numa conversa, deixar que um objeto doméstico pese mais do que um parágrafo de sociologia. É uma simplicidade trabalhada, embora irregular, por vezes acomodada e marcada pelas convenções de seu tempo.
Algumas dessas convenções envelheceram mal. Expressões raciais, comparações hoje inaceitáveis e certos pressupostos sobre homens, mulheres e casamento exigem do leitor contemporâneo uma distância que o público de 1938 provavelmente não tinha. Edições recentes chegaram a incluir nota explicativa para uma comparação feita por Maria Rosa com o trabalho escravizado. A nota é necessária. Não resolve tudo, nem deveria. Livros vivos envelhecem à vista do leitor, carregando rugas, manchas e ideias mortas no mesmo corpo em que preservam cenas de uma vitalidade irritante.
Maria Rosa é uma dessas presenças. Ou melhor, uma personagem construída por muitas cenas. Seria exagerado convertê-la numa heroína feminista antes do tempo, como também é tolo confiná-la ao papel de inimiga do sonho. Ela percebe algo que Campos Lara, tão sensível à poesia, não consegue enxergar. A literatura pode ser uma atividade nobre e ainda assim produzir consequências ordinárias, mesquinhas, brutais. Nenhum verso alimenta uma criança por osmose. Nenhum futuro reconhecimento lava a roupa acumulada no presente.
Isso torna Campos Lara desprezível? Não inteiramente. O romance preserva nele uma parcela de grandeza, ou pelo menos de necessidade humana, sem a qual o título perderia metade da força. Maria Rosa também sonha, embora seus desejos sejam menos bem servidos pela linguagem e pelo prestígio cultural. Campos Lara precisa de feijão, ainda que se comporte como se a fome fosse uma vulgaridade inventada pelos outros. Eles não ocupam polos puros. Vivem misturados, como vivem as pessoas, e é dessa combinação mal resolvida que o livro tira sua durabilidade.
Quarenta anos depois da morte de Orígenes Lessa, é possível que “O Feijão e o Sonho” sobreviva menos por sua famosa pergunta sobre como conciliar arte e vida do que pela maneira concreta como a formula. A conciliação não acontece numa conferência, numa mesa de bar ou na cabeça atormentada do escritor. Acontece dentro de uma casa, entre marido e mulher, antes do café.
Campos Lara pode ser o poeta do casal. Mas, quando o romance começa, o sonho ainda está na cama. Maria Rosa já se levantou.

