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No início de julho, perto de 200 mil exemplares de livros de três escritores brasileiros mortos trocaram de mãos. Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Orígenes Lessa deixavam o catálogo da Global, impedida por uma pendência judicial de renovar os contratos, e o estoque remanescente era vendido à rede Livraria Leitura. Vendido o estoque, entenda-se, não os direitos autorais — estes permaneciam numa região bem menos iluminada do mercado editorial, à espera de uma solução. Os livros já impressos continuariam disponíveis por algum tempo. Depois, quem sabe.

A notícia chegou às vésperas do quadragésimo aniversário da morte de Lessa, ocorrida em 13 de julho de 1986, um dia depois de ele completar 83 anos, e tem algo de cruelmente adequado. Poucos autores brasileiros do século 20 foram tão lidos e terminaram tão repartidos entre prateleiras que mal parecem pertencer à mesma livraria. Há o romancista de “O Feijão e o Sonho”, o memorialista de “Rua do Sol”, o contista urbano, o repórter da revolução de 1932, o publicitário, o acadêmico, o autor de livros para crianças e adolescentes. Este último, dependendo da idade de quem responde, engole todos os demais. Orígenes Lessa é o homem de “Memórias de um Cabo de Vassoura”.

Em novembro de 1981, ao recebê-lo na Academia Brasileira de Letras, Francisco de Assis Barbosa afirmou que o cabo de vassoura já passara de um milhão de exemplares vendidos. Contou também que o livro inspirara um desfile da Unidos de Lucas no qual trezentas crianças apareceram montadas em cabos de vassoura. Enquanto o escritor de 78 anos vestia o fardão e ocupava a Cadeira 10 da instituição máxima de consagração literária do país, seu personagem mais popular galopava no carnaval entre crianças.

Lessa tinha chegado tarde à Academia, depois de uma carreira comprida, premiada e irregular. Estreara em 1929 com os contos de “O Escritor Proibido”, publicara dois testemunhos de sua participação e prisão na Revolução Constitucionalista — “Não Há de Ser Nada” e “Ilha Grande” — e em 1938 lançara o romance que sustentaria sua reputação adulta. “O Feijão e o Sonho” conta a história de Campos Lara, chamado Juca, um poeta e professor convencido de que sua devoção à literatura tem valor suficiente para compensar a crônica incapacidade de sustentar a casa. Maria Rosa, sua mulher, discorda.

Maria Rosa não cabe na ficha de leitura

O livro começa com ela em movimento antes que os outros acordem. Há roupa, comida, contas, filhos, utensílios e uma manhã que já nasce atrasada. Campos Lara ainda dorme ou preserva de algum modo sua preciosa vida interior. A famosa oposição do título demora pouco a ficar clara, mas o romance é melhor do que a fórmula que o tornou uma espécie de parábola escolar. O feijão não representa uma baixeza materialista diante da nobreza do sonho. Tem que ser comprado, escolhido, cozido e posto na mesa por alguém. A poesia de Campos Lara repousa sobre o trabalho de Maria Rosa, que não recebe salário, prêmio literário ou tempo livre para cultivar o espírito.

Lessa conhecia bem o conflito entre escrever e pagar contas, mas encontrou uma saída diferente daquela de seu personagem. Passou décadas na publicidade, começando como tradutor no departamento de propaganda da General Motors e seguindo por agências brasileiras e estrangeiras. Foi o primeiro presidente da Associação dos Profissionais de Propaganda. O emprego comercial da palavra garantiu sua sobrevivência enquanto ele escrevia contos, romances, reportagens e novelas, algumas fantásticas, às vezes tudo quase ao mesmo tempo.

Isso não transforma Campos Lara em alter ego negativo nem autoriza a conclusão fácil de que a publicidade ensinou Lessa a escrever com clareza. Um escritor não sai de uma agência com um estilo pronto no bolso, ao lado do salário. Ainda assim, é difícil não ver interesse no fato de que o homem que inventou um poeta esmagado pelo problema da subsistência tenha passado a vida resolvendo-o com frases. Anúncios de dia, literatura na hora possível.

A entrada posterior de “O Feijão e o Sonho” na Série Vaga-Lume ajudou a manter o romance vivo, mas também alterou sua identidade pública. Destinado originalmente a adultos, premiado em 1939 e adaptado em 1976 para uma novela de 85 capítulos da TV Globo, o livro foi pouco a pouco recrutado pela escola. A capa com o vaga-lume passou a funcionar como certidão de nascimento retrospectiva. Para milhões de leitores, Campos Lara e Maria Rosa se tornaram personagens de um “clássico juvenil”, categoria que costuma abranger tanto livros escritos para jovens quanto obras adultas que algum editor, professor ou planejador de currículo julgou suportáveis por adolescentes.

A escola preserva livros e faz suas pequenas maldades. Sem ela, “O Feijão e o Sonho” talvez tivesse desaparecido de circulação há décadas. Com ela, correu o risco de ser espremido até caber numa lição sobre a necessidade de conciliar idealismo e realidade, dessas que terminam com uma pergunta do tipo “Você acha importante seguir seus sonhos sem esquecer suas responsabilidades? Justifique”.

A Baleia Branca

A associação automática entre Lessa e a Vaga-Lume provoca ainda outra confusão. “Memórias de um Cabo de Vassoura” não nasceu na coleção da Ática. Sua primeira circulação, em 1970 ou 1971 — as fontes divergem —, ocorreu nas Edições de Ouro, dentro da coleção A Baleia Branca. A diferença pode parecer coisa de bibliógrafo com lupa, mas ajuda a recompor um pedaço apagado da história da literatura juvenil brasileira, que não começou nem terminou na onipresente série de capas coloridas diante da qual algumas gerações aprenderam a reconhecer um livro “para a escola”.

O cabo de vassoura também merece ser retirado por um momento do cercadinho pedagógico. Narrando em primeira pessoa, ele recorda sua vida desde a árvore, passa pela oficina, transforma-se em utensílio, é usado, descartado e reaproveitado como brinquedo. O truque da personificação não tem grande novidade em si — objetos falantes vinham trabalhando na literatura infantil havia séculos —, mas Lessa sabe tirar dele uma combinação eficaz de humor e desconforto. O narrador existe segundo a utilidade que os seres humanos lhe atribuem. Pode limpar a casa, virar cavalo, perder o valor, cair no lixo. Ao mudar de dono e de função, observa também as diferenças entre crianças, empregados e patrões.

A linguagem acessível garantiu o encontro com leitores muito jovens. Depois chegaram glossários, projetos interdisciplinares, perguntas de compreensão, propostas sobre solidariedade, meio ambiente, reciclagem e valores. Nada disso é absurdo. O risco começa quando o aparato escolar se torna mais visível que o livro, como uma moldura grossa demais em torno de um desenho delicado. A aventura do cabo de vassoura contém material suficiente para uma conversa sobre classe, trabalho doméstico, consumo e abandono, mas não foi escrita como apostila de cidadania.

A popularidade juvenil prejudicou a reputação adulta de Lessa? É possível que sim, mas seria cômodo demais resolver o caso assim. Escritores lidos na escola muitas vezes pagam por esse privilégio com a suspeita de facilidade, como se o interesse de crianças e adolescentes fosse uma espécie de contaminação crítica. No entanto, o catálogo adulto de Lessa também apresenta oscilações, repetições e obras que envelheceram. A imagem escolar cresceu tanto que tornou difícil enxergar o que havia atrás dela.

“Rua do Sol”, de 1955, é provavelmente o melhor exemplo. O livro recupera a infância do autor em São Luís do Maranhão, onde o pai exercia atividade missionária protestante, e transforma em ficção a casa, a rua, a morte precoce da mãe e uma cidade surpreendida pela chegada da modernidade. Chamá-lo de autobiográfico é correto até certo ponto, aquele em que a palavra começa a atrapalhar. A São Luís de Lessa pertence à memória, mas foi reorganizada por um romancista capaz de compreender que uma lembrança privada ganha força quando deixa de servir apenas ao dono. A chegada do primeiro automóvel, vista por uma criança, é também uma cidade inteira assistindo ao futuro entrar pela rua.

Os contos ampliam ainda mais o quadro. Lêdo Ivo chegou a sugerir que fosse neles, não nos romances, que a arte de Lessa atingisse seu ponto mais alto. Faz sentido. Sua rapidez de repórter, o ouvido para o diálogo, o humor e a atenção dedicada a vidas pequenas encontram na narrativa curta uma medida confortável. Em “João Firmino”, a família de um menino pobre se orgulha porque ele será o primeiro dos seus a ter um caixão. Em “A aranha”, o animal sai de uma fresta atraído pelo som de um violão e volta a se esconder quando a música para. Entre uma história e outra cabem engraxates, trabalhadores, prostitutas, migrantes, moradores de pensão, ganhadores do jogo do bicho e gente que quase nunca se imagina candidata a protagonista.

Lessa não precisa engrandecê-los artificialmente. Seus melhores personagens ganham existência pela fala, por um gesto, pelo modo como se relacionam com um objeto ou contam algum dinheiro. Às vezes o desenho é rápido demais e o ser humano se aproxima do tipo social. Outras vezes surge em poucas linhas aquele detalhe que um romance inteiro não conseguiria melhorar.

Trinta mil volumes em Lençóis

Prestígio crítico, popularidade, presença acadêmica, circulação comercial e sobrevivência escolar são moedas diferentes, embora o mercado e as instituições gostem de jogá-las no mesmo bolso. Orígenes Lessa teve leitores, prêmios, adaptações, vendas imensas e uma cadeira na ABL. Não teve, na mesma proporção, uma fortuna crítica organizada, uma biografia moderna de referência, edições de obras completas ou um lugar firme nas histórias da literatura brasileira. A bibliografia se espalha por compartimentos — publicidade, ficção científica, literatura juvenil, memória de São Luís, testemunho de 1932. Cada especialista encontra um Lessa e raramente conversa com os outros.

Ele próprio parecia menos preocupado em unificar a imagem do que em multiplicar os leitores. No discurso de posse na Academia, depois de cumprir os ritos de homenagem aos antecessores, falou demoradamente da biblioteca municipal de Lençóis Paulista, cidade onde nascera, embora não tivesse passado a infância. Contou como mobilizara escritores, editores e amigos para ampliar o acervo, então próximo de trinta mil volumes e frequentado por milhares de pessoas.

Os muitos Orígenes Lessa nunca se fundiram num retrato bem acabado. O publicitário sabia que públicos diferentes exigem mensagens diferentes. O escritor adulto podia tratar da pobreza doméstica de Maria Rosa, da infância maranhense, da morte abolida por um cientista ou da solidão de um trabalhador. O autor juvenil entregava a palavra a vassouras, fuscas e vira-latas. O homem público ajudava a encher uma biblioteca. Não era necessário que tudo coubesse na mesma campanha.

Agora, quarenta anos depois de sua morte, a unidade possível está por algum tempo num estoque. Há exemplares adultos e juvenis, livros premiados e escolares, obras conhecidas e títulos que quase ninguém procura, todos submetidos à lógica simples de vender até acabar. A pendência judicial que encerrou o contrato da Global ainda não revelou qual editora poderá imprimir novas tiragens. Quando o último volume sair da última caixa, a pergunta sobre a permanência de Orígenes Lessa deixará de ser uma abstração crítica. Quem vai publicá-lo outra vez?

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