Discover

Em 1889, a religiosa italiana Francesca Cabrini (Cristiana Dell’Anna) chega a Nova York com a missão de acolher crianças imigrantes abandonadas. Sob a direção de Alejandro Monteverde, “Cabrini” acompanha a tentativa da freira de criar orfanatos, escolas e hospitais em uma cidade dominada pela pobreza, pelo preconceito contra italianos e por autoridades pouco dispostas a ajudá-la. Com a saúde debilitada, dificuldades para falar inglês e quase nenhum dinheiro, ela precisa convencer representantes da Igreja, empresários e políticos de que aquelas vidas merecem mais que caridade ocasional.

Antes de atravessar o Atlântico, Cabrini procura o papa Leão 13 (Giancarlo Giannini) com o desejo de levar sua congregação para a China. O pontífice, porém, pede que ela siga para o oeste e cuide dos milhares de italianos que haviam partido para os Estados Unidos em busca de trabalho. Muitos viviam em cortiços insalubres, recebiam salários baixos e eram tratados como cidadãos indesejáveis.

A mudança de destino leva Cabrini e suas companheiras a uma Nova York pouco interessada em recebê-las. O arcebispo Corrigan (David Morse) permite que permaneçam na cidade, mas tenta conter os planos da religiosa. Ele teme problemas financeiros, desgaste com as autoridades e o tamanho de uma missão que nasce sem prédio, doações ou apoio político.

A primeira necessidade das irmãs é bastante terrena. Elas precisam de um lugar para dormir. Depois, procuram comida, camas e uma casa capaz de acolher crianças. Cabrini descobre que a fé pode abrir algumas portas, mas dificilmente paga aluguel. Por isso, ela passa a visitar comerciantes, famílias ricas e possíveis financiadores, sempre enfrentando a mesma dúvida. Por que alguém deveria investir nos filhos de imigrantes pobres?

Crianças escondidas pela cidade

Nos bairros mais precários, Cabrini conhece menores que vivem nas ruas, em porões e até nos túneis subterrâneos. Paolo (Federico Ielapi) é um dos garotos que representam essa infância abandonada, obrigada a sobreviver longe das escolas e da proteção dos adultos. Ele carrega perdas profundas e desconfia das promessas feitas por pessoas mais velhas.

A religiosa também se aproxima de Vittoria (Romana Maggiora Vergano), jovem italiana explorada por homens que controlam sua moradia e seu trabalho. A presença dela dá ao filme uma dimensão menos idealizada da imigração. Mulheres e crianças sofrem perigos diferentes, embora pertençam à mesma comunidade rejeitada.

Cabrini percebe que retirar uma criança da rua exige muito mais que boa intenção. É preciso oferecer alimentação, educação, acompanhamento médico e segurança. Cada novo acolhimento aumenta as despesas da congregação. Ao mesmo tempo, as condições dos imóveis disponíveis ameaçam a saúde de todos. O projeto cresce, mas as contas crescem junto, numa velocidade que nenhuma oração consegue desacelerar.

Cristiana Dell’Anna interpreta Cabrini sem transformar a personagem em uma figura distante. Sua voz é baixa, sua respiração denuncia o cansaço e seu corpo frequentemente parece prestes a pedir uma pausa. Ela, porém, permanece atenta a tudo. Observa salas, escuta recusas e volta com outra proposta. Há certa graça na irritação dos homens que acreditam ter encerrado o assunto e descobrem que a pequena freira italiana retornou ao gabinete.

A caridade também precisa de dinheiro

O roteiro dedica bastante espaço ao lado administrativo da missão. Cabrini procura propriedades, organiza arrecadações e calcula despesas porque sabe que acolher crianças depende de uma estrutura permanente. A produção destaca esse aspecto empreendedor sem transformar a protagonista numa executiva moderna disfarçada de religiosa. Ela age dentro das possibilidades de sua época, embora pense vários passos à frente dos homens que tentam mantê-la restrita à sacristia.

O prefeito Gould (John Lithgow) representa a resistência política. Ele conhece a miséria dos bairros italianos, mas não considera aquela população uma prioridade. A relação entre Cabrini e o prefeito concentra o embate entre quem pede atendimento e quem controla licenças, inspeções e verbas públicas.

Lithgow interpreta Gould com arrogância contida. Ele raramente precisa levantar a voz para deixar evidente que se considera dono da sala. Cabrini responde com persistência, informações e uma capacidade quase incômoda de transformar desprezo em publicidade. Quando os gabinetes fecham as portas, ela procura jornais e pessoas influentes. A iniciativa força as autoridades a lidar com problemas que preferiam manter fora das áreas elegantes da cidade.

A narrativa ganha força quando acompanha esse trabalho cotidiano. Cabrini não muda Nova York com uma única fala emocionante. Ela reúne doadores, compra imóveis, enfrenta interdições e tenta impedir que a falta de dinheiro desfaça o que já foi construído. A dimensão histórica nasce dessas tarefas concretas, embora o filme, em alguns trechos, trate sua protagonista com reverência excessiva.

Uma mulher com pouco tempo

A saúde de Cabrini acrescenta urgência à missão. Desde jovem, ela convive com problemas pulmonares, e os médicos não acreditam que terá uma vida longa. O doutor Murphy (Patch Darragh) acompanha seu estado e insiste na necessidade de descanso. Ela continua trabalhando porque sabe que os projetos precisam ganhar autonomia antes que seu corpo a obrigue a parar.

Monteverde usa a fragilidade física para criar tensão, mas repete algumas crises e recusas com peso semelhante. O filme tem mais de duas horas e poderia ser mais enxuto, sobretudo quando a música ressalta emoções que as atuações já haviam transmitido. Em certas passagens, a admiração por Cabrini deixa pouco espaço para dúvidas, erros ou conflitos dentro de sua própria congregação.

As outras religiosas participam ativamente da construção dos abrigos, mas recebem menos atenção do que mereciam. Elas cuidam das crianças, organizam quartos e sustentam a rotina enquanto Cabrini busca recursos. O roteiro prefere mantê-las como grupo, o que fortalece a imagem de liderança da protagonista, mas enfraquece a personalidade de quem trabalha ao seu lado.

Ainda assim, “Cabrini” preserva interesse ao apresentar uma mulher que aprende a circular por ambientes criados para excluí-la. Sua luta passa por hospitais, orfanatos, redações, igrejas e gabinetes. Cada espaço exige uma linguagem diferente e cobra um preço específico.

O drama histórico é acessível, elegante e sustentado pela atuação firme de Cristiana Dell’Anna. A produção exagera na solenidade em alguns momentos, porém acerta ao mostrar que grandes obras também dependem de contratos, cozinhas, camas e contas pagas. Cabrini continua avançando enquanto houver uma criança sem abrigo e uma porta que ainda possa ser aberta.


Filme: Cabrini
Diretor: Alejandro Monteverde
Ano: 2024
Gênero: Drama/História
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também