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Território menos intocado pela dureza da vida, a mocidade é a fase da experimentação. Descobertas levam a conflitos, que por seu turno exigem passar por cima das regras draconianas da moral e encarar quem atrever-se a ir contra um espírito irrequieto. Jovens veem-se divididos entre a curiosidade e o medo, entre a chance do prazer e a culpa, fomentada por discursos tirânicos. Os verdes anos são uma grande escola, onde aprende-se a escamotear e a fazer a barganha dos anseios, possíveis ou não. Muito já se avançou nessa seara, mas sempre há de haver pedras no caminho, algumas à mostra em “O Despertar da Juventude”, uma reflexão acerca das tantas dores do crescimento. Corajoso, Eric Steel discute a intolerância e seus efeitos sobre um rapaz judeu na Nova York dos anos 1980, em busca de seu espaço num kibutz fora de lugar.

Futuro no passado

Judeus não fazem preces somente nos funerais. Brighton Beach, a Pequena Odessa, sempre reúne para o kadish seus dez homens adultos num edifício-sinagoga disputado por oferecer vagas com o desconto de um programa social. O famoso musical da Broadway, baseado no livro de mesmo nome escrito pelo alemão Frank Wedekind (1864-1918) em 1890, serve de inspiração a Steel, que com os corroteiristas David Bezmozgis e Daniel Pearle o transforma num filme dinâmico, mas igualmente poético. Sem pressa, o diretor escrutina as revoluções socioculturais que tomaram corpo há quarenta anos, muitas delas anunciadas e essência das análises de gênios como James Baldwin (1924-1987), a quem o filme recorre com frequência para entrar em temas como a homossexualidade e a homossexualidade naqueles tempos em que aids e morte eram uma coisa só, e atacavam gays em várias frentes, no corpo e na ignorância do preconceito. Numa performance cuidadosa para um papel que exige tamanho arrojo, Samuel H. Levine sobrepõe o protagonista às várias camadas do enredo, e a certa altura doutrinas e padrões de comportamento tornam-se assuntos menores, eclipsado por passagens que sublinham a nossa frágil condição humana.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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