Assassinos profissionais costumam acreditar na aposentadoria com a mesma ingenuidade de boxeadores que prometem ter subido ao ringue pela última vez. Danny Bryce pensa poder abandonar o ofício depois de uma operação no México em que uma criança surge na linha de tiro, lembrando-lhe que a pontaria perfeita não corrige a natureza do trabalho. Ele deixa Hunter, seu mentor, guarda as armas e vai procurar alguma tranquilidade na Austrália, onde Anne representa uma vida que ainda não foi contaminada por contratos, explosões e cadáveres. “Os Especialistas”, estreia de Gary McKendry na direção de longas-metragens, precisa de poucos minutos para demonstrar que homens como Danny não deixam o passado para trás; apenas mudam de endereço e esperam que ele demore a encontrá-los.
Hunter é capturado por um xeique de Omã que perdeu três filhos durante a Rebelião de Dhofar. A liberdade do veterano depende de Danny localizar os antigos integrantes do SAS britânico envolvidos nas mortes, arrancar-lhes confissões diante de uma câmera e executá-los de maneira que os óbitos pareçam acidentes. O serviço exige discrição, pesquisa e uma frieza que o protagonista já não possui em quantidade suficiente, razão pela qual reúne Davies e Meier, velhos companheiros que ainda enxergam naquela vida uma possibilidade de enriquecimento. Nenhum deles percebe, no início, que os alvos são protegidos pelos Feather Men, uma organização clandestina de antigos militares cuja influência opera longe dos uniformes e das instituições oficiais. Spike Logan, ex-integrante do SAS interpretado por Clive Owen, recebe a incumbência de descobrir quem está caçando seus companheiros.
Statham e Owen em rota de colisão
O encontro entre Danny e Spike sustenta o que há de mais interessante no roteiro de Matt Sherring. Os dois defendem homens cuja inocência é duvidosa e recorrem aos mesmos expedientes para justificar lealdades diferentes. Danny mata para libertar Hunter; Spike persegue para impedir que veteranos sejam executados sem julgamento. Jason Statham preserva sua conhecida economia facial, deixando que o corpo expresse o temor, a cólera e a exaustão de um sujeito que precisa continuar eficiente mesmo depois de perder a convicção. Clive Owen oferece-lhe o antagonista adequado, menos atlético na aparência, muito mais caviloso, sempre observando portas, janelas e possíveis rotas de fuga. Quando os dois finalmente se enfrentam, inclusive numa luta em que Danny precisa defender-se preso a uma cadeira, a coreografia dispensa acrobacias digitais e permite que cada golpe pareça produzir alguma dor.
McKendry trabalha melhor quando mantém os corpos dentro de espaços reconhecíveis. Banheiros, telhados, quartos de hotel, estradas estreitas e bares frequentados por militares aposentados dão peso a perseguições que em outras mãos seriam apenas ruído. Os assassinatos exigem métodos distintos: uma confissão obtida sob pretexto documental, uma caminhada noturna em terreno gelado, um veículo controlado a distância. A preparação ocupa tanto espaço quanto a execução, o que confere ao longa uma cadência menos infantil que a dos exemplares habituais do cinema de Statham. Simon Duggan filma a ação com clareza, e a montagem de John Gilbert resiste à tentação de esconder os movimentos sob uma profusão de cortes.
Robert De Niro passa boa parte da história em cativeiro, circunstância que poderia reduzir Hunter a um objeto da missão. O ator evita a armadilha com ironia, pequenos gestos de impaciência e uma autoridade que não desaparece nem quando o personagem está amarrado. Hunter conhece Danny o bastante para saber que o antigo pupilo virá resgatá-lo, e talvez por isso suporte a prisão com um ar quase ofensivo de superioridade. Dominic Purcell dá a Davies a fanfarronice necessária para que o grupo tenha algum desequilíbrio, enquanto Aden Young encarna Meier como o profissional que ainda acredita no plano até o instante em que a realidade resolve cobrar o preço.
A conspiração ameaça engolir a ação
O problema aparece quando “Os Especialistas” tenta acomodar a guerra de Dhofar, os interesses britânicos no Oriente Médio, sociedades secretas, xeiques depostos, mercenários, serviços de inteligência e o suposto caráter verídico do livro “The Feather Men”, de Ranulph Fiennes. A história política serve para conferir autenticidade às mortes, só que o filme raramente dispõe de tempo para examiná-la. Nomes, siglas e versões sucedem-se com velocidade, e Anne reaparece apenas para lembrar Danny de que existe uma casa esperando por ele. O próprio McKendry reconheceria mais tarde que pretendia realizar um thriller enxuto e moralmente ambíguo, até que a produção transformou o projeto num filme de ação de maior escala. Essa fratura permanece visível. A conspiração tenta respirar por baixo dos tiroteios, quase sempre perdendo a disputa.
Ainda assim, Statham, Owen e De Niro impedem que a abundância de informações esmague o enredo. O primeiro mantém a ação em movimento, o segundo introduz dúvida em cada avanço e o terceiro dá sentido à lealdade que põe tudo em marcha. Danny e Spike sobrevivem porque reconhecem um no outro a mesma doença profissional, essa incapacidade de distinguir amizade, dever e violência depois de anos trabalhando para homens que jamais sujam as próprias mãos.
“Os Especialistas” não alcança a densidade política que anuncia, embora entregue um thriller físico, áspero e cheio de confrontos bem encenados. Quando as armas silenciam, Danny ainda deseja voltar para Anne e Spike continua tentando proteger um código que já perdeu a utilidade. O que os torna especialistas é justamente aquilo que os impede de regressar inteiros para casa.

