A paixão nasce das diferenças, da surpresa de encontrar no outro aquilo que falta em nós. Diferenças geram atrito, atrito traz chama, chama dá em fogo e o fogo, quando arde sem que se veja, é amor. Gênios incompatíveis juntos podem ser uma força sem igual, desafiando padrões e estabelecendo uma harmonia rara, percebida apenas pelos dois e que transforma cada momento num êxtase, novo e fascinante. Mundos paralelos, o ingênuo e o selvagem, o vaivém de um sentimento que se deseja eterno, mas que ameaça estilhaçar-se ao primeiro golpe da suspeita são a matéria-prima de “O Drama”, história sobre um dos monstros na vida a dois. O norueguês Kristoffer Borgli observa os traumas de seus protagonistas evitando julgamentos, mas sem edulcorar problemas socioculturais que atravessam os anos, urdindo uma hipótese engenhosa para a morte do amor.
O ridículo da vida
O arrebatamento dos sentidos que a paixão causa pode ser o primeiro passo de uma caminhada que avança para o outro mundo, parecendo loucura pensar que um amor saia daí. Pode não ser exatamente um desvario, mas a forma como Charlie aborda Emma inspira no público uma mistura de riso e pena, e que atire suas pedras quem nunca o fez — ou quis fazê-lo. Inventivo, o roteiro do diretor é composto de um mosaico de referências entre óbvias e discretas, e o alheamento de Emma, absorta na leitura de um certo “O Dano”, o romance criado por Borgli de uma tal Harper Ellison, tem dois motivos.
Com açúcar, sem afeto
A introdução despretensiosa engana, e a pouco e pouco vai ficando claro que Charlie e Emma até podem ver a chance de um futuro, namorar, ficar noivos e ter vívido o sonho de subir ao altar. Tudo isso aconteceria, não fosse a revelação meio casual da moça, durante uma brincadeira leviana do casal, ocasião que Borgli aproveita para tecer comentários sagazes acerca de quão violento alguém pode se tornar por sentir-se inadequado, fora de padrões estéticos que fedem a aporofobia e racismo. Zendaya materializa essas impressões e costura assuntos dessa relevância à deterioração gradativa da aparente felicidade conjugal, quando Robert Pattinson também brilha.

