Discover

Dentro de uma única vida cabem mil universos. O ser humano é, a um só tempo, o autor e um personagem da existência, e isso o aprisiona a uma jornada em que todo controle é parcial. Viver é equilibrar-se entre polos, enquanto o tirano destino costura sua trama por entre nossas escolhas e o acaso, interrompendo a narrativa que havíamos ensaiado para nós. Contudo, é nessas horas que renascemos. Passar dias entre céu e mar, com as nuvens por testemunhas da vontade de fazer do existir algo menos ordinário, tem seu preço, majorado por incompetência, arrogância, desleixo e covardia, como se vê nos 87 minutos de “Naufrágio: O Pesadelo do Costa Concordia”. Chiara Messineo reúne boas histórias de trauma e superação num documentário que lida bem com a pieguice.

Memória, castigos e lições

É impossível não pensar no absurdo essencial da vida quando se pensa que 3.200 pessoas sobem num navio opulento, aparentemente indestrutível e nem todas sairão vivas dele, não muito depois. Na noite de 13 de janeiro de 2012, o Costa Concordia deixa o porto de Civitavecchia, no Lácio, uma província de Roma, rumo a um giro pelo litoral italiano, mas ninguém sabia que uma tragédia poderia estar em curso — ou melhor, um homem sabia, nada fez e pode tê-la atraído. Messineo guarda para o final um lance polêmico sobre Francesco Schettino, o comandante da embarcação, e oferece ao espectador alguns personagens mais dignos, como Rose Metcalf, a bailarina britânica que apresentava-se em shows que divertiam os deslumbrados passageiros, ou Manrico Giampedroni, diretor de cabine e auxiliar direto de Schettino. Passado quase exatamente um século do soçobro do Titanic, em 15 de abril de 1912, as lágrimas de Metcalf e Giampedroni provam que o homem não aprende nada mesmo.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também