No mundo ideal, família e dinheiro ocupariam cada qual seu próprio universo, saberiam de suas respectivas importâncias e jamais atrever-se-iam a cruzar o caminho um do outro, por representarem valores bastante distintos. Entretanto, na vida como ela é, quase nunca consegue-se um laço firme sem transações comerciais e financeiras às vezes complexas, planilhas de gastos e custos, caixas de notas fiscais, economia do (pouco) que sobra, expediente que, longe de arruinar namoros longos, noivados promissores ou casamentos sólidos, contribui para aumentar as chances de fuga do caos do imprevisível e da miséria. “Manual Prático da Vingança Lucrativa” amalgama esses dois componentes da vida e flerta com um bem-humorado absurdo sobre a interferência do vil metal nos afetos (e desafetos) das relações consanguíneas. Inventivamente, John Patton Ford elabora assuntos de que gosta e acerca dos quais já mostrou que tem muito a dizer, embora ratifique uma velha lição ecoada pela voz rouca das ruas.
A vingança é um péssimo negócio
Por que vigaristas são tão sedutores? Essa é a primeira pergunta que Ford parece lançar ao rosto do espectador que, entre constrangido e admirado, terá de avaliar direito a premissa. Além da pergunta sobre o provado encanto que trambiqueiros de toda natureza exercem em cidadãos de bem, sequer capazes de aventar a hipótese de erigir uma fortuna às custas do prejuízo de quem quer que seja, essa história inspira mais questionamentos, nada cartesianos. Becket Redfellow, o anti-herói recriado por Ford a partir de Louis Mazzini, o intrépido pobretão vivido por Dennis Price (1915-1973) em “As Oito Vítimas” (1949), explica num longo flashback que nasceu numa família bilionária, mas nunca soube o que é desfrutar de uma vida de apanágios e luxos sem fim. A mãe dele engravidara ainda na adolescência e foi banida pelo pai, Whitelaw Redfellow, um industrial cruel e dissimulado à Lord Ascoyne, o vilão arquetípico eternizado por Alex Guiness (1914-2000) no clássico de Robert Hamer (1911-1963), mas agora Becket tem a chance de embolsar o quinhão que lhe cabe da gorda herança — se vencer a resistência dos demais. O diretor-roteirista faz questão de contornar a lógica binária e dotar seu protagonista de um extenso rol de atributos que nos induzem a encará-lo com toda a simpatia, mérito de Glen Powell, cada vez melhor, e de um desfecho natural, sem nenhuma reviravolta pirotécnica, ao som de “Take Me Back to Piauí” (1972), o afro-samba de Juca Chaves (1938-2023), merecidamente resgatado depois de “Ainda Estou Aqui” (2024), dirigido por Walter Salles.

