Discover

A Ásia Ocidental é palco de embates entre os povos judeu e palestino desde tempos imemoriais, registrados nos livros do Velho Testamento da Bíblia cristã, na Torá judaica e no Alcorão muçulmano. Esses conflitos foram a pouco e pouco apresentando-se mais e mais sangrentos e despertaram a curiosidade da opinião pública mundial com mais força a partir de 14 de maio de 1948, quando da instituição oficial do Estado de Israel. Os enfrentamentos bélicos entre israelenses e árabes-palestinos no Oriente Médio, tema central de “A Voz de Hind Rajab”, devem-se à posse de uma estreita área de 41 quilômetros de comprimento e nove de largura, a Faixa de Gaza, mas vão muito além. Kaouther Ben Hania deixa de lado a absurda lógica da barbárie e põe o dedo na ferida, valendo-se das imagens e, sobretudo, dos sons da guerra. O resultado impressiona — e choca.

Anatomia do massacre

Tel Al-Hawa rompeu a manhã de 29 de janeiro de 2024 sob novo ataque do exército de Israel, outro desdobramento da mais recente ofensiva militar de Benjamim Netanyahu contra o Hamas, iniciada em 7 de outubro de 2023. Seis pessoas da família Hamada, incluindo Hind Rajab, uma menina de seis anos, foram surpreendidos enquanto deixavam o bairro a sudoeste da Cidade de Gaza, obedecendo às ordens de evacuação, e acabaram sendo metralhados. Quatro deles morreram na hora; Layan, de quinze anos, sobreviveu, telefonou para o Crescente Vermelho, braço da Cruz Vermelha em países islâmicos, mas é alvejada a seguir. 

A (quase) sobrevivente

Hind Rajab Hamada (2018-2024) pega o celular, refaz a ligação, e as próximas cenas misturam revolta e incômodo num contraste da gravação original, marcada pelo horror da criança, com atores que reconstituem aquele momento desesperador. Omar Alqam, o operador de emergências do Crescente Vermelho, encarna essa batalha perdida pelo resgate de Hind, alheio ao vaivém burocrático e à indisfarçável covardia dos chefes, que leva a mais uma morte. Motaz Malhees amarra essas duas naturezas do filme numa interpretação perturbadora, vívida o bastante para invadir o seu sono com pesadelos. Hind Rajab não irá mais acordar.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também