Há uma idade em que a liberdade começa a parecer cansativa, o casamento adquire a consistência de um emprego sem férias e os filhos transformam o banheiro no último território onde uma mulher ainda pode fechar a porta. “Mulheres Alteradas” reúne quatro personagens instaladas em pontos distintos desse labirinto. Keka organiza uma viagem para salvar a união com Dudu; Marinati comanda um escritório e trata homens como compromissos descartáveis, até conhecer Christian; Leandra teme chegar aos trinta sem marido ou crianças; Sônia já tem ambos e gostaria de passar uma noite longe de fraldas, brinquedos e solicitações domésticas. Luis Pinheiro adapta os quadrinhos da argentina Maitena Burundarena, com roteiro de Caco Galhardo, apostando na colisão entre essas insatisfações.
As tirinhas originais não forneciam uma trama linear, e esse era o primeiro problema a ser vencido. Pinheiro e Galhardo organizam os fragmentos em quatro percursos que inicialmente correm separados, aproximam as personagens em duplas e por fim tentam produzir alguma unidade. A solução mais inventiva está na forma. A câmera se move com uma impaciência quase neurótica, aparece instalada em carros, cadeiras de praia e lugares pouco usuais, enquanto cores fortes, ilustrações, exageros visuais e breves incursões pelo pensamento das protagonistas transportam para a tela algo da leitura ligeira de uma página de quadrinhos. O longa compreende que Maitena trabalha com tipos reconhecíveis e aceita a caricatura como linguagem, sem fingir naturalismo onde nunca houve.
Quatro estrelas contra moldes antigos
Keka é a personagem que oferece à comédia seu veio mais amargo. Deborah Secco prende os cabelos, veste os óculos que o cinema brasileiro ainda usa para anunciar que uma mulher bonita está ocupada demais para lembrar-se de sua beleza e parte para uma pousada na Bahia com Dudu, certa de que alguns dias sem filhos devolverão vigor ao casamento. Sérgio Guizé faz do marido uma presença exasperante, especializado em reclamar da hospedagem, da comida, do lugar e, por extensão, da mulher que continua empenhada em agradá-lo. Pinheiro acerta quando deixa o desconforto permanecer depois da piada. Keka percebe aos poucos que sua relação não está em crise por falta de uma viagem romântica; ela se deteriorou porque apenas uma das partes continua trabalhando por ela. Secco contém o histrionismo e permite que a frustração surja em pequenas desistências, cada uma um pouco mais definitiva que a anterior.
Marinati vive situação diversa, ainda que o roteiro lhe reserve um tratamento menos cuidadoso. Alessandra Negrini entra em cena como uma advogada que conhece a própria competência, governa a rotina do escritório e administra seus encontros amorosos sem transformar qualquer homem em projeto de vida. Christian aparece, e o filme converte a paixão numa espécie de pane elétrica. A personagem perde concentração, adia decisões e observa o mundo por lentes cor-de-rosa, enquanto a reforma de seu apartamento espalha cimento, poeira e marteladas por todos os cômodos. A imagem da casa derrubada acompanha com graça o desarranjo de Marinati; a ideia de que uma profissional dessa envergadura precise ficar intelectualmente imprestável depois de uma boa noite de sexo pertence a uma coleção de clichês bastante anterior à obra de Maitena. Negrini, assim mesmo, encontra humor no deslocamento do corpo, nos silêncios súbitos e na surpresa quase infantil de uma mulher que julgava dominar todas as variáveis.
Sônia e Leandra funcionam como reflexos deformados uma da outra. A primeira olha para a irmã solteira e enxerga uma existência sem horários, mamadeiras ou marido ausente; Leandra contempla a casa cheia e acredita que ali está a estabilidade que lhe falta. Uma assume por algumas horas a vida da outra, expediente simples que rende ao filme seus momentos mais imediatamente cômicos. Monica Iozzi transmite o esgotamento de Sônia sem reduzi-la a uma mãe desleixada, e sua saída noturna adquire a energia de uma pequena fuga penitenciária. Maria Casadevall recebe menos material, presa à ansiedade de uma personagem que transforma o cuidado dos sobrinhos numa revelação sobre o preço da família. O roteiro apressa essa troca de perspectivas e resolve em poucas cenas o que poderia ter produzido a relação mais fértil do longa.
Quando a forma corre mais que as ideias
“Mulheres Alteradas” tem a vivacidade de uma revista folheada depressa e a limitação de personagens desenhadas para caber num único quadro. Pinheiro encontra uma linguagem visual buliçosa, deixa o elenco brincar com o possível e o absurdo e foge da fotografia burocrática que sufoca tantas comédias nacionais. Galhardo, por seu turno, insiste em aprisionar aquelas mulheres nas mesmas caixas que o filme aparenta querer quebrar. O trabalho, a maternidade, a solteirice e o casamento surgem como compartimentos quase inconciliáveis, e o homem continua sendo o objeto em torno do qual boa parte das crises precisa girar. Quando Keka para de tratar Dudu como um móvel quebrado que lhe cabe restaurar, o filme finalmente alcança a alteração prometida pelo título. Até ali, as cores haviam mudado com muito mais coragem que as ideias.

