Há amizades que atravessam namorados inadequados, empregos ruins, mudanças de cidade e confidências que fariam famílias inteiras romper relações. Susana e Elvira resistiram a quase tudo, até resolverem celebrar os quarenta anos com uma viagem sabática à Índia e uma lista de experiências que deveriam cumprir juntas. Alguma coisa naquele percurso deu muito errado. Dois anos depois, sem terem resolvido a ruptura, elas são obrigadas a trabalhar na costa colombiana, organizando o “matri-concerto” de Macarena e Chano, dois artistas transformados na mercadoria romântica mais valiosa do momento. Maria Gamboa instala as antigas amigas num hotel paradisíaco, entrega-lhes pouco tempo, muitos convidados e nenhuma possibilidade de fuga.
As personagens nasceram em 2008, num blog anônimo criado por María Fernanda Moreno e Marcela Peláez para falar de sexo, homens, fracassos afetivos e vida cotidiana com uma franqueza pouco encontrável na televisão colombiana daquele período. O projeto ganhou webserie, livros e as intérpretes Manuela González e Mabel Moreno, que retornam agora às figuras responsáveis por consolidá-las junto ao público. Esse passado poderia converter o longa num encontro reservado aos iniciados. Gamboa evita a armadilha, apresenta a intimidade das duas sem exigir conhecimento prévio e usa a história acumulada como um ressentimento subterrâneo, perceptível na facilidade com que uma sabe ferir a outra.
Do blog anônimo ao longa-metragem
Susana trocou o jornalismo pela organização de casamentos e continua enamorada da ideia de amor, desde que ele obedeça a horários, contratos e planilhas. Elvira encontrou algum rumo como empresária de artistas, atividade adequada a seu talento para improvisar quando tudo parece perdido. A primeira tenta controlar o ambiente; a segunda atravessa-o como se sempre existisse uma porta lateral. Manuela González compõe Susana com a rigidez de quem transformou eficiência em mecanismo de defesa, enquanto Mabel Moreno deixa Elvira espalhar seu desalinho sem convertê-la numa irresponsável adorável de comédia romântica. A afinidade entre as atrizes sustenta os intervalos em que o roteiro parece esquecer a cerimônia e acompanha duas mulheres tentando decidir se ainda reconhecem a amiga que têm diante de si.
O casamento de Macarena e Chano fornece o ruído necessário. Ela é uma cantora em ascensão que deseja cruzar fronteiras ao lado do noivo; ele, um astro introvertido, suporta a celebridade porque ama a música e a mulher. Em torno deles circulam assessores, documentaristas, funcionários do hotel e pretendentes destinados a movimentar as vidas das protagonistas. Gustavo, vivido por Claudio Cataño, abandonou o esgotamento profissional e refugiou-se na Sierra Nevada, onde ergueu o empreendimento que recebe o evento. Rodolfo, personagem de Emmanuel Esparza, aproxima-se com a segurança ostensiva de quem jamais interpretou a rejeição como resposta definitiva. Emmanuel Restrepo surge como Valentín, braço operacional de Susana e aspirante a dono do próprio império matrimonial. O elenco secundário mantém a engrenagem em movimento, ainda que os 113 minutos se alonguem quando o filme tenta conceder graça equivalente a todos os convidados.
Gamboa aproveita a geografia para separar estados de espírito. Bogotá carrega a pressa profissional e os resíduos da vida que as amigas construíram longe uma da outra; Palomino e La Guajira oferecem uma luz quente, vegetação abundante e um mar que parece zombar da rigidez de qualquer planejamento. A fotografia de Sonia Pérez evita transformar o Caribe num cartão-postal inerte, usando o espaço do hotel para aproximar e isolar Susana e Elvira conforme o casamento avança. A música de María Linares acompanha essa variação sem ordenar ao espectador quando deve rir ou se comover, uma sobriedade valiosa numa produção que declara abertamente sua paixão pelas chamadas chick flicks.
A amizade depois dos quarenta
A idade das protagonistas não aparece como enfermidade, e essa escolha livra “Sem Plano B” de boa parte das humilhações reservadas pelo gênero às mulheres que passam dos quarenta. Susana e Elvira discutem filhos, carreira, desejo, escolhas e o medo de terem usado os melhores anos numa preparação que nunca termina. Essas questões entram pelas fissuras da amizade, nas acusações antigas que voltam durante o trabalho, na impaciência de Susana diante dos improvisos e na resistência de Elvira a aceitar que espontaneidade também pode servir de desculpa para fugir. O filme perde força sempre que oferece respostas excessivamente brandas, como se uma paisagem bonita e dois homens disponíveis pudessem aliviar anos de descompasso. Recupera-a quando deixa as protagonistas admitirem que afeto duradouro não dispensa irritação, inveja ou cansaço.
No altar simbólico de “Susana e Elvira: Sem Plano B” estão as duas amigas, não os cantores que atraíram imprensa, convidados e uma pequena tropa de fornecedores para o litoral. Os romances paralelos cumprem sua função, o hotel oferece beleza, o desastre iminente garante as blagues, e Manuela González e Mabel Moreno preservam o centro do filme com a familiaridade de quem conhece cada fraqueza das personagens. A cerimônia pode obedecer ao cronograma; a reconciliação chega atrasada, amarrotada e carregando a bagagem que Susana e Elvira deixaram aberta desde a Índia. É precisamente por isso que ainda vale recebê-la.

