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Porque Bled, quando tem um arco-íris escorrendo da paisagem lacustre envolta por montanhas alpinas, é destas belezas que quase arrombam a retina de quem vê, sinto-me no meu Rio de Janeiro eslavo tão logo termino o expediente, verão, boto chinelas, pego uma toalha e vou rogar as bênçãos das águas refrescantes para coroar o dia.

Vez por outra, identifico vozes em português do Brasil dentre os zunzunzuns e os diz-que-dizem que turistas trazem para a atmosfera da alta temporada, rasgos de barulho que, vá lá, nestes dois meses, estranham o outrora silencioso espaço-tempo em que costuro raízes enquanto finco a alma. Notada a naturalidade idiomática, pronto, conecto-me como não era dado a fazer quando todos ao redor resmungavam, cantarolavam ou jocosamente contavam vantagens na mesma língua pátria.

Pego carona no papo, com o privilégio de que, por certo, os que falam não sabem que está por perto um conterrâneo, potencial ouvinte. Outro dia:

— Que bonitinho é esse robô de cortar grama.

— Menina, por que você não compra um igual para seu sítio na Cantareira?

— Nada. No Brasil é caro.

— Caro quanto? Já foi ver?

— Uns 30 mil reais.

— Mentira.

— Juro. Eu cheguei a ver. Até fiz contas para ver se não compensava ter isso aí e dispensar o seu Manoel. Mas a fatura não fecha.

— Não fecha ainda. Uma hora vai fechar.

— Muito imposto no Brasil, né?

— Muito imposto no Brasil.

(Perdi um pouco o foco e o rumo da prosa porque me peguei pensando se ela sabia quanto pagamos de imposto aqui — claro que não. Fiquei com vontade de entrar na conversa e explicar que o problema não é o “muito imposto”, mas a maneira como esse imposto é devolvido em forma de bem-estar social. A preguiça foi maior e conservei o anonimato.)

— … porque o que eu acho é que esses robôs são muito bonitinhos, né? Eles trabalhando, parece que estamos no futuro. O futuro chegou. É um robô desses, aquele outro que limpa a casa, uma Alexa cantando na cozinha, a vida fica um escândalo. Menina, que maravilha é estarmos no futuro.

— Ah, Thi, você tá viajando… Exagerou no vinho, né?

— Olha só esses cavalos aqui, que charme. Um tudo.

— Não sei se gosto. Puxando charrete o dia todo, levando turista pra lá e pra cá.

— Para de pensar como pobre. Isso nem é charrete. É carruagem. Estamos na Europa, meu bem.

— Europa, mas aqui é periferia da Europa. Leste europeu. Pensando bem, é uma roça. Uma roça bem-cuidadinha, aprumada. Mas uma roça.

— Gabi, veja só, esses cavalos não parecem judiados. Estão limpinhos, pelos escovados. E ficam na sombra. Devem comer bem e, se pá, até têm uma jornada tranquila de trabalho… Devem comer só alfafa premium.

— Não sei. Tenho dó. Eles não têm escolha.

— Quem não tem escolha sou eu, naquele escritório de merda… Ainda vou pedir demissão e me jogar na vida, você vai ver.

— Quando eu fui para Jeri, os jumentinhos lá estavam todos esfolados, tadinhos. Parece que agora até proibiram esse tipo de passeio lá.

— Mas não tem comparação, né? Olha esses cavalos, todos imponentes! Acha que são maltratados que nem aqueles bichos de Jeri? Sem contar que, naquele calorão de lá, ninguém merece… Esses cavalos aqui ganham em euro, menina, em euro! Só de gorjeta já devem tirar mais do que um salário mínimo no Brasil, e depois, tem que ver o quanto que…

Viraram para a direita. Eu segui meu caminho, à esquerda. Mais três minutinhos e estava mergulhando.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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