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Obrigada pelas felicitações de aniversário. Não. Não vai ter festa. A festa sou eu. E isso já me basta. Sou mãe. Sou solteira. Sou mãe-solteira. Gosto de saia-rodada, de roda de samba, de rodar a baiana, sempre que necessário. Não levo desaforo para casa. Casei com a solidão. Eu me viro sozinha. Viro uma onça quando pisam no meu calo. Eu não me calo. Eu berro. Ligo no 12 o “modus esperniandi”. Tenho as pernas compridas. Boto racista pra correr. Jogo capoeira. Dou rabo-de-arraia. Não preciso de homem para pagar as minhas contas. Mas, também, não abro mão de que o pai da minha filha ajude a pagar as despesas dela. É a sua obrigação legal e moral. Não fiz filha sozinha. Antes, tivesse feito. Não me dou com o ex. Amar o próximo nunca é tarefa fácil. Eu cozinho bem, você precisava ver. Sou bibliófila. Melômana. Antifascista. Eu sou doceira. Eu sei mexer o doce na medida certa para que ele não pregue na panela da vida. Tenho dívidas, é claro, afinal, sou brasileira, classe média, “meio esquentada”, é o que dizem. Sou cervejófila. Bebo sozinha, mas, prefiro a companhia de gente suave com quem dividir a mesa de um bar. Lavo a minha própria roupa suja. Eu sou rendeira. Eu sou taróloga. Eu sou preta. Eu sou umbandista. Sou eu quem toca o tambor quando chega a hora. Tenho fibromialgia. Tomo remédio controlado. Gasto mundos. Gosto de me pintar com batom vermelho. Viajo quando sobra dindim. Escrevo uns poemas aí. Hilda Hilst é a minha preferida. Tenho barriga. Tenho estrias. Corro 10 km. Eu fico alegre. Eu fico triste. Eu pago sapo para Jesus Cristo. Cada um que carregue a sua cruz. Dou os meus pulos. Faço home office. Cuido da casa. Tenho a sorte de morar em residência própria, limpa, arejada e com pomar nos fundos. Apanho fruta no pé. Cuido eu mesma do canteiro. Os passarinhos já me conhecem. Eu sou flor que se cheire. Mas, é preciso cuidado ao lidar comigo. Assim como as marés, eu sou uma mulher com altos e baixos, difícil de navegar. E eu já decidi que ninguém mais manda em mim. Porque eu sou a rainha do meu próprio reino. Foi bom falar com você também. Até um dia. Saravá!

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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