Em 20 de janeiro de 1942, quinze representantes do regime nazista chegam a uma vila no bairro de Wannsee, em Berlim, para definir como diferentes órgãos alemães participarão do assassinato dos judeus europeus. Dirigido por Matti Geschonneck, “A Conferência” acompanha os cerca de noventa minutos desse encontro, liderado por Reinhard Heydrich (Philipp Hochmair) e registrado por Adolf Eichmann (Johannes Allmayer). Sob a aparência de uma reunião administrativa, autoridades discutem deportações, classificações raciais e responsabilidades institucionais porque o regime precisa coordenar, em escala continental, aquilo que chama de “Solução Final”.
Os convidados chegam à elegante casa de campo, deixam casacos com os funcionários e ocupam seus lugares ao redor de uma mesa bem arrumada. Há bebidas, comida e uma equipe preparada para atender homens importantes. A cordialidade do ambiente, porém, acompanha uma pauta que trata milhões de pessoas como números incluídos em uma planilha.
Reinhard Heydrich, interpretado por Philipp Hochmair, convocou representantes da SS, da polícia, da Chancelaria e de diferentes ministérios. Sua missão é obter colaboração entre setores que já participam da perseguição aos judeus, mas ainda disputam competências e autoridade. O encontro, portanto, não decide se haverá violência. Ele estabelece quem fará cada parte do trabalho e quem responderá pelas etapas administrativas.
Heydrich domina a conversa com educação calculada. Ele elogia, interrompe, corrige e devolve cada assunto ao objetivo principal. Hochmair não transforma o personagem em um vilão espalhafatoso. Sua atuação trabalha a segurança de um homem que sabe estar protegido pelo poder e usa boas maneiras para impor decisões brutais.
Essa contenção deixa a reunião ainda mais perturbadora. Ninguém precisa levantar a voz para ameaçar ou humilhar. Basta controlar a pauta, escolher quem pode falar e lembrar aos demais qual autoridade recebeu respaldo das instâncias superiores do regime.
Eichmann transforma pessoas em números
Adolf Eichmann, vivido por Johannes Allmayer, permanece atento às listas, anotações e estimativas apresentadas durante a conversa. Ele organiza dados sobre populações judaicas de vários países europeus e registra as decisões tomadas pelos participantes. A tarefa parece burocrática, mas o conteúdo dessas páginas envolve deportação, trabalho forçado e morte.
Allmayer interpreta Eichmann como um funcionário eficiente, cuidadoso com os termos e interessado em cumprir a missão recebida. Ele observa Heydrich, ajusta documentos e acompanha cada intervenção. Seu comportamento revela o perigo de uma estrutura na qual o crime pode ser tratado como expediente de escritório.
As palavras usadas pelos participantes também cumprem um papel central. Expressões vagas escondem ações violentas e permitem que todos mantenham uma aparência de formalidade. Os homens falam sobre “evacuação”, “tratamento” e “soluções”, embora saibam que essas palavras apontam para prisões, fuzilamentos e mortes planejadas.
Matti Geschonneck não mostra campos, trens ou valas comuns. A violência permanece fora da casa, mas chega à mesa por meio de relatórios, experiências anteriores e estimativas populacionais. Essa escolha prende o público aos responsáveis, sem oferecer uma fuga para imagens externas. O horror está nos papéis manuseados, nas frases interrompidas e na facilidade com que uma vida desaparece dentro de uma categoria.
Os ministérios protegem seus espaços
As divergências entre os convidados não representam oposição ao extermínio. Em muitos casos, elas surgem porque cada representante deseja preservar o domínio de sua instituição. A discussão sobre casamentos mistos e pessoas classificadas como parcialmente judias expõe essa disputa.
Wilhelm Stuckart (Godehard Giese), secretário do Ministério do Interior e um dos responsáveis pelas Leis de Nuremberg, questiona certas propostas porque elas ameaçam regras que ajudou a formular. Sua preocupação envolve procedimentos jurídicos, autoridade ministerial e possíveis complicações administrativas. Giese interpreta Stuckart com irritação contida, própria de um funcionário que aceita a perseguição, mas não admite perder controle sobre seu campo de atuação.
Heinrich Müller (Jakob Diehl), chefe da Gestapo, e Rudolf Lange (Frederic Linkemann), ligado às operações de segurança na Letônia, representam setores que conhecem a violência praticada nos territórios ocupados. Eles trazem para a conversa informações sobre assassinatos já realizados e problemas enfrentados por quem executa as ordens.
Esses relatos eliminam qualquer dúvida sobre o conhecimento dos participantes. A reunião não reúne homens enganados por eufemismos. Eles conhecem prisões, deportações e fuzilamentos, ainda que prefiram empregar palavras mais convenientes diante dos colegas.
Friedrich Wilhelm Kritzinger (Thomas Loibl), representante da Chancelaria do Reich, demonstra incômodo com alguns rumos da discussão. Sua hesitação, porém, não interrompe o encontro nem ameaça sua permanência no governo. Ele pergunta, pondera e permanece sentado. A reunião continua dentro do horário previsto.
Uma sala sem saída confortável
“A Conferência” exige atenção porque quase tudo acontece no mesmo ambiente. Os personagens falam, comem, consultam documentos e disputam detalhes administrativos. Não há perseguições, batalhas ou mudanças frequentes de cenário. A tensão nasce da informação que circula e das decisões que recebem aprovação.
A ausência de trilha musical reforça essa secura. O público não recebe indicação emocional sobre quando deve sentir medo ou revolta. Os gestos dos atores, os silêncios e a escolha das palavras sustentam o ritmo. Uma pausa pode revelar resistência, enquanto uma correção de Heydrich encerra qualquer possibilidade de debate mais amplo.
Apesar da concentração em diálogos, “A Conferência” não assume a forma de uma aula filmada. Cada participante tenta preservar prestígio, acesso ao poder ou controle institucional. Esse movimento oferece personalidade aos personagens sem suavizar o que representam. Há vaidade, impaciência, bajulação e pequenas grosserias, elementos bastante reconhecíveis em qualquer reunião profissional, embora aqui estejam ligados a um crime de proporções históricas.
A normalidade do ambiente produz o efeito mais duro. Funcionários entram com bandejas, copos são reabastecidos e alguns convidados parecem preocupados com compromissos posteriores. O contraste não depende de ironia forçada. Ele nasce da convivência entre hábitos cotidianos e decisões que condenam populações inteiras.
O documento que preservou a reunião
O roteiro se apoia no protocolo preparado por Eichmann após o encontro. O registro não reproduziu cada fala palavra por palavra, mas preservou participantes, temas e decisões centrais. O filme usa essa base para reconstruir o modo como diferentes autoridades contribuíram para a política de extermínio.
Geschonneck mantém a atenção nas relações de poder. Heydrich oferece espaço para manifestações quando isso ajuda a legitimar o encontro, mas encerra objeções que ameaçam o comando da SS. Eichmann registra o consenso alcançado e transforma a conversa em documento oficial. Os representantes retornam aos ministérios levando tarefas definidas.
“A Conferência” impressiona por se negar a oferecer personagens heroicos ou consolo emocional. Ninguém invade a sala para impedir o crime. Nenhuma revelação muda o rumo dos acontecimentos. O público acompanha homens instruídos, experientes e conscientes usando conhecimentos jurídicos, policiais e administrativos para organizar mortes.
O assassinato em massa aparece ligado a memorandos, listas, competências e autorizações. Quando a reunião termina, os convidados deixam a vila, os funcionários recolhem a louça e o protocolo segue para os órgãos responsáveis. Em menos de duas horas, a burocracia nazista distribui funções e libera novas etapas da perseguição.

