Todo ouro enterrado carrega consigo a maldição de quem o escondeu e a cobiça de quem imagina merecê-lo. No Japão do fim da era Meiji, quando o governo avançava sobre Hokkaido e submetia o povo ainu a políticas de assimilação que atingiam sua língua, seus costumes e sua ligação com a terra, uma fortuna roubada poderia financiar exércitos, vinganças, revoluções ou somente a próxima loucura de algum homem convencido de ter sido escolhido pela História. “Golden Kamuy: Invasão à Prisão Abashiri”, segundo longa da adaptação do mangá de Satoru Noda e terceiro capítulo da saga live-action, chega à Netflix trazendo essa guerra dentro de um filme que pula da farsa para o massacre com a desenvoltura de quem já sabe que seus personagens são exagerados demais para caber num único gênero.
Saichi Sugimoto voltou da Guerra Russo-Japonesa conhecido como “o Imortal”, alcunha que parece menos uma homenagem que uma sentença. Interpretado por Kento Yamazaki, ele leva no rosto a mansidão de um rapaz comum e, no corpo, a memória concreta de baionetas, tiros e homens mortos de perto. Sua parceria com Asirpa, a jovem ainu vivida por Anna Yamada, começou quando os dois descobriram que o esconderijo do ouro roubado de seu povo fora convertido num código gravado sobre a pele de 24 presidiários fugitivos. Agora, a informação de que Noppera-bo, o prisioneiro responsável pelas tatuagens, pode ser Wilk, o pai de Asirpa, conduz o grupo até Abashiri. No mesmo caminho avançam o tenente Tsurumi, que deseja usar a fortuna para seus planos militares, e Toshizo Hijikata, sobrevivente espectral do Xogunato, ainda empenhado em abrir à espada um lugar para si no Japão moderno. Três facções entram na prisão; ninguém conserva por muito tempo a certeza de quem veio salvar, trair ou executar quem.
Kenji Katagiri organiza o caos
Kenji Katagiri, que já dirigira episódios da série intermediária produzida pela WOWOW, assume o posto ocupado por Shigeaki Kubo no primeiro filme e entende a qualidade mais difícil de “Golden Kamuy”, sua completa falta de pudor. A abertura em torno do ensopado de lontra, com homens musculosos entregues a uma febre erótica coletiva, poderia destruir qualquer aventura histórica menos segura de sua própria excentricidade. Aqui, serve para lembrar que a brutalidade não eliminou o ridículo daqueles sujeitos. Shiraishi, o fugitivo escorregadio de Yuma Yamoto, continua fazendo da covardia uma filosofia de sobrevivência, enquanto Tanigaki, Kiroranke, Ogata e os outros transitam entre discussões sobre comida, alianças instáveis e rompantes de violência. O roteiro de Tsutomu Kuroiwa perde alguma firmeza nessa marcha, abarrotando o segundo ato de rostos, dívidas pregressas e personagens que parecem entrar apenas para que os iniciados os reconheçam. Para quem chega diretamente a Abashiri, certas cenas têm o aspecto de uma reunião de família na qual ninguém se dispõe a apresentar os parentes.
Yamazaki faz Sugimoto lutar como um homem que sente cada golpe e se recusa a cair porque ainda tem serviço por terminar. O ator abre mão da elegância coreográfica e lança o corpo contra paredes, soldados e a perna mecânica de Kohei Nikaido, numa pancadaria pesada, ruidosa, quase sempre filmada perto o bastante para que se perceba a fadiga. Anna Yamada trabalha no sentido contrário. Sua Asirpa permanece alerta e recolhida, examinando as versões conflitantes sobre Wilk e deixando que o medo atravesse o olhar sem enfraquecer a firmeza da personagem. Quando os dois dividem a fogueira ou discutem o que acontecerá depois da descoberta do ouro, a aventura reencontra o eixo. Eles se protegem com gestos distintos. Asirpa oferece a Sugimoto uma razão para viver sem matar; ele deseja mantê-la longe do lamaçal moral em que aprendeu a respirar. A delicadeza entre ambos torna suportável a carnificina que se aproxima.
A arquitetura da carnificina
A prisão converte-se numa máquina de moer homens. Os cenários construídos em Nasu, combinados às imagens digitais baseadas no escaneamento das estruturas históricas de Abashiri, dão escala e geografia ao ataque. Corredores compridos, celas radiais, passarelas, torres e pátios deixam claro onde cada grupo se encontra, qualidade rara em arrasa-quarteirões que costumam esconder a pobreza da ação sob cortes frenéticos. Katagiri prefere corpos colidindo. Sugimoto e Nikaido batem-se com rancor animal; Tsurumi atravessa o tiroteio cuspindo uma bala e carregando a arma como um comandante que transformou a própria deformidade em liturgia; Hijikata enfrenta o diretor da prisão, Shirosuke Inudo, num duelo de corrente conduzido pela espera, pelo peso dos anos e pela hostilidade acumulada desde o fim dos samurais. Hiroshi Tamaki compõe Tsurumi como um líder capaz de inspirar devoção e nojo no mesmo movimento, enquanto Hiroshi Tachi faz de Hijikata uma ruína ainda armada, austera demais para implorar ao novo século que o aceite.
A confusão de tons, personagens e interesses encontra sua justificativa quando Asirpa finalmente alcança o homem sem rosto. O ouro deixa de parecer um prêmio abstrato e volta a ser o patrimônio arrancado de uma comunidade ameaçada pelo projeto expansionista do Estado japonês. Katagiri não transforma a garota em porta-voz de uma aula de história; mantém-na diante do pai, de Sugimoto e das escolhas que homens armados prepararam em seu nome. A sequência final cobra o vínculo construído desde o primeiro encontro dos protagonistas, e Yamazaki e Yamada pagam essa dívida sem sentimentalismo fácil. “Invasão à Prisão Abashiri” exige familiaridade com o filme de 2024 e com os nove episódios da série, o que reduz sua autonomia e torna o excesso de coadjuvantes ainda mais severo para os novatos. Assim mesmo, é o capítulo mais vigoroso da adaptação, um faroeste japonês de pólvora, neve ausente, carne cozida, soldados enlouquecidos e velhos guerreiros que ainda escutam o chamado de batalhas encerradas. Quando Abashiri começa a arder, Sugimoto procura Asirpa em meio à fumaça. Todo o resto — ouro, império, vingança — já parece pequeno demais.

