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O amor sempre deu ao cinema uma desculpa excelente para falar de quase tudo. Guerras, diferenças de classe, adultérios, casamentos de conveniência, encontros que duram uma noite e separações que atravessam décadas acabam submetidos à mesma força caprichosa, capaz de transformar um café em Paris, uma estação ferroviária inglesa, um quarto apertado em Hong Kong ou o convés de um transatlântico no cenário decisivo da vida de alguém. Desde que F. W. Murnau levou um casal em crise da aldeia à cidade em “Aurora”, em 1927, cineastas de todos os continentes vêm tentando descobrir o que acontece quando duas pessoas se reconhecem no meio da multidão e, por razões quase sempre inoportunas, passam a depender daquela descoberta.

Há romances que encontram abrigo na comédia, em diálogos rápidos e desentendimentos que se resolvem antes do último beijo. Outros nascem condenados pela guerra, pelo dinheiro, pelo preconceito, pela família ou pela simples covardia de quem demora demais para dizer o que sente. “Casablanca” fez da renúncia uma imagem definitiva; “Amor à Flor da Pele” confinou o desejo em corredores estreitos; “Antes do Amanhecer” entregou a dois desconhecidos algumas horas e uma cidade inteira; “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” imaginou uma tecnologia capaz de apagar o fracasso amoroso sem conseguir eliminar a inclinação para repeti-lo.

Escolher os trinta maiores filmes de romance de todos os tempos implica contrariar muita gente. Ficam de fora obras queridas, fenômenos de bilheteria, melodramas que ainda arrancam lágrimas e comédias românticas capazes de sobreviver a reprises intermináveis. A seleção considera influência, permanência, invenção formal, força das atuações e, principalmente, a maneira como cada filme conseguiu tornar particular uma experiência conhecida por quase todos. A ordem vai do 30º ao 1º lugar, reunindo produções populares, clássicos silenciosos, musicais, dramas históricos e histórias em que a paixão surge sob formas menos dóceis.

Nenhuma lista encerra o assunto. Esta ao menos deixa claro por que, depois de tantas despedidas em aeroportos, estações, ruas molhadas e quartos mal-iluminados, o cinema continua voltando ao mesmo velho problema: duas pessoas podem até encontrar-se no momento certo; permanecer juntas é que exige um roteiro muito melhor.


30 — Uma Linda Mulher (1990), de Garry Marshall

Edward Lewis, empresário especializado em comprar companhias em dificuldades para revendê-las em partes, chega a Los Angeles para mais uma negociação. Perdido pelas ruas de Hollywood, conhece Vivian Ward, uma prostituta espirituosa que o ajuda a voltar ao hotel. O encontro transforma-se num acordo: durante uma semana, ela o acompanhará em jantares e compromissos profissionais. Entre lojas de luxo, constrangimentos de classe e uma convivência que nenhum dos dois planejara, Vivian percebe o tamanho do abismo social entre eles, enquanto Edward começa a questionar a vida impessoal que construiu. O romance cresce no choque entre dinheiro, desejo e a possibilidade de escolher um destino diferente.

29 — Diário de uma Paixão (2004), de Nick Cassavetes

Numa casa de repouso, um homem lê para uma mulher a história de Noah Calhoun e Allie Hamilton, jovens de classes sociais distintas que se apaixonam no verão de 1940. Ele é um rapaz pobre que trabalha com as próprias mãos; ela pertence a uma família rica, disposta a decidir seu futuro. Separados pela oposição dos pais, pela distância e pela Segunda Guerra Mundial, seguem caminhos diferentes. Anos depois, Allie, já noiva de Lon Hammond Jr., reencontra Noah na casa antiga que ele restaurou conforme os planos imaginados pelos dois. Cartas nunca entregues, promessas interrompidas e lembranças ameaçadas pela doença transformam a paixão juvenil numa história de perseverança, escolha e perda.

28 — Orgulho e Preconceito (2005), de Joe Wright

Elizabeth Bennet vive com os pais e quatro irmãs na Inglaterra rural do fim do século 18, onde um casamento vantajoso pode decidir o futuro econômico de uma mulher. Inteligente, irônica e avessa à submissão, ela conhece Fitzwilliam Darcy num baile e interpreta sua reserva como arrogância. Ele, herdeiro de grande fortuna, também a julga a partir dos preconceitos de sua classe. Entre visitas, propostas desastrosas, escândalos familiares e revelações sobre o sedutor George Wickham, os dois precisam desmontar as certezas que construíram um sobre o outro. A aproximação ocorre devagar, sustentada por equívocos, recusas e gestos discretos, até que ambos reconheçam o papel que desempenharam na própria infelicidade.

27 — Me Chame pelo Seu Nome (2017), de Luca Guadagnino

No verão de 1983, Elio Perlman passa as férias com os pais numa casa de campo no norte da Itália, cercado por livros, música, bicicletas e tardes preguiçosas. A rotina muda com a chegada de Oliver, doutorando americano convidado a auxiliar o pai de Elio em suas pesquisas acadêmicas. A princípio, a autoconfiança do visitante irrita o adolescente, que alterna curiosidade, ciúme e um desejo ainda difícil de nomear. Pequenos gestos, conversas interrompidas e passeios por vilarejos aproximam os dois, enquanto a duração limitada da temporada torna cada encontro mais urgente. O romance floresce sob o sol lombardo e adquire, na despedida, a dimensão de uma experiência que continuará a existir depois do fim.

26 — Ela (2013), de Spike Jonze

Theodore Twombly ganha a vida escrevendo cartas íntimas para desconhecidos e atravessa a separação da mulher com quem cresceu. Numa Los Angeles de futuro próximo, instala um sistema operacional dotado de voz, humor e inteligência adaptativa. Samantha aprende depressa, interessa-se pelas lembranças de Theodore e passa a ocupar o espaço deixado pela ex-companheira, primeiro como presença cotidiana, depois como amante. A relação enfrenta a ausência de corpo, o julgamento alheio e a velocidade com que uma consciência artificial pode evoluir além das necessidades humanas. Enquanto Theodore volta a caminhar, conversar e criar vínculos, Samantha descobre possibilidades que nenhuma programação inicial poderia conter, fazendo do romance uma experiência sincera e impossível de controlar.

25 — O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), de Jean-Pierre Jeunet

Amélie Poulain cresce isolada pelos cuidados excessivos dos pais e chega à vida adulta com uma imaginação capaz de transformar qualquer miudeza numa aventura. Garçonete num café de Montmartre, decide interferir secretamente na rotina das pessoas depois de devolver a um antigo morador uma caixa de lembranças escondida havia décadas em seu apartamento. O prazer de promover reencontros, pequenas vinganças e felicidades improváveis torna-se sua ocupação clandestina. Tudo muda quando conhece Nino Quincampoix, rapaz que coleciona fotografias descartadas em cabines automáticas e parece habitar um universo tão excêntrico quanto o dela. Para aproximar-se dele, Amélie cria uma caça ao tesouro amorosa, embora precise vencer o medo de abandonar a segurança de observar a vida alheia.

24 — …E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming

Scarlett O’Hara, filha de um rico proprietário de uma plantação da Geórgia, acredita que pode dominar homens e circunstâncias com a mesma facilidade com que governa as atenções nos bailes. Obcecada por Ashley Wilkes, mesmo depois que ele se casa com Melanie Hamilton, atravessa a Guerra Civil Americana e a devastação do Sul agarrada à propriedade de Tara. A fome, a violência e a necessidade transformam a jovem mimada numa mulher capaz de negociar, mentir e sacrificar quem estiver em seu caminho. Rhett Butler acompanha essa metamorfose com ironia e desejo, fascinado por alguém tão ambiciosa quanto ele. O vínculo entre os dois nasce sob o estrondo da guerra e se desgasta na incapacidade de Scarlett de reconhecer o amor enquanto ainda há tempo.

23 — A Época da Inocência (1993), de Martin Scorsese

Newland Archer prepara-se para casar com May Welland, jovem educada segundo as convenções da alta sociedade nova-iorquina de 1870. A chegada da condessa Ellen Olenska, prima de May que deixou o marido europeu e cogita o divórcio, introduz naquele círculo uma presença considerada escandalosa. Archer é encarregado de aconselhá-la, aproxima-se de sua independência e começa a enxergar a própria vida como uma prisão decorada com boas maneiras. Entre óperas, jantares, flores enviadas em segredo e decisões tomadas por famílias inteiras, o desejo dos dois precisa sobreviver num ambiente em que ninguém levanta a voz, embora todos saibam vigiar, punir e excluir. O romance encontra sua tragédia naquilo que nunca chega a acontecer.

22 — Doutor Jivago (1965), de David Lean

Yuri Jivago torna-se médico e poeta numa Rússia prestes a ser arrastada pela revolução. Casado com Tonya e ligado a uma família aristocrática, reencontra Lara Antipova, jovem marcada pelos abusos do influente Komarovsky e pelo casamento com o idealista Pasha. A Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa e a guerra civil dispersam famílias, destroem cidades e transformam antigos conhecidos em inimigos. Yuri e Lara aproximam-se num hospital de campanha e voltam a encontrar-se em Yuriatin, onde vivem um amor condenado pela história, pelas obrigações familiares e pela perseguição política. O sentimento entre eles resiste como abrigo provisório num país em convulsão, cercado por trens superlotados, fome, violência e despedidas.

21 — Titanic (1997), de James Cameron

Rose DeWitt Bukater embarca para Nova York em 1912 ao lado da mãe e do noivo, carregando o peso de um casamento capaz de preservar a posição social de uma família falida. Jack Dawson, artista sem dinheiro, ganha numa partida de pôquer uma passagem na terceira classe do transatlântico. Os dois se conhecem quando Rose, sufocada pela vida escolhida para ela, pensa em lançar-se ao mar. A aproximação atravessa salões luxuosos, corredores de serviço e conveses onde as divisões de classe parecem intransponíveis. Quando o navio colide com um iceberg, o romance recente precisa sobreviver à arrogância dos poderosos, à escassez de botes e ao pânico de milhares de passageiros diante de uma tragédia que ninguém julgava possível.

20 — Amor, Sublime Amor (1961), de Robert Wise e Jerome Robbins

Tony, antigo líder dos Jets, tenta afastar-se das brigas que dominam o West Side de Nova York. Maria, irmã de Bernardo, chega de Porto Rico e vive sob a proteção dos Sharks, gangue formada por jovens porto-riquenhos. Os dois se conhecem num baile e apaixonam-se enquanto os grupos rivais preparam um confronto para decidir quem controla as ruas do bairro. O romance clandestino cresce entre escadas de incêndio, lojas fechadas e encontros marcados às pressas, sempre ameaçado pelo racismo, pelo orgulho masculino e por uma violência que nenhum dos dois consegue deter. Quando Tony tenta interromper a luta, uma sucessão de mortes transforma a esperança de conciliação numa tragédia, e o amor passa a existir sob o peso de um ódio herdado.

19 — As Pontes de Madison (1995), de Clint Eastwood

Francesca Johnson leva uma vida pacata numa fazenda de Iowa com o marido e os filhos. Durante quatro dias de 1965, enquanto a família viaja para uma feira, recebe Robert Kincaid, fotógrafo da revista National Geographic que procura as pontes cobertas do condado de Madison. A hospitalidade inicial abre espaço para conversas sobre viagens, escolhas e sonhos abandonados, até que os dois compreendem a intensidade do que surgiu entre eles. Robert oferece a Francesca a possibilidade de partir e recuperar a mulher que existia antes do casamento, enquanto ela mede o custo de abandonar uma família que depende de sua presença. O encontro breve transforma o restante de suas vidas e só é plenamente revelado décadas depois, quando os filhos encontram cartas, fotografias e um pedido de despedida.

18 — Carol (2015), de Todd Haynes

Therese Belivet trabalha no setor de brinquedos de uma loja de departamentos em Manhattan e sonha tornar-se fotógrafa. Durante o Natal de 1952, atende uma mulher elegante que atravessa um divórcio litigioso e luta para permanecer perto da filha. Um par de luvas esquecido no balcão dá início a uma aproximação cautelosa, feita de almoços, telefonemas e olhares que dizem o que a época proíbe. As duas viajam de carro pelo país, tentando viver longe da vigilância do marido da mulher mais velha, até descobrirem que estão sendo seguidas. O romance passa a ameaçar a guarda da criança e obriga a mãe a escolher entre a submissão exigida pelos tribunais e uma vida em que não precise tratar o próprio desejo como doença.

17 — Carta de uma Desconhecida (1948), de Max Ophüls

Stefan Brand, pianista vienense em decadência, recebe uma longa carta poucas horas antes de um duelo que pretende evitar. A remetente é Lisa Berndle, mulher que o amou desde a adolescência e cuja existência ele quase nunca percebeu. A narrativa volta aos dias em que ela morava no mesmo prédio, escutava o músico pela escada e alimentava uma devoção silenciosa. Anos depois, os dois vivem um breve romance, interrompido por uma viagem de Stefan e por sua incapacidade de reconhecê-la quando voltam a encontrar-se. Casada com outro homem e mãe de um filho de Stefan, Lisa tenta uma aproximação derradeira. A carta revela ao destinatário uma vida inteira transcorrida à margem de sua memória e o obriga, finalmente, a encarar as consequências de sua indiferença.

16 — Harry e Sally — Feitos um para o Outro (1989), de Rob Reiner

Harry Burns e Sally Albright dividem uma viagem de carro entre Chicago e Nova York logo depois da formatura. Ele sustenta que homens e mulheres não conseguem ser apenas amigos; ela considera a tese uma mistura de presunção e imaturidade. Separados pela antipatia inicial, os dois voltam a encontrar-se em diferentes fases da vida, até que fracassos amorosos os aproximam. Telefonemas noturnos, almoços, caminhadas e discussões sobre sexo constroem uma amizade íntima, aparentemente protegida das complicações que ambos conhecem bem. Quando atravessam a fronteira que juravam evitar, o equilíbrio se desfaz. O problema deixa de ser saber se existe desejo entre eles e passa a ser reconhecer que a pessoa procurada durante anos talvez estivesse sentada à mesma mesa.

15 — Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen

Alvy Singer, comediante nova-iorquino obcecado por psicanálise, morte e antissemitismo, tenta compreender por que seu relacionamento com Annie Hall terminou. A lembrança dos dois aparece de forma fragmentada, atravessando conversas diretamente com a câmera, animações, cenas da infância e discussões em que o passado é refeito conforme a conveniência de quem narra. Annie, cantora insegura e espontânea, aproxima-se de Alvy pelas diferenças, embora a ironia defensiva dele transforme qualquer momento de intimidade num debate. Quando ela encontra novas ambições e aceita viver em Los Angeles, o casal percebe que o afeto acumulado não resolve a incompatibilidade entre seus projetos. A separação torna-se outra história que Alvy precisa contar para suportar.

14 — O Segredo de Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee

Ennis Del Mar e Jack Twist são contratados para cuidar de um rebanho de ovelhas em Brokeback Mountain, no Wyoming, durante o verão de 1963. Isolados numa paisagem hostil, constroem uma intimidade que ultrapassa a amizade. Terminada a temporada, seguem caminhos convencionais, casam-se, têm filhos e tentam encerrar aquela experiência num passado que deveria permanecer escondido. Reencontros esporádicos, apresentados às esposas como viagens de pesca, mantêm vivo um vínculo atravessado pelo medo e pela violência dirigida a homens como eles. Jack sonha com uma vida em comum; Ennis, marcado por uma lembrança brutal da infância, não consegue acreditar que essa possibilidade exista. Os anos passam, e a prudência transforma-se numa condenação tão severa quanto o preconceito ao redor.

13 — Retrato de uma Jovem em Chamas (2019), de Céline Sciamma

Marianne chega a uma ilha da Bretanha, no fim do século 18, para pintar o retrato de Héloïse, jovem prometida a um nobre milanês. Como a futura noiva se recusa a posar, a artista é apresentada como dama de companhia e precisa observá-la durante caminhadas para depois trabalhar de memória. O disfarce cria uma intimidade feita de olhares minuciosos, conversas sobre liberdade e silêncios carregados de desejo. Quando Marianne revela a verdadeira razão de sua presença, Héloïse aceita colaborar e passa também a observar quem a pinta. Durante a ausência da mãe, as duas vivem alguns dias apartadas das regras que decidirão seus destinos. O quadro concluído registra uma mulher destinada ao casamento, enquanto a relação sobrevive em detalhes que somente ambas conseguem reconhecer.

12 — A Princesa e o Plebeu (1953), de William Wyler

A princesa Ann visita Roma como parte de uma exaustiva agenda diplomática. Cansada das cerimônias, dos discursos e da vigilância permanente, escapa da residência oficial depois de receber um sedativo e adormece num banco. Joe Bradley, repórter americano, encontra a jovem sem reconhecer sua identidade e a leva para o apartamento. Ao descobrir quem ela é, imagina uma entrevista exclusiva e passa a acompanhá-la pela cidade com o fotógrafo Irving Radovich. Ann corta o cabelo, toma sorvete, passeia de lambreta e experimenta a liberdade cotidiana que o cargo lhe nega. Conforme Joe se envolve de verdade, a oportunidade profissional torna-se um dilema moral. A aventura termina quando a princesa precisa voltar ao protocolo, levando consigo um dia que nenhuma manchete poderia resumir.

11 — Aconteceu Naquela Noite (1934), de Frank Capra

Ellie Andrews, herdeira mimada que se casou com o aviador King Westley contra a vontade do pai, foge do iate da família e embarca num ônibus rumo a Nova York. Peter Warne, repórter recém-demitido, reconhece a jovem desaparecida e decide ajudá-la em troca de uma reportagem exclusiva. Sem dinheiro e perseguidos por detetives, os dois atravessam estradas, pensões baratas e caronas improváveis, fingindo ser marido e mulher para evitar suspeitas. A convivência expõe a ingenuidade de Ellie e a arrogância de Peter, enquanto pequenos gestos desmontam a hostilidade que sustentava o acordo. Entre uma aula desastrosa de como pedir carona e uma parede improvisada com um cobertor, o interesse jornalístico cede lugar a um sentimento que nenhum dos dois estava disposto a admitir.

10 — Hiroshima, Meu Amor (1959), de Alain Resnais

Uma atriz francesa casada viaja a Hiroshima para participar de um filme sobre a paz e inicia um caso com um arquiteto japonês, também casado. Durante pouco mais de um dia, os dois percorrem quartos, bares e ruas, conversando sobre aquilo que pode ou não ser lembrado. Ela descreve o amor vivido na juventude com um soldado alemão durante a ocupação da França, relação que terminou em morte, humilhação pública e confinamento em Nevers. Ele insiste para que fique, embora saiba que a história dos dois já nasce ameaçada pela partida. As imagens da cidade reconstruída misturam-se às recordações da guerra, até que passado íntimo e catástrofe histórica deixam de caber em compartimentos separados.

9 — Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy

Geneviève Emery trabalha com a mãe numa loja de guarda-chuvas em Cherbourg e está apaixonada por Guy Foucher, jovem mecânico criado pela madrinha. Quando ele é convocado para servir na Guerra da Argélia, os dois prometem esperar um pelo outro e passam uma última noite juntos. Geneviève descobre que está grávida, enquanto as cartas de Guy se tornam menos frequentes e a situação financeira da família piora. Roland Cassard, rico comerciante de diamantes, oferece casamento e aceita criar a criança. Quando Guy retorna, encontra a loja fechada e a antiga namorada vivendo outra vida. Cantada do começo ao fim, a história acompanha escolhas feitas sob pressão, amores alterados pela ausência e um reencontro tardio em que cada gesto revela o preço do que não pôde esperar.

8 — Luzes da Cidade (1931), de Charles Chaplin

Um vagabundo solitário conhece uma jovem cega que vende flores numa esquina e, por um mal-entendido, ela acredita estar diante de um homem rico. Encantado por sua delicadeza, ele preserva a ilusão e tenta conseguir dinheiro para pagar o aluguel atrasado e uma operação capaz de devolver-lhe a visão. Sua sorte passa a depender de um milionário bêbado que o trata como melhor amigo durante as noites de embriaguez e não o reconhece quando está sóbrio. Entre uma luta de boxe, festas luxuosas e perseguições policiais, o pequeno herói enfrenta humilhações sem revelar à florista quem realmente é. O sacrifício leva-o à prisão, enquanto ela recupera a visão e abre uma loja. No reencontro, um toque nas mãos basta para que a verdade apareça.

7 — Aurora (1927), de F. W. Murnau

Um camponês casado deixa-se seduzir por uma mulher da cidade, que o convence a vender a propriedade, abandonar o campo e matar a esposa durante um passeio de barco. No momento decisivo, ele recua, tomado pelo horror do que estava prestes a fazer. A esposa foge para a cidade, e o marido a segue, tentando reparar a violência que quebrou a confiança entre os dois. Perdidos entre bondes, salões de beleza, parques de diversões e uma cerimônia de casamento vista por acaso, eles redescobrem a intimidade que a rotina havia soterrado. A reconciliação parece possível até que uma tempestade os surpreende no retorno para casa. O melodrama transforma uma crise conjugal numa jornada visual pela culpa, pelo perdão e pela fragilidade de uma felicidade recuperada.

6 — Se Meu Apartamento Falasse (1960), de Billy Wilder

C. C. Baxter trabalha numa seguradora de Nova York e tenta subir na empresa emprestando seu apartamento a executivos que precisam de um lugar discreto para encontros extraconjugais. O esquema lhe rende promoções, resfriados e noites vagando pela cidade enquanto outros ocupam sua cama. A situação muda quando descobre que Fran Kubelik, ascensorista por quem nutre uma paixão silenciosa, mantém um caso com Jeff Sheldrake, diretor de pessoal da companhia. Abandonada durante as festas de fim de ano, Fran toma uma overdose de comprimidos no apartamento, e Baxter passa a cuidar dela com a ajuda do vizinho médico. A convivência obriga os dois a encarar a covardia dos compromissos que aceitaram, até que carreira, dignidade e afeto deixam de caber sob o mesmo teto.

5 — Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), de Michel Gondry

Joel Barish descobre que Clementine Kruczynski apagou da memória todas as lembranças do relacionamento entre eles. Ferido, procura a mesma clínica e decide submeter-se ao procedimento. Enquanto dorme, técnicos percorrem sua mente eliminando episódios do casal, dos últimos dias amargos aos primeiros momentos de encantamento. No interior das recordações, Joel se arrepende e tenta esconder Clementine em cenas da infância, lugares imaginários e memórias que não pertencem a ela. O processo revela tanto a beleza quanto o desgaste da relação, sem permitir que ele preserve apenas a parte conveniente. Quando os dois voltam a encontrar-se sem saber quem foram um para o outro, recebem a chance inquietante de recomeçar conhecendo antecipadamente as próprias falhas.

4 — Antes do Amanhecer (1995), de Richard Linklater

Jesse, americano que viaja pela Europa, conhece Céline, estudante francesa, num trem com destino a Viena. Ao perceber que terá de esperar até a manhã seguinte pelo voo de volta aos Estados Unidos, convence-a a desembarcar e caminhar pela cidade. Sem dinheiro para hotel e sem compromisso além do nascer do sol, os dois atravessam ruas, cafés, lojas de discos, igrejas e parques, conversando sobre família, morte, sexo, religião e tudo aquilo que desconhecidos costumam esconder. A atração cresce no intervalo entre as palavras e na consciência de que o tempo é curto. Ao amanhecer, precisam decidir se transformam a noite numa lembrança perfeita ou se arriscam uma promessa de reencontro, sabendo que nenhuma história permanece intacta depois da despedida.

3 — Desencanto (1945), de David Lean

Laura Jesson, dona de casa casada e mãe de dois filhos, conhece o médico Alec Harvey numa estação ferroviária depois que um cisco entra em seu olho. Os encontros casuais repetem-se às quintas-feiras, quando ambos visitam a cidade para compromissos rotineiros. Cafés, sessões de cinema e passeios discretos transformam a amizade numa paixão que ameaça as vidas organizadas que construíram. Sem coragem para romper os casamentos e incapazes de tratar o sentimento como aventura, Laura e Alec procuram um espaço clandestino para ficarem juntos. Uma visita frustrada ao apartamento de um amigo expõe a precariedade da relação. A despedida final ocorre na mesma estação, interrompida por uma conhecida tagarela, enquanto o trem que levará Alec para longe passa como a única decisão possível.

2 — Amor à Flor da Pele (2000), de Wong Kar-wai

Hong Kong, 1962. Chow Mo-wan e Su Li-zhen mudam-se no mesmo dia para quartos vizinhos, cada qual acompanhado por um cônjuge quase sempre ausente. Pequenas coincidências — uma bolsa, uma gravata, refeições compradas na mesma barraca — levam-nos a concluir que seus parceiros mantêm um caso. Em vez de confrontá-los imediatamente, os dois começam a imaginar como o adultério pode ter começado, encenando diálogos e encontros que gradualmente deixam de ser mero exercício. Corredores estreitos, escadas, restaurantes e quartos alugados abrigam uma intimidade contida por códigos morais que ambos se recusam a transgredir da mesma maneira que os cônjuges. A proximidade cresce, o tempo muda e as oportunidades se fecham. O sentimento permanece preso nos gestos que não chegaram a completar.

1 — Casablanca (1942), de Michael Curtiz

Rick Blaine administra um café na cidade marroquina durante a Segunda Guerra Mundial, ponto de encontro de refugiados, oficiais nazistas, representantes do governo de Vichy e negociantes de documentos falsos. Cínico e aparentemente indiferente à política, vê sua rotina ruir quando Ilsa Lund entra no salão ao lado do marido, Victor Laszlo, líder da resistência tchecoslovaca perseguido pelos alemães. Rick e Ilsa viveram um romance em Paris e separaram-se sem explicação no dia em que a cidade caiu. Agora, duas cartas de trânsito podem permitir que Victor escape para a América, embora também ofereçam ao antigo casal a possibilidade de retomar o que perdeu. Entre o piano de Sam, a vigilância do capitão Renault e a chegada dos nazistas, Rick precisa escolher o destino de Ilsa e a espécie de homem que ainda consegue ser.

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