Kariênin está doente. O tumor não deixa dúvida; a pata precisa ser amputada e o veterinário, embora cauteloso, sabe que está apenas negociando alguns dias com a morte. Tereza volta para casa, prepara a cama do cachorro, observa seus movimentos, tenta adivinhar se ele sofre. Tomas, médico impedido de exercer a profissão depois da invasão soviética da Tchecoslováquia, conhece o corpo por dentro e não encontra nesse conhecimento nenhuma vantagem. O casal que atravessou paixões, adultérios, tanques russos, demissões, interrogatórios e fronteiras termina de joelhos diante de um animal que já não consegue andar.

É assim, longe das passeatas e da filosofia, que “A Insustentável Leveza do Ser” dói mais fundo. O romance de Milan Kundera ficou famoso pelas oposições entre peso e leveza, corpo e alma, fidelidade e traição, eterno retorno e vida única. Também ficou famoso pelo erotismo, favorecido em 1988 pelo filme de Philip Kaufman, no qual Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin compõem um triângulo amoroso bem mais fotogênico do que qualquer discussão sobre Parmênides. No entanto, quem lê o livro até o fim percebe que sua imagem não é a de Tomas entrando no apartamento de uma amante nem a de Tereza fotografando os tanques em Praga. É a de um cachorro moribundo tentando manter os hábitos domésticos.
Parmênides não dá pão a cachorro
Kariênin é uma cadela. Recebeu nome masculino em homenagem ao marido traído de “Anna Kariênina”, detalhe que já diz alguma coisa sobre o humor de Kundera, sempre disposto a cruzar literatura, sexo e uma pontinha de maldade. O engano de gênero, porém, não importa para Tereza e Tomas. Kariênin é Kariênin, um ser cuja identidade parece escapar dos conflitos que atormentam os humanos do livro. O animal não precisa escolher entre peso e leveza. Não se preocupa em ser coerente com a própria biografia. Não escreve cartas, não trai, não se pergunta se a vida poderia ter sido outra. Quer passear, comer um pão em forma de lua crescente e receber atenção das duas pessoas que conhece.
Kundera não transforma o cachorro num guru peludo nem nos convida a concluir que os bichos são melhores do que os homens, embora em certas páginas isso pareça tentador. O que Kariênin oferece ao casal é uma relação sem plateia. Pela primeira vez, Tomas e Tereza não precisam representar a si mesmos diante de ninguém.
Até chegar ali, os dois passaram o romance inteiro tentando compreender o que lhes aconteceu. Tomas conhece Tereza por acaso numa cidade do interior. Ela aparece carregando um livro debaixo do braço e chega à vida dele cercada por coincidências que logo recebem o peso de sinais. Tereza adoece, Tomas a acolhe, e aquela visita que poderia durar uma noite se transforma numa convivência sem saída. Ele não consegue abandonar as outras mulheres. Ela não consegue deixar de sofrer com isso.
O romance poderia ser apenas a história de um libertino e de uma mulher ciumenta, material que sustentou milhares de livros ruins e alguns excelentes. Kundera complica o jogo ao recusar qualquer explicação que ponha os conflitos em ordem. Tomas não ama menos Tereza porque deseja outras mulheres. Também não é um militante da liberdade sexual, embora às vezes goste de imaginar-se assim. Sua coleção de amantes tem método, disciplina, horários, precauções e uma boa dose de burocracia. A leveza dá trabalho.
Tereza, por sua vez, não é simplesmente a esposa humilhada. O corpo lhe parece uma ameaça desde a infância passada sob o domínio de uma mãe que não reconhecia fronteira entre intimidade e exposição. Sua relação com Tomas carrega o desejo de ser vista como alguém insubstituível num mundo de corpos intercambiáveis. Cada amante dele devolve a Tereza a suspeita de ser apenas mais uma.
Kundera distribui essas questões em sete partes que avançam, recuam e repetem acontecimentos sob outra luz. Informa a morte de Tomas e Tereza antes do final, matando qualquer suspense convencional. O leitor sabe que o casal morrerá num acidente de estrada. Em vez de conduzi-lo até o choque do automóvel, o romance retorna aos dias anteriores, à vida rural, às caminhadas, aos pequenos ciúmes, a Kariênin.
A morte humana chega ao livro como notícia, relatada de fora, quase um dado administrativo. A morte do cachorro se demora por páginas minuciosas, de uma ternura que surpreenderia se o romance não a tivesse preparado em silêncio desde o começo.
A marcha passa; a tigela fica
Milan Kundera passou boa parte da carreira desconfiando das grandes emoções. Nascido em Brno, em 1929, filho de um pianista e musicólogo, cresceu num país ocupado primeiro pelos nazistas e depois submetido ao comunismo. Entrou jovem no Partido Comunista, foi expulso, readmitido e expulso outra vez. Participou da abertura cultural dos anos 1960, publicou “A Brincadeira” em 1967 e viu a Primavera de Praga ser esmagada no ano seguinte por tropas comandadas pela União Soviética. Seus livros foram banidos. Em 1975, mudou-se para a França. Quatro anos depois, perdeu a cidadania tchecoslovaca.
Essa biografia fornecia material para o papel de escritor perseguido, consciência moral do continente, profeta da liberdade diante do totalitarismo e outras funções nobres que o mercado cultural oferece aos exilados. Kundera recusou todas com impaciência crescente. Não queria que seus romances fossem tratados como relatórios do comunismo nem que sua vida servisse de chave para interpretá-los. Tinha horror ao que chamava de kitsch, a imagem do mundo da qual foram retirados o excremento, a contradição e tudo o que possa estragar a fotografia.
O kitsch político aparece em “A Insustentável Leveza do Ser” na chamada Grande Marcha, desfile de causas, punhos erguidos, palavras de ordem e bons sentimentos. Franz, amante de Sabina, é um intelectual suíço apaixonado por tudo o que parece elevar a vida acima da rotina. Precisa acreditar que sua vida participa de alguma corrente maior, um movimento histórico capaz de conferir sentido às escolhas mais banais. Sabina detesta a marcha, o entusiasmo coletivo, as bandeiras e a obrigação de chorar na hora certa.
Ela é pintora e fez da traição uma estética. Trai famílias, amantes, países, causas, estilos e versões anteriores de si mesma. O gesto começou como fuga de uma opressão, mas continua quando já não há ninguém a persegui-la. Sabina não suporta permanecer tempo suficiente num lugar para ser transformada numa imagem fixa. O problema é que a recusa de qualquer vínculo termina por aprisioná-la. A leveza também pesa.
Franz, ao contrário, busca o peso. Imagina Sabina como representante de uma Europa perseguida e transforma a relação dos dois numa causa política. Kundera dedica uma parte do romance às “palavras incompreendidas” dos dois. Para ele, fidelidade significa uma virtude. Para ela, uma forma de sujeição. Para ele, o cemitério é triste. Para ela, é belo. Franz não ama Sabina apenas como ela é; ama a posição elevada que ela ocupa no teatro de sua consciência.
O livro inteiro está cheio de pessoas transformando umas às outras em personagens de suas próprias histórias. Tereza transforma os acasos que a levaram até Tomas numa partitura do destino. Tomas acredita separar com clareza amor e sexo. Franz lê Sabina como símbolo político. Sabina faz da traição um ato de liberdade. Todos são inteligentes. Nenhum deixa de ser ridículo por isso.
Kariênin não lê ninguém.
Kariênin habita um tempo diferente do tempo dos homens. Para os humanos, a felicidade costuma depender da novidade, do avanço, da ruptura. A repetição diária ameaça virar tédio. Para o cachorro, o retorno do mesmo passeio, do mesmo alimento e das mesmas vozes é a própria felicidade. Kundera observa que o tempo dos cães é circular. Não o círculo solene do eterno retorno de Nietzsche, que condenaria cada gesto a repetir-se para sempre, mas um círculo doméstico, feito de manhãs parecidas.
Essa rotina dá a Tereza o que Tomas nunca conseguiu dar: a certeza de que alguém espera por ela. Kariênin não leva uma vida secreta, não compara corpos nem escolhe entre um e outro. Seu amor não depende de exclusividade porque Kariênin não conhece o medo de ser substituída. A relação existe sem que ninguém precise explicá-la.
Seria sentimental demais dizer que o cachorro reconcilia Tomas e Tereza. Kundera passaria a borracha na frase. O casal já havia deixado Praga, abandonado profissões e se instalado no campo quando a doença aparece. Talvez os dois tenham se reconciliado, mas Tereza ainda suspeita que Tomas se sacrificou ao acompanhá-la. Ele talvez tenha encontrado no sacrifício um tipo de paz que sua antiga leveza já não oferecia. Nenhum deles chega a formular uma resposta.
Com Kariênin doente, a dúvida perde espaço. Há remédios para dar, curativos para trocar, um corpo pesado para carregar escada abaixo. A morte não vem como ideia, mas como cheiro, ferida, respiração e mudança de comportamento. Tomas e Tereza passaram o romance inteiro tentando entender o amor. Agora precisam cuidar um do outro.
As mulheres sem rosto chegam antes do veterinário
Chamar Kundera de romancista frio, a essa altura, já parece preguiça crítica. Frio ele pode ser com seus personagens secundários, sobretudo quando encontra pela frente poetas, militantes, jornalistas, acadêmicos e homens inflamados pela própria importância. Tem talento e prazer para reduzi-los a um gesto cômico. Às vezes exagera. Sua inteligência às vezes vira arrogância, e o romance parece uma sala onde o autor distribuiu os lugares antes da chegada dos convidados.
Também salta aos olhos que Kundera concede aos homens uma complexidade que nem sempre estende às mulheres. Kundera concede a Tomas toda a complexidade de um libertino que, apesar de tudo, ama sinceramente.
Muitas mulheres que atravessam sua cama mal chegam a receber um rosto. Tereza, Sabina e outras grandes personagens femininas escapam da condição de tipos, mas o olhar que as acompanha continua obcecado por nudez, envelhecimento, exposição e valor erótico. Kundera compreende como poucos a crueldade masculina e nem sempre deixa de desfrutá-la enquanto a descreve.
Kariênin não corrige essas limitações. Faz coisa melhor: mostra um Kundera que quase nunca aparece.
Nas páginas dedicadas ao animal, desaparece a tentação de vencer uma discussão. Não há comunistas para satirizar, intelectuais para despir, amantes para pôr em posições embaraçosas nem conceitos para colocar em itálico. O narrador observa. Tereza percebe que Kariênin ainda tenta cumprir os antigos rituais, mesmo quando o corpo já não obedece. Tomas administra a dor. Os dois adiam a decisão final até que o adiamento se torna uma crueldade.
Quando chega a hora, cercam o cachorro. Não há grande discurso, apenas a tentativa de tornar a morte menos solitária. Tomas e Tereza cuidam de Kariênin com uma compaixão que, entre os humanos do romance, quase sempre vem contaminada pela vaidade, pelo controle ou pelo medo.
O livro termina depois disso, com Tomas e Tereza num hotel durante uma festa provinciana. Dançam. Ela sente uma felicidade estranha, já contaminada pela consciência de que o homem ao seu lado abandonou muita coisa por sua causa. Ele responde sem dramatização. A morte do casal, anunciada páginas antes, continua à espera na estrada, mas Kundera se recusa a encená-la.
O gesto poderia parecer uma confirmação da teoria da leveza. Não é. Depois de Kariênin, a oposição entre peso e leveza já não basta. O peso pode esmagar e também sustentar. A leveza pode libertar, mas também esvaziar tudo. Tomas talvez tenha sido mais livre entre amantes em Praga; talvez tenha sido mais feliz dirigindo uma caminhonete ao lado de Tereza no interior. O romance não fecha a conta.
Kundera nunca recebeu o Nobel, embora durante anos seu nome aparecesse nas temporadas de apostas. Entrou vivo para a coleção da Pléiade, honra francesa reservada quase sempre aos mortos, revisou traduções, controlou edições e tentou manter a biografia longe dos livros. Morreu em Paris, em 2023, aos 94 anos. Deixou livros desiguais, alguns romances formidáveis e a fama persistente de ter sido, antes de tudo, o autor da leveza.
Talvez tenha sido. Mas, no melhor trecho de seu livro mais famoso, é um cachorro que já não consegue sustentar o próprio corpo que revela o peso de sua literatura.

