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Alice Munro morreu em 13 de maio de 2024 sem deixar muita discussão pendente sobre a obra. Aos 92 anos, prêmio Nobel de Literatura, era tida como a maior contista de seu tempo. Os obituários repetiram a figura conhecida da senhora discreta de Ontário, da mãe que escrevia enquanto as filhas dormiam, da herdeira canadense de Anton Tchékhov.

Menos de dois meses depois da morte de Alice Munro, Andrea Skinner, filha mais nova da escritora, contou publicamente que havia sido abusada sexualmente, aos nove anos, por Gerald Fremlin, segundo marido da mãe. Munro soube do crime em 1992, deixou-o por pouco tempo e voltou. Fremlin admitiu o abuso e foi condenado em 2005. Alice permaneceu com ele até a morte do marido, em 2013, poucos meses antes do Nobel. A revelação não destruiu os contos. Fez algo literariamente mais perturbador; mudou o lugar de onde eles são lidos.

Munro escreveu muitas vezes sobre segredos de família, mulheres que se acomodam à violência masculina e gente capaz de ouvir uma coisa terrível e ainda pôr o jantar na mesa. Conhecia esse tipo de silêncio. Suas personagens costumam entender tarde o que viveram, quando entender já não resolve grande coisa. Com a autora, o atraso veio depois da morte.

Entre a criação de raposas e a parte respeitável de Wingham

Nascida Alice Ann Laidlaw em 10 de julho de 1931, ela cresceu nos arredores de Wingham, pequena cidade de Ontário, numa criação de raposas tocada pelo pai. A mãe, ex-professora, tinha ambições sociais pouco compatíveis com a precariedade da família e desenvolveu Parkinson quando Alice ainda era menina. Entre a casa rural e a escola da parte rica da cidade havia poucos quilômetros e bastante vergonha. A futura escritora aprendeu cedo a reconhecer a classe social num casaco, na profissão do pai, no cheiro de uma cozinha. A paisagem central de sua obra nasceu ali. Rios, fazendas, igrejas, hospitais e casas onde as pessoas sabem demais umas sobre as outras.

Munro mudava os nomes das cidades, mas não disfarçava o sul de Ontário. Era um mundo de reputação, mando e ressentimento. Havia uma estação de trem. Sair era possível. Deixar para trás quem se era, não. Aos dezoito anos, Alice foi estudar na University of Western Ontario. Publicou ali seu primeiro conto e conheceu Gerald Fremlin, embora se casasse, em 1951, com outro colega, James Munro, de quem herdaria o sobrenome literário. Mudou-se para a costa oeste, teve quatro filhas, uma delas morta no dia do nascimento, e durante anos escreveu quando a casa permitia.

A explicação mais repetida é doméstica. Sem horas livres para um romance, ela teria escolhido o conto. Munro passou décadas fazendo uma narrativa curta atravessar cinquenta anos, abandonar uma personagem no caminho, pular um casamento inteiro e voltar ao começo com outra história nas mãos.

Quarenta, cinquenta, sessenta páginas — e ainda era conto

Seu primeiro livro, “Dance of the Happy Shades”, saiu em 1968, quando ela tinha 37 anos. As histórias já vinham de anos de recusa, corte e reescrita. O volume recebeu o Governor General’s Award, principal prêmio literário canadense. O material que a acompanharia estava ali. Meninas com vergonha da pobreza, pais vencidos, mães doentes. Às vezes bastava uma visita ou o jeito de alguém entrar numa casa.

Três anos depois veio “Vidas de Meninas e Mulheres”. Chamaram de romance, embora o livro avance por histórias ligadas à vida de Del Jordan, uma jovem que quer sair da cidade fictícia de Jubilee e acaba descobrindo, entre sexo, dinheiro, família e literatura, que deseja escrever. A dúvida entre romance e livro de contos diz alguma coisa sobre Munro. Ela não aceitava que a narrativa curta ficasse presa ao flagrante.

Em “Fugitiva”, Carla vive com um homem opressivo, decide ir embora e recua. Uma cabra desaparece. O sumiço não sai mais da história. Munro deixa o leitor sempre alguns passos adiante de Carla, a protagonista. Em “O Amor de uma Boa Mulher”, um carro com um cadáver aparece no fundo de um rio. No começo, parece história policial. O morto logo perde espaço para uma enfermeira, uma mulher doente, uma confissão duvidosa e uma decisão que talvez nem seja tomada. A certa altura, saber quem matou o homem já importa menos do que saber o que a enfermeira fará com aquilo que ouviu.

A comparação com Anton Tchékhov veio cedo e pegou. Os dois escreveram sobre gente comum sem a piedade açucarada das histórias edificantes, não distribuíam sentenças e sabiam que a vida raramente prepara um bom clímax. Tchékhov costuma concentrar a força numa situação. Munro espalha o efeito pelo tempo. A menina vê uma coisa, a adulta se lembra de outra, a velha já não tem certeza. Vinte anos somem entre dois parágrafos. Da vida inteira, o leitor recebe alguns pedaços. Nem sempre os certos.

Sua frase não se exibe. É clara, controlada, às vezes até comportada. A surpresa vem da montagem. Uma observação jogada no começo volta com outro peso. A personagem lateral toma conta do conto. A vítima mostra alguma crueldade. Munro não precisava fazer a linguagem brilhar. Em “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”, duas adolescentes escrevem cartas falsas para Johanna, uma governanta solitária, e esperam vê-la passar vergonha. Ela acredita. Pega um trem, atravessa o país e faz da mentira alguma coisa parecida com uma vida. As meninas escreveram o começo. Johanna ficou com o resto.

Munro virou escritora de escritores. Margaret Atwood, Jonathan Franzen e Cynthia Ozick estavam entre seus admiradores. A revista “The New Yorker” publicou dezenas de contos e ajudou a espalhar o nome para fora do Canadá. Vieram “As Luas de Júpiter”, “O Progresso do Amor”, “Falsos Segredos”, “Fugitiva”, “Felicidade Demais” e, por fim, “Vida Querida”, de 2012. No ano seguinte veio o Nobel. A Academia Sueca a chamou de “mestre do conto contemporâneo”.

Em poucas dezenas de páginas, fazia caber uma cidade, uma família, uma vida vista de mais de um ângulo. Sumiam anos, às vezes as explicações junto. O leitor recebia o resto. Munro tinha seus truques. Depois de alguns livros, o leitor aprende a reconhecê-los. A moça vai embora, o homem decepciona, a cidade reaparece, vinte anos somem e uma informação tardia muda a primeira percepção. Nem sempre funciona. Há coincidências de serviço, personagens largados pelo caminho e mudanças de foco que, depois de alguns livros, chegam com hora marcada.

Munro não tratava suas mulheres como porta-vozes. Elas amam, traem, suportam, abandonam. Cuidam da mãe e desejam que ela morra. Fogem tarde, ficam demais. Durante anos, a crítica chamou isso de “sensibilidade feminina”. Era um jeito educado de pôr a escritora num cercado. Também se falou muito na grandeza que ela encontrava nas pequenas coisas. Pequenas onde? Seus contos têm assassinato, abuso, chantagem, demência, gente que desaparece. O tom é baixo. O estrago, nem sempre.

Essa voz baixa ajudou a montar a personagem pública. A senhora discreta de Ontário, longe da celebridade, escrevendo perto do berço e sem explicar o próprio trabalho. Era uma boa fotografia, desde que se deixassem fora dela os agentes, os editores, os manuscritos cheios de emenda e as histórias refeitas quando já pareciam prontas. Em 1978, com “Who Do You Think You Are?” em produção, Munro mandou interromper a impressão para mexer outra vez no livro.

Munro soube em 1992. Depois voltou para Gerald Fremlin

O relato de Andrea Skinner acabou com essa fotografia. Gerald Fremlin não era um homem complicado de conto. Era o homem que abusara de uma criança. Munro soube. Saiu por pouco tempo e voltou. Isso não torna os contos piores. Um livro não melhora o caráter de quem o escreveu. O desconcerto vem da coincidência. Munro passou a vida escrevendo sobre famílias que aprendem a conviver com o intolerável. Quando o intolerável entrou em sua casa, ela também conviveu.

“Vandals”, conto de “Falsos Segredos”, ficou difícil de ler do mesmo modo. Há abuso, uma mulher que vê e prefere não ver, uma menina sozinha com o que aconteceu e uma vingança que não conserta nada. Hoje é quase impossível não aproximá-lo da história de Andrea, embora o conto não seja confissão nem prova.

Perto do fim, já com a memória falhando, Munro talvez tenha dito que deveria ter escolhido a filha. A informação é frágil e não absolve ninguém, mas dói porque a compreensão, se veio, chegou quando já não havia mais o que fazer. Munro passou a vida escrevendo histórias que mudavam depois de parecer encerradas. Bastava uma carta, uma lembrança corrigida, alguém que voltava tarde. Morreu como a grande contista das falhas humanas. Então a filha contou o que faltava.

Os livros ficaram. “Fugitiva”, “O Amor de uma Boa Mulher”, “Falsos Segredos”, “Vida Querida”. Nenhum deles precisa de defesa. O que acabou foi a leitura inocente, a santa doméstica, a velha senhora que parecia compreender tudo.

Seus melhores contos acabam antes da resposta. A história de Alice Munro também ficou sem ela. Aqui, porém, o silêncio não tem o efeito que tinha nos livros. Só pesa.

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