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Há quem chore nos velórios, quem se ocupe do café e dos sanduíches, quem abrace parentes distantes até os braços doerem. Davis Mitchell escreve uma reclamação porque uma máquina automática do hospital engoliu seu dinheiro e não lhe entregou um pacote de M&M’s. A esposa, Julia, acaba de morrer num acidente de carro do qual ele saiu sem um arranhão, e sua indignação se concentra naquele pequeno roubo mecânico, talvez porque discutir com engrenagens seja muito mais simples que admitir a falência de uma vida inteira. Em “Demolição”, Jean-Marc Vallée encontra seu personagem no instante em que todos esperam dele um comportamento adequado e o vê seguir pela direção oposta. Davis volta ao escritório, veste seus ternos bem-cortados, circula entre os vidros e metais da empresa de investimentos dirigida pelo sogro e observa a própria desgraça com a curiosidade de um estranho. Jake Gyllenhaal imprime a esse viúvo uma frieza perturbadora, sustentada por sorrisos fora de hora, olhos que procuram alguma coisa no vazio e uma disposição quase jovial para dizer que talvez nunca tenha amado a mulher morta.

As cartas ao serviço de atendimento tornam-se confissões extensas, cheias de episódios insignificantes que, reunidos, expõem um casamento automático, uma carreira herdada por conveniência e uma casa sofisticada onde nada parece guardar vestígio de quem mora ali. Bryan Sipe arma o roteiro em torno de uma instrução do sogro Phil Eastwood, segundo a qual é preciso desmontar um objeto e examinar suas partes importantes para compreender o defeito. Davis leva o conselho com uma literalidade demente. Abre a geladeira, o computador do escritório, uma luminária, a porta de um banheiro; depois compra ferramentas, invade uma obra e descobre no barulho das marretas uma espécie de idioma que seu corpo entende. Vallée acompanha essa insânia com montagem ligeira, música pop e uma câmera que prefere seguir o ator a tentar explicá-lo. Na sequência em que Davis dança sozinho numa estação, cercado por passageiros imóveis e cansados, Gyllenhaal afrouxa os braços, sacode os quadris, atravessa a multidão como um homem finalmente expulso da própria respeitabilidade. O desempenho dispensa lágrimas por boa parte do tempo, e justo por isso a dor se torna visível.

Naomi Watts e a intimidade do desajuste

Karen Moreno lê as cartas porque trabalha na empresa responsável pela máquina e acaba telefonando para aquele cliente que transformara uma queixa banal num inventário de sua ruína. Naomi Watts evita fazer de Karen uma salvadora luminosa. Ela fuma maconha escondida, vive uma relação sem entusiasmo com o chefe e cria Chris, um adolescente inteligente, provocador, interessado em música e às voltas com a brutalidade que costuma atingir quem ainda está tentando descobrir como deseja existir. Davis entra naquela casa suburbana sem cerimônia, dorme no sofá, mexe nos objetos e estabelece com mãe e filho uma intimidade fundada no desajuste. Karen escuta porque também precisa falar; Chris se aproxima porque percebe naquele homem de terno um adulto tão desorientado quanto ele. A amizade dos dois fornece algumas das cenas mais delicadas do longa, sobretudo quando Davis aceita participar das experiências perigosas do garoto sem adotar a voz paternal dos que fingem saber tudo. O personagem de Judah Lewis devolve alguma gravidade ao filme, embora Sipe às vezes o use como instrumento para acelerar a recuperação do protagonista, submetendo sua sexualidade e seus conflitos a uma função dramática excessivamente conveniente.

Chris Cooper carrega no rosto o luto que Davis se recusa a manifestar. Phil perdeu a filha e ainda precisa administrar o genro errático, cujas atitudes profanam a solenidade que ele tenta preservar através de uma fundação, discursos, fotografias e cerimônias. Cooper mantém o personagem entre a ternura e o desejo de esmurrar Davis, conferindo peso às cenas em que os dois homens se enfrentam sem conseguir falar da mesma mulher. Aos poucos, recordações e segredos mostram que Julia fora reduzida pelo marido a uma presença funcional, alguém que organizava compromissos, reclamava da geladeira quebrada e tentava chamar a atenção de um homem incapaz de enxergá-la. Vallée acerta ao deixar que essa consciência venha por objetos e gestos, e perde parte da firmeza quando acumula revelações com a intenção evidente de conduzir Davis ao pranto. A metáfora central tampouco prima pela sutileza. O sujeito está destruído, logo destrói eletrodomésticos, paredes e, por fim, a própria casa com uma escavadeira. O expediente é acintosamente óbvio, ainda assim conserva força graças ao prazer físico com que Gyllenhaal golpeia madeira, gesso e vidro, como se cada pancada derrubasse um cômodo da vida que ele aceitara por inércia.

Jean-Marc Vallée entre o estrago e a reconstrução

“Demolição” avança aos solavancos, alternando humor sombrio, melodrama familiar e cenas de uma liberdade quase musical, sem sempre conseguir harmonizá-los. Karen perde espaço na reta final, Chris recebe uma violência severa demais para a resolução que lhe é reservada e o roteiro parece ansioso por oferecer a Davis uma epifania limpa depois de tanta sujeira. Vallée encontra uma saída honesta ao devolver-lhe certas lembranças de Julia sem santificá-la nem reescrever o casamento como uma paixão interrompida pelo destino. O carrossel condenado à demolição, restaurado em homenagem a ela, encerra a jornada com um símbolo um tanto dócil, adequado a um filme que passou 101 minutos tentando conciliar destruição e movimento. Davis começa diante de uma máquina que reteve um pacote de chocolate e termina observando outra engrenagem funcionar. Entre esses dois mecanismos, Gyllenhaal desmonta um homem que se mantinha em pé apenas porque ninguém havia tocado em suas paredes. Vallée deixa alguns parafusos sobrando. Aqui, eles fazem parte da verdade do estrago.


Filme: Demolição
Diretor: Jean-Marc Vallée
Ano: 2016
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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