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Lançado em 2021, “Mona Lisa e a Lua de Sangue” acompanha uma jovem com poderes sobrenaturais que foge de uma instituição psiquiátrica em Nova Orleans e passa a ser perseguida quando uma mãe solteira decide lucrar com suas habilidades.

Dirigido por Ana Lily Amirpour, “Mona Lisa e a Lua de Sangue” mistura fantasia, suspense, mistério e uma boa dose de estranheza. A história segue Mona Lisa Lee, interpretada pela atriz sul-coreana Jeon Jong-seo, uma jovem que passou anos trancada em uma instituição psiquiátrica e quase não possui contato com o mundo exterior. Ela fala pouco, observa muito e consegue controlar os movimentos de outras pessoas apenas com o olhar.

A fuga coloca Mona Lisa nas ruas movimentadas de Nova Orleans durante uma noite de lua cheia. Sem dinheiro, documentos ou qualquer plano minimamente organizado, ela caminha por uma cidade cheia de bares, turistas, luzes coloridas e gente disposta a tirar vantagem de quem parece perdida. Sua habilidade sobrenatural impede algumas agressões, mas também chama atenção e deixa rastros que podem levá-la de volta ao confinamento.

Uma fugitiva fora do mundo

Mona Lisa não conhece as regras mais básicas da vida cotidiana. Ela não sabe como pedir comida, escolher roupas ou lidar com pessoas que se aproximam oferecendo ajuda. Essa ingenuidade faz dela uma personagem vulnerável, apesar do poder que carrega. Jeon Jong-seo interpreta a jovem com poucas palavras e um olhar atento, mantendo uma mistura curiosa de inocência, frieza e desconfiança.

Durante a fuga, ela conhece Fuzz, vivido por Ed Skrein. DJ de aparência excêntrica e comportamento agitado, ele oferece comida, companhia e alguma orientação pela cidade. Fuzz parece saído de uma festa que começou há vários dias e ninguém teve coragem de encerrar, mas trata Mona Lisa com mais gentileza do que boa parte das pessoas consideradas normais.

Essa relação dá à jovem algum tempo para descobrir a cidade. O problema é que o policial Harold, interpretado por Craig Robinson, começa a procurar pela fugitiva. Depois de presenciar o alcance de seus poderes, ele passa a tratar o caso com interesse pessoal. A busca policial fecha algumas rotas e transforma cada novo encontro em possível denúncia.

Bonnie descobre uma oportunidade

A situação muda quando Mona Lisa conhece Bonnie Belle, personagem de Kate Hudson. Bonnie trabalha como stripper, cria o filho sozinha e vive contando dinheiro para pagar as despesas. Ela é expansiva, falante e acostumada a sobreviver com aquilo que tem à mão. Quando percebe que Mona pode controlar os movimentos das pessoas, enxerga uma oportunidade de ganhar dinheiro sem tanto esforço.

Bonnie oferece abrigo, comida e roupas. Em troca, leva a jovem para situações nas quais seu poder pode ser usado para retirar dinheiro de desconhecidos. Mona Lisa aceita porque ainda depende daquela casa e não possui outra referência de família. A parceria rende alguns ganhos, mas também deixa evidente que o acolhimento de Bonnie possui um preço.

Kate Hudson cria uma personagem cheia de contradições. Bonnie consegue ser afetuosa, egoísta, engraçada e irresponsável dentro da mesma conversa. Ela cuida de Mona Lisa em alguns momentos, mas também a trata como fonte de renda. Essa mistura impede que a personagem seja vista apenas como vilã, embora suas escolhas coloquem todos ao redor em perigo.

A graça surge do contraste entre as duas mulheres. Bonnie fala sem parar, inventa planos e tenta controlar cada situação. Mona Lisa responde com silêncio, encara as pessoas e resolve problemas de uma maneira que costuma deixar alguém caído, imóvel ou bastante confuso. A parceria funciona por algum tempo, mas a presença da polícia torna o dinheiro fácil cada vez mais caro.

Charlie ganha uma aliada

Dentro do apartamento de Bonnie vive Charlie, interpretado por Evan Whitten. O menino sofre provocações de outros garotos e convive com uma mãe que nem sempre percebe aquilo que acontece ao redor. Ele e Mona Lisa criam uma ligação sincera porque ambos conhecem a sensação de serem tratados como problema antes mesmo de conseguirem se defender.

Charlie não se aproxima dela pelo poder ou pelo dinheiro. Ele oferece companhia, mostra objetos, divide alimentos e cria uma forma simples de amizade. Mona Lisa passa a protegê-lo, enquanto o menino se torna uma das poucas pessoas em quem ela pode confiar. Essa relação dá sensibilidade ao filme e impede que a história permaneça restrita a fugas, golpes e perseguições.

Evan Whitten interpreta Charlie sem transformar o personagem em criança excessivamente adorável. Ele é esperto, ressentido e capaz de tomar decisões por conta própria. A amizade com Mona Lisa também enfraquece o controle de Bonnie, que percebe o filho mais ligado à visitante do que aos planos financeiros da casa.

A polícia fecha o caminho

Harold segue as pistas deixadas pelas duas mulheres e aproxima a investigação do apartamento. Craig Robinson carrega o policial com uma seriedade atravessada por constrangimento, pois ele precisa explicar acontecimentos que parecem absurdos até para seus colegas. O personagem tem autoridade para perseguir Mona Lisa, mas também possui orgulho ferido e dificuldade para aceitar que perdeu o controle do próprio corpo.

A busca aumenta a pressão sobre Bonnie. Ela precisa proteger o filho, esconder Mona Lisa e preservar o dinheiro obtido com os golpes. Essas prioridades nem sempre cabem na mesma decisão. Quanto mais insiste em aproveitar o poder da jovem, mais expõe o apartamento, Charlie e a própria fugitiva.

Ana Lily Amirpour usa a noite de Nova Orleans para manter a sensação de movimento. As ruas cheias ajudam Mona Lisa a desaparecer, enquanto câmeras, testemunhas e viaturas diminuem suas opções. A música eletrônica, os clubes e as fantasias usadas pelos turistas deixam a jovem menos visível por algum tempo, mas nenhum disfarce resolve a perseguição por muitas horas.

Fantasia com afeto e esperteza

“Mona Lisa e a Lua de Sangue” funciona melhor quando acompanha as relações criadas pela protagonista. A origem de seus poderes recebe pouca atenção, pois o roteiro prefere observar o que diferentes pessoas fazem ao descobrir aquela habilidade. Fuzz oferece ajuda. Charlie oferece amizade. Bonnie oferece uma casa, mas cobra participação nos ganhos. Harold oferece apenas a possibilidade de retorno ao confinamento.

Essa escolha preserva o mistério e fortalece Mona Lisa como personagem. Ela começa a história sem conhecer quase nada sobre liberdade, confiança ou interesse financeiro. Aos poucos, passa a identificar quem deseja protegê-la e quem pretende usá-la. Jeon Jong-seo sustenta essa mudança com gestos pequenos, sem transformar a jovem em heroína convencional.

Kate Hudson traz energia e certa desordem à história, enquanto Craig Robinson mantém a perseguição ligada ao chão. Ed Skrein acrescenta excentricidade sem roubar a atenção, e Evan Whitten oferece o vínculo emocional mais consistente do roteiro. O elenco ajuda a equilibrar uma obra que circula entre fantasia urbana, suspense policial e comédia de comportamento.

“Mona Lisa e a Lua de Sangue” nem sempre desenvolve todas as ideias que apresenta. Ainda assim, encontra personalidade na mistura de gêneros e na maneira sensível de observar pessoas que vivem à margem. Mona Lisa precisa escapar de uma instituição, da polícia e de quem tenta transformar seu dom em mercadoria. Quando percebe que Charlie corre perigo, ela deixa de agir apenas pela própria liberdade e usa seu poder para abrir uma saída para quem lhe ofereceu amizade.


Filme: Mona Lisa e a Lua de Sangue
Diretor: Ana Lily Amirpour
Ano: 2021
Gênero: Fantasia/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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