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No drama “Depois do Fogo”, lançado em 2025, um fazendeiro do sul do Colorado perde a propriedade da família em um incêndio e passa a viver em um acampamento temporário. Sem casa, renda ou perspectivas seguras, Dusty (Josh O’Connor) precisa escolher entre procurar trabalho longe dali ou permanecer perto da filha, Callie-Rose (Lily LaTorre). O diretor Max Walker-Silverman acompanha essa fase delicada sem transformar a tragédia em espetáculo. Seu interesse está nas consequências que chegam depois das chamas, quando a fumaça desaparece, mas as contas, as lembranças e os vínculos familiares continuam no mesmo lugar.

Dusty pertence a uma longa linhagem de criadores de gado. O rancho representa seu trabalho, sua história e a única vida que aprendeu a levar. Quando o incêndio destrói a casa e inutiliza boa parte da propriedade, ele perde mais do que um endereço. Também fica sem a atividade que sustentava sua família havia gerações.

O fazendeiro tenta descobrir se ainda existe alguma possibilidade de reconstrução, mas a terra queimada vale pouco e já não oferece garantias suficientes para um empréstimo. Sem dinheiro e sem condições de permanecer no rancho, ele aceita morar em um trailer fornecido pela Agência Federal de Gestão de Emergências dos Estados Unidos, a FEMA.

O acampamento reúne moradores que passaram por perdas semelhantes. Todos têm abrigo, porém ninguém sabe por quanto tempo poderá continuar ali. Os trailers protegem da chuva e do frio, mas não devolvem privacidade, estabilidade ou emprego. Dusty consegue trabalho na manutenção de estradas, atividade bem distante do cotidiano que conhecia. Ele recebe algum dinheiro, embora cada dia longe do rancho confirme que aquela antiga rotina talvez não volte.

Walker-Silverman não apresenta Dusty como um homem expansivo. Ele fala pouco, guarda sentimentos e parece desconfortável quando precisa aceitar ajuda. Josh O’Connor trabalha essas características com discrição. Um olhar demorado, uma pausa antes de responder ou a maneira de permanecer parado diante da terra dizem muito sobre alguém que perdeu quase tudo e ainda não sabe admitir a dimensão da perda.

A filha volta a ocupar espaço

A permanência no Colorado permite que Dusty se aproxime de Callie-Rose. A menina vive com a mãe, Ruby (Meghann Fahy), e conhece o pai por encontros espaçados, promessas e ausências. A convivência entre os dois começa dentro do trailer, um espaço apertado que mal comporta móveis, quanto mais anos de distância afetiva.

Callie-Rose chega com energia, perguntas e uma sinceridade que nenhum adulto sensato ousaria enfrentar sem algum receio. Dusty precisa aprender tarefas simples que, até então, recaíam sobre Ruby. Ele busca a filha, acompanha compromissos e procura lugares com acesso à internet para que ela consiga fazer as atividades escolares. A paternidade deixa de ser uma ideia simpática e passa a ocupar horários, combustível e responsabilidade.

Lily LaTorre interpreta Callie-Rose com espontaneidade. A menina gosta do pai, mas não o trata como herói. Ela percebe suas limitações, cobra atenção e preenche o silêncio do trailer com a naturalidade de quem ainda acredita que os adultos podem consertar tudo. A relação entre os dois sustenta os melhores trechos de “Depois do Fogo”, sobretudo porque cresce por meio de gestos comuns, sem grandes declarações.

Ruby observa essa aproximação com cautela. Meghann Fahy dá à personagem uma firmeza serena, marcada pelo cansaço de quem precisou assumir grande parte da criação da filha. Ela permite os encontros, porém cobra compromisso. Dusty pode ser carismático e bem-intencionado, mas isso não apaga os períodos em que esteve ausente.

O roteiro acerta ao não transformar Ruby em obstáculo para a relação entre pai e filha. Ela tem motivos concretos para desconfiar. Precisa proteger a rotina de Callie-Rose e saber se o ex-marido permanecerá por perto quando surgir uma nova oportunidade de trabalho. Cada visita cumprida aumenta a confiança. Cada incerteza devolve o medo de outro abandono.

O acampamento vira vizinhança

Aos poucos, Dusty também se aproxima dos outros moradores. Mali (Kali Reis), uma viúva que vive com a filha, trata o recém-chegado sem cerimônia. Ela conhece a insegurança causada pelo incêndio e sabe que o orgulho pouco ajuda quando todos dependem de favores, informações e objetos emprestados.

Bess (Amy Madigan), ligada à família de Ruby, preserva lembranças e histórias que sobreviveram à destruição. Sua presença ajuda a ligar o passado da região às pessoas que ainda tentam permanecer nela. Esses personagens impedem que a história fique restrita ao sofrimento de Dusty. O incêndio atingiu casas diferentes, mas criou dificuldades bastante parecidas.

O acampamento começa a ganhar a aparência de um bairro improvisado. Moradores cuidam das crianças, dividem comida e oferecem companhia nos dias mais difíceis. Há carinho nessa convivência, embora o roteiro não esconda a fragilidade da situação. O auxílio tem prazo, os empregos são escassos e ninguém possui recursos para reconstruir sozinho.

Max Walker-Silverman observa essas relações com paciência. Em alguns momentos, essa escolha deixa o filme lento demais. Certos personagens secundários surgem apenas para oferecer acolhimento, sem receber o mesmo cuidado dedicado a Dusty. Ainda assim, o ambiente coletivo dá força ao drama ao lembrar que tragédias ambientais não encerram quando o fogo é controlado. Elas seguem presentes em formulários, mudanças, dívidas e quartos provisórios.

Um cowboy sem lugar garantido

“Depois do Fogo” utiliza elementos do faroeste, mas deixa de lado duelos, bandidos e aventuras grandiosas. Seu cowboy luta para pagar despesas, manter contato com a filha e descobrir onde poderá morar. O cavalo dá lugar ao carro de serviço. O território aberto já não representa liberdade, pois boa parte dele foi destruída ou perdeu valor.

Josh O’Connor sustenta Dusty sem procurar simpatia a qualquer custo. O personagem é afetuoso, mas falho. Ama Callie-Rose, embora tenha demorado a participar de sua rotina. Deseja preservar a propriedade da família, porém não possui dinheiro para recuperá-la. Seu dilema nasce dessa divisão entre o passado que conhece e o futuro que ainda não consegue nomear.

O filme trata a reconstrução de maneira sóbria. Uma nova casa não resolveria automaticamente os danos familiares, assim como uma reaproximação com a filha não devolveria o rancho. Dusty precisa lidar com perdas distintas, cada uma exigindo um tipo de esforço.

Walker-Silverman preserva o tom sensível até quando o ritmo enfraquece. O diretor confia nas pequenas ações e no trabalho do elenco, principalmente na parceria entre Josh O’Connor e Lily LaTorre. Pai e filha transformam o trailer da FEMA em um espaço menos provisório sempre que dividem uma refeição, uma tarefa ou algumas horas do dia. Dusty talvez ainda não saiba onde viverá, mas sua permanência perto de Callie-Rose já determina qual vínculo ele não pretende perder outra vez.


Filme: Depois do Fogo
Diretor: Max Walker-Silverman
Ano: 2025
Gênero: Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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