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Um pedaço de bolo molhado no chá. Uma colher levada à boca. E, de repente, uma lembrança que arromba por dentro uma porta emperrada havia décadas. Todo mundo conhece a madeleine de Marcel Proust, inclusive quem nunca passou da primeira página de “Em Busca do Tempo Perdido”. Destino meio cruel para um escritor que desconfiava das lembranças fáceis, dos atalhos sentimentais, das etiquetas pregadas às coisas antes que a inteligência tivesse tempo de sujar as mãos nelas.

Proust não foi, ou não foi principalmente, o escritor da lembrança doce e da infância preservada. Foi um dos grandes desconfiados da literatura moderna. Desconfiou do amor, da memória, da amizade, da aristocracia, dos salões e da própria inteligência. Nasceu em Auteuil, em 1871, filho de um médico famoso e de uma mãe judia. Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust pertenceu por origem ao conforto burguês e por ambição ao mundo aristocrático que mais tarde desmontaria fio por fio.

A posteridade costuma reduzir escritores difíceis a algumas imagens fixas. Com Proust, ficaram a asma, a mãe, os disfarces sexuais, o Caso Dreyfus, a noite, o quarto forrado de cortiça. Nada disso é falso. O problema começa quando a biografia passa a explicar o que pertence à forma. “Contra Sainte-Beuve”, o ensaio póstumo em que Proust combate a ideia de que o homem social explica o escritor, deveria ficar pregado na porta de todo perfil sobre ele. A vida interessa. Mas só depois de ter sido triturada pela forma.

O livro recusado que ganhou o Goncourt

E que forma. Publicado em sete volumes entre 1913 e 1927, os três últimos depois da morte do autor, “Em Busca do Tempo Perdido” é um desses livros que excedem a categoria em que foram colocados. Chamar a obra de romance é correto, mas insuficiente. Há ali romance de formação, comédia de costumes, ensaio sobre arte, investigação da memória, anatomia do snobismo e tratado sobre o ciúme, todos submetidos a uma sintaxe que desmonta a percepção em vez de descrevê-la.

“No Caminho de Swann” saiu em 1913 pela Grasset, depois de recusas editoriais, em edição custeada pelo próprio autor. A Nouvelle Revue Française, que depois entraria na história da consagração proustiana, não soube reconhecer de primeira o que tinha diante de si. O segundo volume, “À Sombra das Moças em Flor”, ganhou o Goncourt em 1919, causando polêmica. A França mal saíra da Primeira Guerra, e havia quem preferisse premiar uma obra encharcada de trincheiras. Proust, aos 48 anos, parecia velho demais, mundano demais.

O leitor que se aproxima de Proust esperando “história” no sentido mais convencional do termo pode se irritar depressa. Pessoas envelhecem, morrem, reaparecem irreconhecíveis num baile final em que o tempo faz o papel de maquiador perverso.

A grande ação proustiana acontece no intervalo entre a experiência e sua compreensão tardia. Swann descobre tarde demais que amou uma mulher que talvez nem achasse especialmente atraente antes de o desejo contaminá-la com ciúme e prestígio imaginário. O narrador ama com a ferocidade burocrática de um carcereiro que chama sua prisão de sentimento. A duquesa, vista de longe como aparição heráldica, perde a aura quando abre a boca. O nome, em Proust, é sempre mais sedutor do que o fato, mas a vida insiste em apresentar os fatos.

Essa é uma das razões pelas quais Proust envelheceu menos do que muitos modernos que vieram depois dele. O cenário mudou, claro. As duquesas, os criados e as visitas cerimoniosas parecem peças de museu. O prestígio continua trabalhando, apenas trocou de roupa.

A frase de Proust é o instrumento dessa perseguição. Longa, cheia de ressalvas, irrita quem toma clareza por pressa. Cerca uma impressão, interroga uma lembrança, volta a uma cena, examina um gesto, desconfia de uma palavra, chama uma comparação para depor. Às vezes abusa do direito de continuar viva.

Proust pode ser excessivo, repetitivo, empenhado demais em provar que viu o que viu. Faz parte do preço. Um Proust econômico seria mais fácil de recomendar. Também faria menos falta.

O barão homossexual e a política dos salões

Também é um erro fazer dele um escritor solene demais. “Em Busca do Tempo Perdido” é muito mais engraçado do que sua fama de montanha sagrada permite supor. Os Verdurin, com sua panelinha autocongratulatória, dariam uma boa comédia sobre qualquer ambiente cultural pequeno o bastante para se achar universal. Françoise, a criada, tem uma língua e uma crueldade que impedem o livro de flutuar apenas no ar rarefeito das grandes ideias. Charlus, uma das maiores criações do romance moderno, é patético, ridículo e trágico. Proust sabe que a comédia social não distrai das grandes questões humanas. Ela as põe para circular em público, usando luvas.

A sexualidade é uma zona em que sua coragem e seus limites se mostram juntos. “Sodoma e Gomorra” avança sobre terreno que a literatura de seu tempo mal podia pisar, mas o faz com instrumentos históricos que hoje rangem. Homossexualidade aparece como segredo e inversão. Seria cômodo absolver tudo em nome do gênio, como seria raso condenar a obra inteira com a superioridade retrospectiva de quem nasceu depois. Proust viu como poucos a rede de códigos que cerca o desejo clandestino. Também ficou preso a algumas grades do seu tempo.

O mesmo vale para o judaísmo e para o Caso Dreyfus. Proust, filho de mãe judia, burguês assimilado e frequentador de salões onde o antissemitismo podia circular com bons modos, entendeu que a política raramente se apresenta apenas como discurso. Ela aparece numa visita recusada, numa aliança matrimonial, numa mudança de tom quando o nome errado entra na conversa. Proust não precisa transformar “Em Busca do Tempo Perdido” em romance político. A política já está lá, dissolvida no convívio, no favor, no desprezo de quem pode entrar e quem deve esperar do lado de fora.

Quintana, Bandeira, Drummond e o piano de Proust

No Brasil, Proust teve destino curioso. A primeira tradução de “Em Busca do Tempo Perdido”, iniciada pela Livraria do Globo em 1948, juntou uma espécie de seleção literária nacional. Mário Quintana ficou com os primeiros volumes. Depois vieram Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Lúcia Miguel Pereira. Havia algo de improvável e bonito nisso. A literatura brasileira ainda não parecia tão acanhada diante da grande cultura europeia.

Mais tarde viria a tradução integral de Fernando Py. Recentemente, a Companhia das Letras iniciou nova edição, optando por “À Procura do Tempo Perdido”, título que estranha o ouvido já habituado e lembra que traduzir Proust é também decidir que tipo de perda cabe em português.

Claro que muita gente prefere admirá-lo a lê-lo. Proust se presta a essa modalidade de deserção. É autor ideal para ser citado em conversas sobre tempo, memória, lentidão, decadência da leitura, madeleines e questionários de personalidade. A escola e a universidade, quando pesam a mão, ajudam a mumificá-lo. O mercado, quando tenta torná-lo palatável demais, faz pior. Proust precisa ser lido como escritor de inteligência frequentemente desagradável, capaz de mostrar que nossas lembranças mentem, nossas opiniões têm pedigree social, nosso gosto nem sempre é nosso e a arte talvez seja a última chance de descobrir isso.

O Proust do quarto forrado de cortiça, trabalhando à noite entre papéis, acréscimos, provas corrigidas, remendos, crises de asma e medicamentos, pede desconfiança. Ali não está um santo laico, purificado da vida pelo isolamento. Está um homem doente, maníaco, tentando dar forma ao que viveu, desejou e desperdiçou.

Proust morreu em 1922, aos 51 anos, antes de ver a obra inteira publicada. O narrador de “Em Busca do Tempo Perdido” chega ao fim com uma tarefa. Escrever com o que sobrou de paixões, salões, doenças, nomes, humilhações e mortes. O tempo não volta. Fez o estrago. O máximo que a arte consegue é dar forma à perda, tarde demais.

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