A física é o primeiro cadáver de “Megatubarão 2”. Depois vêm mercenários, cientistas, turistas, criaturas pré-históricas e qualquer vestígio de prudência que ainda pudesse sobreviver num filme em que Jason Statham enfrenta tubarões gigantes montado num jet ski, empunhando arpões improvisados como um pescador mitológico de cabeça raspada. Ben Wheatley compreende que uma sequência dessa natureza não poderia conservar o pouco de sobriedade do longa de 2018 e se entrega à escalada do absurdo, malgrado demore quase uma hora para libertar os monstros e permitir que a diversão, enfim, mostre os dentes.
Jonas Taylor continua ocupado com a preservação dos oceanos, agora invadindo embarcações que despejam resíduos tóxicos no mar e distribuindo pancadas entre os responsáveis, trabalho voluntário para o qual a inexpressividade marmórea de Statham parece ter sido criada. Cinco anos depois do confronto com o primeiro megalodonte, ele também cria Meiying, a adolescente vivida por Shuya Sophia Cai, dividindo a tarefa com Jiuming Zhang, o tio da garota interpretado por Wu Jing. Jiuming assumiu o instituto de pesquisas da família e mantém em cativeiro Haiqi, uma fêmea da espécie que acredita ter domesticado mediante sinais sonoros e uma confiança científica próxima da loucura. Jonas olha para o animal e enxerga oitenta pés de músculos, dentes e apetite. Jiuming vê uma criatura sensível. Nenhum dos dois parece considerar a hipótese mais elementar: Haiqi está apenas esperando a oportunidade certa.
Jason Statham contra as leis da física
O roteiro de Jon Hoeber, Erich Hoeber e Dean Georgaris, baseado em “The Trench” (1999), romance de Steve Alten, conduz Jonas e Jiuming numa nova expedição à fossa oceânica, com Meiying escondida no submersível. A travessia da termoclina leva o grupo a um ecossistema apartado da superfície há milhões de anos, habitado por outros megalodontes, pequenos predadores anfíbios e um polvo de proporções bíblicas. Wheatley alcança seus melhores momentos quando reduz o campo visual, envolve as naves numa escuridão espessa e obriga os personagens a caminhar pelo leito oceânico em trajes pressurizados depois que uma explosão inutiliza os veículos. O oxigênio diminui, vultos movem-se do lado de fora dos fachos de luz e qualquer rachadura no equipamento significa uma morte instantânea. Durante alguns minutos, o longa encontra o suspense prometido pelo título.
A explosão revela também uma operação clandestina de mineração comandada por Montes, o mercenário de Sergio Peris-Mencheta, empenhado em extrair minerais raros e acertar antigas contas com Jonas. O problema está na quantidade de tempo concedida a esse antagonista e à bilionária Hillary Driscoll, vivida por Sienna Guillory, vilões de plástico que ameaçam transformar um filme sobre tubarões gigantes numa aventura genérica sobre empresários gananciosos. Wheatley chega a abandonar os megalodontes por longos trechos para acompanhar sabotagens, traições e tiroteios em corredores metálicos, como se ainda precisasse justificar racionalmente o caos. A cobiça humana oferece o pretexto para romper a barreira que separava as criaturas do mundo, e isso bastava. Montes e Driscoll são apenas carne à espera do predador adequado.
Quando o oceano vira parque de diversões
Quando a ação chega à superfície e desemboca na aprazível Fun Island, um balneário cheio de turistas distraídos, “Megatubarão 2” assume a vulgaridade gloriosa que vinha reprimindo. Os répteis invadem a praia, o polvo agarra helicópteros, três megalodontes convertem banhistas em petiscos e Jonas percorre o mar num jet ski carregado de explosivos, sempre com a expressão de quem saiu de casa para comprar pão. Statham não tenta conferir profundidade ao personagem e acerta precisamente por isso, sustentando as atrocidades do enredo com uma fleuma que transforma o impossível em mera inconveniência. Wu Jing segue por outra via, dando a Jiuming uma agilidade cômica e um entusiasmo infantil que o fazem pular de helicópteros, enfrentar tentáculos e conversar com Haiqi como quem repreende um cachorro travesso. Entre os dois, Sophia Cai evita que Meiying se reduza à adolescente em perigo, dotando-a da mesma imprudência dos homens encarregados de protegê-la.
Os efeitos visuais perdem parte do impacto sob a luz do dia, quando os animais adquirem a textura ligeiramente lustrosa de criaturas de videogame, ainda que Wheatley consiga organizar a carnificina e fazer com que se entenda quem persegue quem naquele aquário de sangue, hélices e barracas de praia. “Megatubarão 2” passa tempo demais simulando gravidade e pouco demais explorando o terror das profundezas. Assim mesmo, seu ato final compensa boa parte do mergulho moroso. Nenhum megalodonte de vinte metros teria chance contra Jason Statham, e o filme tem a decência de jamais fingir o contrário.

