Discover

Há mulheres que chegam à maternidade por um corredor de clínica, depois de seringas, ultrassons, formulários e telefonemas que começam esperançosos e terminam com a voz profissional de quem já comunicou centenas de fracassos. Jada conhece esse itinerário de cor. Ao lado de Paul, submete-se a sucessivas tentativas de reprodução assistida até que a doação de um embrião lhes permita ter o filho pelo qual ambos haviam reorganizado a vida. “Sem Nada a Perder” abre espaço para essa espera extenuante antes de avançar alguns anos e encontrar o casal separado, com Jada assumindo quase sozinha a rotina do menino. A leucemia chega sem preparação dramática, como chegam os diagnósticos graves, condensada em exames, palavras incompreensíveis e no rosto de uma mãe que procura no médico alguma frase capaz de desmentir o prontuário. Nawell Madani e Ludovic Colbeau-Justin sabem que essa primeira parte dispensa adornos: o corredor da oncologia pediátrica, o suporte de soro e a criança deitada já contêm todo o horror necessário.

Jada trabalha como treinadora de boxe, escolha que o roteiro de Madani aproveita com uma ironia áspera. Ela ensina outras pessoas a manter a guarda alta, calcular a distância do adversário, absorver o golpe e contra-atacar, porém nada do que aprendeu serve diante de uma doença que avança dentro do sangue do filho. Madani compõe a personagem acumulando cansaço no corpo: os ombros pesam, a voz fica mais cortante, o olhar demora um segundo a mais sobre enfermeiros e médicos, como se ela avaliasse qual deles ainda pode oferecer alguma saída. Guillaume Gouix livra Paul do papel fácil do companheiro omisso. Ele também está quebrado, apenas se quebra de outro jeito, recolhendo-se quando Jada passa a ocupar todos os espaços com sua aflição. Paul Fouré, por sua vez, preserva no menino uma fragilidade sem afetação; basta vê-lo imóvel sob os tubos para que a eloquência adulta pareça indecorosa.

A fúria como último recurso

Os protocolos deixam de responder, e o transplante de medula surge como a última possibilidade concreta. A origem embrionária da criança torna a procura por um doador compatível uma peregrinação por arquivos protegidos, regras médicas, recusas institucionais e uma família biológica que não estava preparada para receber uma mulher em estado de guerra. É nessa passagem que “Sem Nada a Perder” começa a perder o domínio sobre a própria matéria. Jada enfrenta médicos, polícia, parentes de um possível doador e jornalistas, até converter o hospital numa situação de reféns. A mudança chega depressa demais. A mulher que vinha sendo corroída por semanas de impotência poderia alcançar esse ponto; o roteiro, contudo, salta etapas importantes e exige que a audiência aceite de imediato uma operação que mobiliza agentes armados, câmeras de televisão e decisões clínicas sob coação. A dor continua legítima, a engrenagem passa a ranger.

Madani segura o filme quando os acontecimentos ao redor de Jada começam a obedecer à conveniência do desfecho. Sua interpretação evita transformar a protagonista numa santa maternal. Jada ameaça, humilha, pressiona e usa a exposição pública do filho como arma; em certos momentos, torna-se difícil permanecer ao lado dela, e essa resistência é valiosa. A atriz acerta sobretudo quando se cala, sentada junto à cama, observando o menino dormir sob a luz impessoal do quarto. Ali está a mulher que queria tanto um filho que nunca chegou a imaginar a possibilidade de ter de devolvê-lo ao acaso. Quando a polícia invade o espaço e a ação acelera, Madani conserva esse medo original sob a fúria, mesmo que a encenação prefira sirenes, armas apontadas e discursos inflamados.

Nawell Madani mantém o filme de pé

A denúncia sobre a escassez de doadores, a lentidão dos procedimentos e o pouco dinheiro destinado à pesquisa do câncer infantil aparece com maior força nas cenas em que Jada espera uma resposta diante de uma porta fechada. Nas sequências em que o texto explica sua causa para as câmeras, a indignação adquire a rigidez de uma campanha institucional. Ainda assim, “Sem Nada a Perder” guarda momentos de genuíno desconforto e uma protagonista que não pede licença para ultrapassar qualquer limite. Jada chega ao último round respirando com dificuldade, o rosto marcado e os punhos ainda erguidos; o filme permanece de pé graças a Nawell Madani, mesmo depois de o roteiro começar a golpeá-lo pelas costas.


Filme: Sem Nada a Perder
Diretor: Nawell Madani e Ludovic Colbeau-Justin
Ano: 2026
Gênero: Ação/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também