No verão de 1957, em Modena, na Itália, Enzo Ferrari (Adam Driver) tenta salvar a fábrica que fundou com a esposa, Laura Ferrari (Penélope Cruz), enquanto enfrenta dívidas, uma crise conjugal e o peso de uma vida familiar mantida em segredo. Diante da possibilidade de falência, ele aposta o futuro da empresa na Mille Miglia, corrida de mil milhas pelas estradas italianas. Dirigido por Michael Mann, “Ferrari” acompanha alguns dos meses mais turbulentos da vida do empresário e ex-piloto, quando prestígio, dinheiro e sobrevivência passam a depender da mesma linha de chegada.
Enzo Ferrari construiu um sobrenome que se tornou sinônimo de velocidade, luxo e competição. Em 1957, porém, a fama da marca já não bastava para manter as contas em ordem. A produção de carros de rua rendia menos do que a empresa precisava, enquanto a equipe de corrida consumia dinheiro em ritmo acelerado. O empresário sabia que precisava vender mais automóveis, buscar novos parceiros e recuperar a confiança do mercado.
A situação financeira piorava justamente quando Enzo ainda tentava se recuperar da morte do filho Dino, ocorrida no ano anterior. A perda havia deixado o casamento em ruínas. Laura, além de esposa, era sócia da fábrica e conhecia os números, os contratos e os riscos assumidos pelo marido. Ela não aceitava ser tratada como alguém alheio aos negócios, muito menos como uma presença decorativa na história da empresa.
Penélope Cruz transforma Laura em uma mulher ferida, inteligente e atenta. Ela sabe que o patrimônio dos Ferrari foi construído pelos dois, embora Enzo circule pela fábrica com a autoridade de quem prefere esquecer essa parceria. Quando Laura exige acesso às contas e cobra decisões sobre o futuro da companhia, não está apenas defendendo dinheiro. Ela tenta preservar o lugar que conquistou dentro de uma vida que o marido passou anos dividindo em compartimentos.
Duas famílias no mesmo caminho
Longe da casa oficial, Enzo mantém um relacionamento com Lina Lardi (Shailene Woodley), com quem teve o filho Piero (Giuseppe Festinese). O menino cresce sem poder usar publicamente o sobrenome do pai, pois a legislação italiana da época dificultava o reconhecimento enquanto Laura estivesse viva. Enzo promete resolver a situação, mas adia qualquer decisão que possa expor a família paralela.
Essa parte do enredo ajuda a mostrar por que Enzo parece sempre ocupado, mesmo quando permanece calado. Ele administra uma empresa endividada, uma equipe de pilotos, um casamento desfeito pelo luto e uma segunda família que deseja reconhecimento. Adam Driver interpreta o personagem com uma postura contida, quase sempre calculada. Enzo fala pouco, guarda informações e tenta controlar o ambiente, embora suas escolhas pessoais já tenham escapado de qualquer controle.
Lina procura oferecer estabilidade ao filho e cobra uma definição sobre o futuro. Laura, por sua vez, percebe que há peças da vida do marido mantidas fora de seu alcance. Enzo não consegue atender plenamente nenhuma das duas. A fábrica exige dinheiro, Laura exige participação e Lina exige reconhecimento para Piero. Ele possui carros capazes de cruzar a Itália em alta velocidade, mas demora uma eternidade para resolver a própria vida doméstica.
A corrida que pode salvar a marca
A Mille Miglia surge como a grande aposta de Enzo para manter a Ferrari competitiva. A prova atravessava cidades e estradas italianas em um percurso longo, perigoso e cercado pelo público. Uma vitória poderia fortalecer a imagem da marca, aumentar as vendas e atrair o capital necessário para impedir o fechamento da empresa.
A preparação envolve pilotos experientes, mecânicos, engenheiros e decisões que não admitem descuido. Entre os competidores escolhidos pela Ferrari estão Piero Taruffi (Patrick Dempsey), Alfonso de Portago (Gabriel Leone), Peter Collins (Jack O’Connell) e Eugenio Castellotti (Marino Franchitti). Cada piloto assume um carro, uma rota e um risco que os dirigentes conhecem muito bem.
Michael Mann dedica atenção às reuniões da equipe, aos testes e aos instantes que antecedem a largada. A velocidade ganha importância porque o filme também mostra tudo o que depende dela. A empresa precisa de prestígio, os pilotos desejam vencer e Enzo busca uma saída financeira. A corrida deixa de ser um espetáculo isolado e passa a representar o prazo mais urgente daquele verão.
O diretor não transforma as pistas em uma sequência contínua de euforia. Há ruído, tensão e perigo. Os carros atravessam estradas estreitas, passam perto das pessoas e revelam uma época em que o automobilismo aceitava riscos que hoje seriam impensáveis. Mann mantém o espectador próximo das máquinas, mas não esconde a fragilidade de quem está dentro delas.
Laura assume o controle
Enquanto Enzo cuida da equipe, Laura ganha acesso a informações capazes de interferir no destino da empresa. Ela sabe que o marido precisa de sua assinatura para avançar em decisões importantes. Essa posição lhe oferece uma forma de cobrar respostas sobre o casamento, o patrimônio e os segredos mantidos durante anos.
As melhores cenas de “Ferrari” surgem dessa relação. Laura e Enzo dividem uma história marcada por trabalho, ambição, infidelidade e pela dor de perder um filho. Eles podem estar separados emocionalmente, mas permanecem ligados pela fábrica e pelo dinheiro investido nela. Nenhum dos dois consegue simplesmente fechar a porta e seguir a vida.
Penélope Cruz dá força a uma personagem que poderia ter sido apresentada apenas como esposa ressentida. Laura participa das decisões, conhece o valor de sua assinatura e sabe quando impedir o marido de avançar. O casamento virou uma espécie de reunião empresarial permanente, só que com mágoas antigas espalhadas pela mesa.
Adam Driver interpreta Enzo sem tentar torná-lo especialmente simpático. Ele pode ser frio, autoritário e evasivo. Também demonstra disciplina e uma dedicação quase obsessiva à Ferrari. Essa combinação mantém o personagem distante de uma homenagem confortável. Enzo quer salvar a empresa, mas suas decisões deixaram pessoas feridas pelo caminho.
Um drama maior que os carros
“Ferrari” não acompanha toda a vida do empresário. O roteiro concentra a história em um período específico, quando os problemas profissionais e familiares se acumulam. Essa escolha dá ao filme um senso de urgência. Enzo não possui anos para corrigir os erros. Ele precisa conseguir dinheiro, preparar os carros e decidir o que fará com a família escondida.
Michael Mann aproxima a competição esportiva do drama doméstico sem transformar tudo em uma coleção de frases solenes. A técnica aparece ligada às escolhas dos personagens. O som dos motores interrompe conversas, a montagem alterna a fábrica e a casa, e a espera antes da corrida aumenta o peso das decisões que permanecem pendentes.
A obra também se beneficia da diferença entre seus três personagens centrais. Enzo protege a marca, Laura protege sua participação na história e Lina protege o futuro do filho. Cada um deseja algo concreto, mas nenhuma solução atende a todos. O dinheiro pode salvar a fábrica, porém não repara o casamento. O reconhecimento de Piero pode corrigir uma injustiça, embora abra uma ferida ainda maior dentro da família.
“Ferrari” mostra o homem por trás da marca sem pedir admiração automática. Enzo Ferrari aparece como empresário brilhante, chefe exigente e marido incapaz de oferecer honestidade às mulheres de sua vida. Ele aposta tudo na Mille Miglia porque vencer pode garantir dinheiro, prestígio e tempo. Fora das pistas, porém, não existe troféu capaz de resolver o que ele adiou durante tantos anos.

