Afrontando a lógica, o racional quase nunca se nos mostra tão instigante quanto poderia, não nos encanta, não consegue, enfim, cavar espaço num cérebro feito de labirintos, que se bifurca, se afunila e dá margem a pensamentos que escapam a qualquer noção de ordem. Ponderação esta feita, bom mesmo seria se a vida obedecesse a uma escala invariavelmente harmoniosa, como os pequeninos cenários de ferromodelismo que nos deliciavam em crianças. O quarto cheio de brinquedos espalhados de um filho que não voltará talvez seja a imagem mais pungente de quão ardilosamente cruel pode ser o fado, e é vista de modo furtivo e arrasador a certa altura de “Uma Manhã de Cada Vez”. Leland Orser estreia como diretor de uma narrativa de fôlego desdobrando o curta de mesmo nome lançado três anos antes, e vai encaixando novas ideias por meio de diálogos incômodos, mas nunca gratuitos.
Reconstrução possível
O texto de Orser repisa a morte prematura e brutal do garoto mirando Alice, a mãe, e Mark Munroe, o pai a que ele mesmo dá vida, e conferindo ênfase à debacle de cada um, equivalente, mas plena de idiossincrasias. Enquanto Mark permanece na suntuosa casa em que morava com a família, esvaziando pacotes de cereal e latas de macarrão vestindo só uma cueca e observado de longe pela faxineira idosa que cruza a cidade para ir até o imóvel — respiro cômico esdrúxulo, mas certeiro —, Alice instala-se num hotel de quinta, bebendo mais que o aconselhável e sem pregar os olhos, até que decide ver um médico, erra o andar do consultório e descobre o remédio para seu mal. Jeanne Tripplehorn rouba a cena e atrai para si os olhares e a torcida do público, e não por acaso a personagem tem direito a sua redenção.

