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O velho voltou à praia com pouco mais que um espinhaço. Preso ao lado do barco, o peixe gigantesco que Santiago arrastara pelo mar tinha sido devorado pelos tubarões, restando dele uma armação branca, suficiente para que os outros pescadores soubessem o tamanho da vitória e da derrota. É difícil imaginar imagem mais adequada para Ernest Hemingway, morto há 65 anos, em 2 de julho de 1961, numa casa em Ketchum, Idaho, com um tiro de espingarda.

A lenda pública de Hemingway

Hemingway foi motorista de ambulância na Primeira Guerra, correspondente na Guerra Civil Espanhola, morador de Paris, Key West e Cuba, aficionado por touradas, pescador de marlim, caçador na África, habitué de bares, marido de quatro mulheres, sobrevivente de acidentes aéreos, vencedor do Pulitzer por “O Velho e o Mar” e do Nobel de Literatura em 1954. Deu a si mesmo, com a colaboração entusiasmada de fotógrafos, jornalistas, editores e leitores, o papel implícito de último homem inteiro do Ocidente. Seus melhores personagens desmentem essa lenda. Jake Barnes é um ferido; Frederic Henry, um desertor sem consolo; Santiago, um velho que volta do mar com pouco mais que ossos.

Poucas invenções literárias do século 20 foram tão influentes e tão mal compreendidas quanto a secura de Hemingway. Dizer que ele escrevia curto equivale a dizer que Pelé jogava de chuteira. Verdade, sem dúvida, mas quase uma forma de desconversar. Nos contos de “No Nosso Tempo”, “Homens sem Mulheres” e “O Vencedor Não Leva Nada”, a prosa avança sem levantar a voz. Uma mulher e um homem conversam numa estação de trem em “Colinas como elefantes brancos”, e a palavra central da história não aparece. Dois assassinos entram numa lanchonete em “Os assassinos”; o crime ainda não aconteceu, mas a ameaça já tomou conta do lugar. Em “Um lugar limpo e bem iluminado”, basta um velho bebendo tarde da noite para que o nada se sente à mesa.

A famosa teoria do iceberg, tão repetida em oficinas literárias quanto mal-usada por escritores, nasce daí. Hemingway dizia que uma narrativa podia omitir tudo que o escritor soubesse de verdade; o omitido continuaria sustentando a superfície.

Do jornalismo à guerra italiana

Antes de virar monumento americano, ele foi um rapaz de Oak Park, subúrbio de Chicago, filho de médico e de uma mãe religiosa, lançado cedo na escola do jornalismo. O “Kansas City Star” costuma aparecer na biografia de Hemingway como escola de clareza, sem enfeite e com informação no osso. Do jornalismo, ele levou o gosto pela cena concreta. Nos melhores livros, essa cena já chega rachada por baixo.

A guerra italiana entrou cedo na obra. Ferido em 1918, condecorado, hospitalizado e apaixonado por uma enfermeira mais velha, Hemingway voltaria anos depois a essa experiência em “Adeus às Armas”, romance de amor e deserção com momentos fortes e sentimentalismo demais. Frederic Henry deserta depois da retirada de Caporetto e tenta salvar, fora da guerra, alguma coisa que a guerra já alcançou. No fim, Catherine morre, ele deixa o hospital e volta sozinho para o hotel debaixo de chuva.

Paris, Espanha e os anos finais

Nos anos 1920, Paris lhe deu companhia e uma vitrine perfeita. Gertrude Stein, Ezra Pound, James Joyce, F. Scott Fitzgerald, cafés, dívidas, bebedeiras, aquele museu de juventude que “Paris É uma Festa” transformaria mais tarde numa lembrança ao mesmo tempo encantadora e desleal. “O Sol Também Se Levanta”, publicado em 1926, é o grande romance dessa ressaca. Jake Barnes, ferido de modo íntimo na guerra, ama Brett Ashley, que circula entre homens como se a liberdade também pudesse ser uma prisão com bons drinques. Vão a Pamplona, bebem, pescam, assistem a touradas. A Geração Perdida ganhou ali sua fotografia oficial, com bares, touradas, gente rica ou quase rica circulando como se a ressaca fosse uma forma de destino.

Fitzgerald, seu amigo e rival, pôs a ruína americana em mansões, festas e contas que alguém teria de pagar depois. Hemingway a encontrou no bar, na guerra e no quarto de hospital. Faulkner, seu outro grande contraponto, ergueu labirintos verbais para dar conta da culpa histórica do Sul. Hemingway aparou a linguagem até ela ficar parecida com um utensílio.

A Espanha foi sua paixão mais vistosa e sua zona mais perigosa. Em “Morte ao Entardecer”, livro sobre touradas que hoje exige do leitor uma boa dose de paciência moral, Hemingway transforma o toureiro em artista da precisão diante da morte.

A Guerra Civil Espanhola lhe deu “Por Quem os Sinos Dobram”, seu romance mais ambicioso e talvez o mais irregular entre os grandes. Robert Jordan, americano ao lado dos republicanos, recebe a missão de explodir uma ponte. Na montanha, cercado por guerrilheiros desconfiados, ele espera a hora certa. Hemingway chega perto da epopeia e tropeça. Os discursos da causa republicana pesam. A ponte, a espera e os homens armados se medindo antes da explosão dão ao romance suas melhores páginas.

Com as mulheres, Hemingway envelheceu mal em pontos importantes. Catherine Barkley, em “Adeus às Armas”, ama com uma disponibilidade que o romance trata quase como destino. Maria, em “Por Quem os Sinos Dobram”, passa páginas demais servindo de abrigo amoroso para Robert Jordan. Brett Ashley escapa melhor. Circula entre homens que desejam possuí-la, consolá-la ou entendê-la, e continua fora do alcance deles.

Depois de Hemingway, muita gente confundiu contenção com mudez. Bastava cortar adjetivos, colocar dois homens num bar, pedir uísque e deixar uma ferida sem nome pairando no balcão. O próprio Hemingway ajudou no mal-entendido. O apelido de Papa, as brigas públicas, a competição com os pares, as bravatas de caçador, pescador e correspondente de guerra empurravam a leitura para o homem antes do texto. Seus imitadores ficaram com o cartaz. Os melhores livros continuaram trabalhando contra ele.

Nos anos finais, a lenda começou a ranger. “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores”, de 1950, foi recebido como prova de decadência literária, e não sem motivo. O coronel velho apaixonado por uma jovem em Veneza muitas vezes soa como um Hemingway cansado demais para desconfiar do próprio charme. Dois anos depois veio “O Velho e o Mar”. Santiago passa 84 dias sem pescar nada, fisga um marlim enorme, vê os tubarões reduzirem sua vitória a ossos e volta para casa exausto. A limpidez ajudou a consagração e facilitou a domesticação escolar do livro, com suas lições prontas de perseverança. Mas o romance curto resiste quando fica perto do trabalho, da mão ferida na linha, do cálculo do pescador, do orgulho ridículo e necessário, do peixe desaparecendo pedaço a pedaço no caminho de volta.

O Pulitzer veio em 1953. O Nobel, em 1954. No mesmo ano, dois acidentes aéreos na África ajudaram a quebrar o corpo que a lenda ainda vendia como invulnerável. Vieram as dores, o álcool em escala industrial, a depressão. A paranoia também encontrou algum combustível fora da cabeça dele. O FBI manteve um arquivo sobre Hemingway.

No Brasil, Hemingway sobrevive principalmente como autor de “O Velho e o Mar”, “Por Quem os Sinos Dobram”, “Adeus às Armas”, “Paris É uma Festa” e dos contos, embora estes talvez circulem menos do que deveriam. É uma distorção compreensível. O romance curto do velho pescador entra fácil nas listas escolares. Paris entra fácil no imaginário de quem ainda sonha com literatura em cafés. Os contos, mais severos, exigem outro tipo de atenção. Neles está o escritor mais difícil de transformar em souvenir.

A espingarda em Ketchum dá ao mito um fecho brutal demais. Fiquemos com Santiago, os leões sonhados na praia e o peixe reduzido a ossos. Hemingway passou a vida atrás do troféu inteiro. Seus melhores livros ficaram com a carcaça.

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