Ninguém se livra da própria infância apenas mudando de cidade, de roupa, de sotaque, de cama. A religião pode ser abandonada na primeira esquina; a família, reduzida a cartas que não se respondem; o pai, convertido numa caricatura sombria, autoritária, quase bíblica. Ainda assim, alguma coisa permanece ali, escondida no bolso do paletó, como o relógio que Peter Sidenius se recusa a aceitar. “Um Homem de Sorte”, drama histórico dinamarquês dirigido por Bille August em 2018, escrito por ele com Anders Frithiof August e baseado no romance “Lykke-Per”, de Henrik Pontoppidan, acompanha por 168 minutos a lenta desmontagem de um sujeito que confunde emancipação com triunfo e triunfo com vingança.
Peter, vivido por Esben Smed com uma mistura bastante eficiente de insolência, inteligência e desamparo, sai da Jutlândia como quem escapa de um cárcere doméstico. Filho de um pastor severo, criado sob a sombra de um cristianismo rígido, ele chega a Copenhague disposto a virar engenheiro, reformar o país e provar a todos — principalmente ao pai, ainda que jamais admita isso sem se trair — que nasceu para muito mais que os sermões, os relógios herdados e a mediocridade piedosa dos Sidenius. Bille August filma essa chegada à capital com a solenidade de quem sabe estar lidando com um romance de formação, desses em que o protagonista precisa atravessar salões, bibliotecas, quartos alugados, mesas fartas e humilhações miúdas até descobrir que o mundo moderno também cobra dízimo.
Bille August e a engenharia da queda
A grande ideia de Peter é um projeto de aproveitamento de vento, ondas e energia hidráulica, uma engenharia visionária o bastante para que seus professores o tratem como um lunático arrogante, o que ele é apenas em parte. O jovem pobre, ambicioso, estudioso e mal-educado conhece Ivan Salomon, de Benjamin Kitter, herdeiro de uma família judaica de banqueiros, e esse encontro desloca o filme para sua porção mais viva. Ivan vê naquele provinciano de olhos duros uma espécie de gênio bruto, um diamante com lama nas bordas, e o leva para dentro de um universo em que dinheiro, cultura, cosmopolitismo e liberdade intelectual caminham por corredores iluminados. A família Salomon abre a Peter uma porta que ele sempre imaginou merecer, só que merecimento, nesses ambientes, nunca dispensa etiqueta.
É nesse núcleo que “Um Homem de Sorte” encontra sua figura mais poderosa. Jakobe Salomon, interpretada por Katrine Greis-Rosenthal, não é um ornamento romântico colado à ascensão do engenheiro; ela é a mulher que enxerga Peter antes que ele próprio saiba o que fazer consigo. Prometida a Eybert, homem de posição mais segura e temperamento mais ajustado àquele mundo, Jakobe se apaixona pelo intruso porque reconhece nele uma energia rara, uma fome de vida que a aristocracia financeira já não consegue produzir. Greis-Rosenthal dá à personagem uma contenção magnífica: Jakobe raramente explode, raramente implora, raramente perde a compostura, e justamente por isso cada olhar seu para Peter parece carregar uma pergunta que o filme inteiro tenta responder. O que se ama num homem quando a mesma força que o distingue pode destruí-lo?
August, veterano de prestígio internacional e duas vezes vencedor da Palma de Ouro segundo o Danish Film Institute, conduz esse material com apuro clássico, sem pressa de transformar Pontoppidan em folhetim acelerado para plateias impacientes. A fotografia de Dirk Brüel, os figurinos, os interiores burgueses e os exteriores da Jutlândia não servem apenas para embelezar a reconstituição de época; eles demarcam territórios morais. Copenhague aparece como promessa de futuro, com seus gabinetes, jantares, debates e negócios. A casa dos Sidenius, por sua vez, pesa como uma sentença. Entre uma e outra, Peter tenta fazer do próprio talento uma locomotiva, só que insiste em alimentar a máquina com ressentimento.
A relação com Jakobe poderia bastar a muitos filmes, e seria até confortável que “Um Homem de Sorte” se acomodasse na história de amor impossível entre o cristão renegado e a judia culta, entre o engenheiro pobre e a filha dos banqueiros. August prefere seguir o veneno até o fim. Quando Peter viaja para aprimorar seus estudos, quando recebe a notícia da doença do pai, quando ignora o funeral, quando a mãe viúva surge em Copenhague pedindo que ele volte a Cristo e lhe entrega, outra vez, o relógio paterno, o filme deixa claro que a verdadeira disputa nunca foi entre tradição e modernidade. A disputa se trava entre Peter e uma imagem de si mesmo que ele não suporta. O problema do protagonista não está em abandonar Deus, e sim em continuar organizando cada gesto como se o pai ainda estivesse na sala, pronto para condená-lo.
Jakobe, Peter e o preço da soberba
Essa é a parte mais cruel do longa, porque Peter perde tudo quase sempre quando está a um passo de vencer. Os estudiosos austríacos aprovam seus planos, os Salomon se preparam para financiá-lo, Jakobe já imagina casamento e uma viagem à Inglaterra, e então basta uma reunião, um acesso de orgulho, uma recusa em pedir desculpas ao ministro, para que o castelo desmorone. A cena funciona porque August não a trata como capricho de roteiro. Peter vem sendo preparado para esse fracasso desde o início. Ele não sabe negociar sem se sentir humilhado, não sabe amar sem suspeitar de rendição, não sabe aceitar ajuda sem convertê-la em prova de inferioridade. Smed entende essa torpeza íntima e faz de Peter um personagem irritante na medida certa, desses que despertam compaixão justamente quando já esgotaram a paciência de todos.
O retorno à Jutlândia, a aproximação de Inger, filha do vigário, e o rompimento com Jakobe deslocam o filme para uma zona mais árida. Peter, que queria eletrificar a Dinamarca, termina cercado pela paisagem que renegara, casado, pai de três filhos, cada vez mais alheio à casa e à esposa. Jakobe, devastada pela ruptura e por uma gravidez que ele nunca chega a conhecer, transforma sua dor em gesto concreto: abre uma escola beneficente para crianças abandonadas e órfãs em Copenhague. Eis a grande ironia moral do filme, e August a percebe com nitidez. A mulher rejeitada pelo homem que queria mudar o país acaba realizando, em escala menor e mais honesta, aquilo que nele era apenas projeto grandioso. Peter sonhava com canais, moinhos e eletricidade; Jakobe constrói abrigo para gente viva.
“Um Homem de Sorte” perde alguma força quando se aproxima do desfecho e precisa condensar numa sucessão de recolhimentos, cartas, doença e despedida o que no romance de Pontoppidan se espalha por uma arquitetura muito mais vasta. Ainda assim, August conserva o essencial: Peter não é punido por falta de talento, nem por ousar abandonar a fé do pai, nem por amar uma mulher de outra tradição. Ele se perde porque nunca consegue distinguir liberdade de isolamento. Quando chama Jakobe pela última vez e deixa sua herança modesta para a escola, o gesto não o absolve, apenas o devolve a uma medida humana que ele sempre desprezara.
Na cena final, à beira do mar, Peter retorna ao lugar onde um dia celebrara a admissão na universidade. A imagem fecha o círculo sem adoçar sua ruína. A sorte, afinal, esteve muitas vezes a seu favor: Ivan o acolheu, Jakobe o amou, os investidores o ouviram, a modernidade lhe abriu passagem. Faltou-lhe a única grandeza que nenhum diploma concede e nenhum banqueiro financia. Peter Sidenius teve o futuro nas mãos e passou a vida inteira apertando o relógio morto do pai.

