Na noite em que Tancredo Neves foi eleito presidente sem voto direto, Cazuza estava no Rock in Rio cantando que o dia ia nascer feliz. O verso era bom porque não precisava se cumprir. Canção popular não é programa de governo, embora o Brasil às vezes finja não saber disso. Poucos meses depois Tancredo estava morto, José Sarney subia a rampa por desvio histórico, a Nova República já nascia com cara de acerto mal explicado e o Brasil, esse velho especialista em desmentir refrões, começava a provar que a felicidade democrática podia ser adiada por tempo indeterminado.
Ali havia um rapaz de 26 anos, vocalista de uma banda carioca que ainda cheirava a garagem e boca miúda, berrando para uma multidão uma alegria em que o país topou acreditar por alguns minutos. O rock brasileiro dos anos 1980 descobria o tamanho do próprio público, e Cazuza descobria que uma canção de banda, na hora certa, podia escapar do palco e sair mentindo por conta própria.
O rock descobre a fossa
A rigor, Cazuza não era o melhor músico de sua turma, nem o letrista mais disciplinado. Também não foi exatamente o inventor de nada. A Blitz já fazia do rock uma festa carioca com algum teatro e bastante deboche; os Paralamas logo abririam a janela para reggae, ska e rádio popular; os Titãs dariam ao gênero uma pancada mais seca, mais cerebral; Renato Russo faria da canção juvenil um confessionário. Cazuza vinha de outro lugar. Levou a fossa para a guitarra. Ou, dizendo de modo menos limpo, enfiou Lupicínio Rodrigues, Dolores Duran e Maysa num amplificador de rock.
A expressão “poeta do rock”, embora inevitável, atrapalha mais do que ajuda. Deixa Cazuza parecendo um sujeito de livro, arrumado numa prateleira que nunca foi muito dele. Algumas letras resistem ali, em silêncio; outras precisam da voz, do deboche, da plateia, da melodia segurando o tranco. O destino de muitos de seus melhores versos não era a página. Era o microfone.
O garoto da Som Livre
O menino se chamava Agenor de Miranda Araújo Neto — nome que faz lembrar outro mito brasileiro, Angenor de Oliveira, o Cartola. Nome, no entanto, que parecia ter sido inventado para ser abandonado. Cazuza, apelido de infância, vinha com a vantagem de soar ao mesmo tempo íntimo e insolente. Filho de João Araújo, executivo da Som Livre, e de Lucinha Araújo, cresceu dentro da indústria musical, sem muita inocência nem complacência diante dela. Essa verdade sempre produziu duas leituras preguiçosas. Na primeira, Cazuza é o príncipe rebelde brincando de maldito com rede de proteção. Na segunda, sua origem de classe anularia suas indignações, como se alguém só pudesse xingar a burguesia depois de apresentar comprovante de pobreza.
Há um pouco de verdade nas duas leituras, e é aí que elas emperram. Cazuza não olhava a burguesia da calçada. Tinha pai na Som Livre, nome conhecido, entrada no camarim, mesa posta. Sabia do que estava falando — e de onde falava. Quando xingou a burguesia, xingou também o conforto que o tinha criado. A raiva, nele, vinha misturada com privilégio, culpa e nojo.
Antes do Barão Vermelho houve empregos em gravadora, uma viagem aos Estados Unidos, curso de fotografia, teatro, poemas mimeografados. Cazuza foi um cantor-ator sem personagem fixo. Às vezes abandonado, às vezes canalha sentimental, às vezes doente que se recusava a sair de cena. Ele não subia ao palco para interpretar uma canção. Subia para brigar com ela.
Quando Léo Jaime o apresentou ao Barão Vermelho, em 1981, Cazuza encontrou Frejat. Convém lembrar o óbvio, porque o mito gosta de trabalhar sozinho. Frejat deu música àquela voz. Riff, estrutura, refrão. “Todo amor que houver nessa vida”, “Pro dia nascer feliz”, “Bete balanço”, “Maior abandonado”, “Por que a gente é assim?” não caíram prontas do rosto de Cazuza no palco. Vieram da parceria.
Os dois primeiros discos do Barão Vermelho ainda parecem ensaio aberto, com a banda tateando entre o blues que admirava e o Brasil que tinha na porta. Cazuza já aparece ali, claro, mas o estouro vem mesmo com “Maior Abandonado”, em 1984. “Bete balanço” põe uma garota na estrada e deixa o resto por conta do vento. “Maior abandonado” fica no quarto, olhando a própria ferida com uma espécie de orgulho vagabundo.
A saída do Barão, em 1985, foi inevitável. A banda estava grande, mas Cazuza já era maior que ela. Às vezes isso acontece por vaidade, às vezes por gravidade. No caso dele, pelas duas coisas. O primeiro disco solo, “Exagerado”, não é dos mais bem acabados. Tem altos, baixos, arranjos que envelheceram mal. Mas tem “Exagerado” e “Codinome beija-flor”. Às vezes duas canções bastam para justificar um disco.
“Só Se For a Dois”, de 1987, costuma ser tratado como disco de passagem. Ali Cazuza começa a se afastar do roqueiro de banda para se aproximar de um cantor de fossa urbana, menos garagem, mais quarto e copo. O problema é que a sofisticação às vezes amacia demais aquilo que costumava ranger. Cazuza estava procurando uma forma menos óbvia para o próprio drama.
A ressaca de “Ideologia”
A pancada vem com “Ideologia”, em 1988. É o disco que sustenta sua reputação adulta e aquele em que a biografia começa a cercar a obra com apetite de abutre. Cazuza já sabia que estava infectado pelo HIV. O Brasil logo saberia também. O caminho mais fácil seria transformar cada faixa do álbum em bilhete de despedida. “Ideologia” é mais forte porque não fala apenas de um homem doente. Fala de uma geração que descobria, com atraso mínimo e estrago máximo, que tinha trocado a fantasia pela ressaca. O garoto que queria mudar o mundo agora queria uma ideologia para viver. Quem cresceu prometendo revolução e recebeu hiperinflação, fisiologismo e propaganda de margarina sabe alguma coisa sobre isso.
“Brasil”, parceria com George Israel e Nilo Romero, talvez seja seu golpe público mais certeiro. Não é uma tese sobre o país. É uma interpelação. Um filho malcriado exige que a família mostre a cara. O detalhe decisivo é que ele não fala de fora da sujeira. Cazuza não é o cidadão puro diante da nação corrompida. É parte do baile, e talvez por isso cante com tanta raiva. O risco, claro, é virar indignação genérica, dessas que servem tanto para quem quer mais democracia quanto para quem quer menos.
No mesmo disco, “Faz parte do meu show”, parceria com Renato Ladeira, encontra um Cazuza menos interessado no grito. A canção vem baixa, com a sedução já meio contaminada pelo controle. Ele canta amor, mas não exatamente entrega. Há sempre um gesto de cena, uma distância calculada. “Blues da piedade” vai para outro lado e tenta abraçar o mundo. Mas quando a compaixão fica limpa demais, Cazuza perde um pouco do veneno.
“O Tempo Não Para”, gravado ao vivo no Canecão em 1988, é outro bicho. A plateia sabia que via um homem doente; Cazuza sabia que ela sabia. O disco nasce desse desconforto. Dirigido por Ney Matogrosso, o show beira o teatro terminal, por mais antipática que seja a expressão. Cazuza não pede compaixão. Briga com ela.
A faixa-título virou hino de resistência, e hino costuma emburrecer quando todo mundo concorda com ele. “O tempo não para” não consola ninguém. Cazuza canta o futuro repetindo o passado, um museu de grandes novidades, e o verso continua no lugar porque o país ajudou. Mudam os figurinos. A reprise é quase a mesma.
Em 1989, a capa da “Veja” com Cazuza exposto como alguém que agonizava em praça pública entrou para a história da imprensa brasileira. Não bastava informar a doença, era preciso convertê-la em espetáculo moral, em lição sobre excesso e decadência. A Aids, naqueles anos, ainda vinha cercada por ignorância, medo, homofobia e uma satisfação mal disfarçada de certos setores diante da morte alheia. Cazuza, que fizera da própria aparição uma arma, perdia o controle da cena. A praça pública deixou de ser palco e virou pelourinho.
“Burguesia”, seu último disco lançado em vida, é irregular de um modo quase comovente. Álbum duplo, cheio de raiva, urgências, tiros certos e tiros no rodapé, parece obra de alguém que desconfia não ter mais tempo para esperar. Um editor cruel faria dele um disco melhor. Cazuza queria falar de corpo, morte, Deus, amor, gratidão, nojo, tudo, e falar logo. Há momentos em que grita mais do que canta e acusa mais do que pensa. Em outros, a pressa acerta onde o acabamento talvez errasse.
A morte veio em 7 de julho de 1990, aos 32 anos. A partir daí começou a segunda carreira de Cazuza, a póstuma. Vieram coletâneas, livros, musicais, filme, homenagens, inéditos, relançamentos, a memória administrada com zelo por Lucinha Araújo, a Sociedade Viva Cazuza, os tributos de artistas que o conheceram e de outros que já nasceram depois, mas seguiram o fluxo. Todo morto célebre vira território em disputa. Morto jovem, então, amplia a idolatria. Como não envelhece, passa a ser usado por todos os envelhecimentos dos outros.
O Cazuza que nos sobrou é maior e menor que o real. Maior porque sua vida ganhou a camada trágica que reorganiza tudo depois da morte. Menor porque o mito simplifica a obra. Fica o exagerado, o rebelde, o poeta, o símbolo da Aids. Tudo isso é verdade, e aí mora o problema. Verdades muito repetidas também mentem. O artista era mais dependente de parceiros, mais irregular, mais sentimental, mais brasileiro e mais interessante do que o boneco de culto deixa ver.
Sua obra falha quando confunde intensidade com profundidade. Falha quando a frase quer nascer histórica. Falha quando a indignação se satisfaz depressa demais e a fossa se satisfaz demais consigo mesma. Mas acerta quando o artifício, de tão sustentado, acaba virando verdade. Nos melhores momentos, Cazuza diz coisas simples que quase ninguém diria daquele jeito, em público, com tão pouca proteção. Amar é uma droga. O país é uma fraude íntima. A juventude acaba. O corpo cobra. A plateia quer sangue. O show continua.
Não venceu o tempo. Ninguém vence, e Cazuza provavelmente sabia disso melhor do que muito devoto tardio de seu refrão. Deixou algumas canções como copos lascados numa mesa de bar depois que todos foram embora. Alguém chega, anos depois, enche de novo, brinda a um amor ruim, a um Brasil pior, a uma alegria que talvez nunca tenha chegado inteira. E aquela voz volta, rouca, abusada, meio teatral, meio ferida, cantando como se a única resposta possível ao fim fosse aumentar o volume.

