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Famílias geniais são uma crueldade quando seus talentos aparecem cedo demais. Há uma alegria meio circense em ver crianças que compram imóveis, escrevem peças premiadas e vencem campeonatos nacionais antes que tenham idade para entender a própria melancolia; depois, quando a infância acaba, fica o saldo das fotografias, das manchetes, das medalhas, dos recortes de jornal e de uma exigência silenciosa para que a vida continue em estado de prodígio. “Os Excêntricos Tenenbaums”, lançado em 2001, dirigido por Wes Anderson e escrito por Anderson com Owen Wilson, nasce precisamente desse cemitério doméstico de promessas cumpridas cedo demais, com Gene Hackman, Anjelica Huston, Ben Stiller, Gwyneth Paltrow, Luke Wilson, Danny Glover, Bill Murray e Owen Wilson reunidos no mesmo álbum de família desbotado.

Royal Tenenbaum, o patriarca de Hackman, é um desses homens que transformam a própria desfaçatez em método de sobrevivência. Separado de Etheline, vivida por Anjelica Huston com uma serenidade que o filme nunca confunde com passividade, ele deixou para trás três filhos extraordinários e uma casa que parece mais organizada que todos os seus moradores. Chas, o menino das finanças, tornou-se um viúvo paranóico, correndo com os filhos pequenos em treinamentos de emergência como se pudesse adestrar o destino; Margot, dramaturga adotada e esfíngica, atravessa os cômodos de casaco de pele, cigarro escondido e uma tristeza sem pressa; Richie, ex-tenista de brilho nacional, ainda conserva a delicadeza dos derrotados que sabem exatamente onde começou a ruína. A volta de Royal, expulso do hotel em que vivia e disposto a fingir uma doença terminal para reconquistar um lugar na família, poderia render apenas uma farsa cínica. Anderson prefere outra coisa, menos confortável e mais saborosa: uma comédia sobre gente incapaz de crescer sem transformar cada cômodo da casa numa sala de espera.

Gene Hackman, o canalha irresistível da família

A entrada de Henry Sherman, o contador de Danny Glover que deseja casar-se com Etheline, dá ao filme um antagonista curioso, porque Henry não é antagonista de ninguém. É apenas um homem decente, o que num universo governado por Royal soa quase ofensivo. Glover interpreta Henry com uma compostura que incomoda porque não disputa a ribalta, não tenta vencer o velho vigarista no grito, não se oferece como solução milagrosa para aquela família estragada. Royal percebe isso, e Hackman faz do personagem uma mistura fulgurante de charme, insolência e velhacaria. Ele mente com a tranquilidade de quem já mentiu para todos antes, inclusive para si mesmo, e ainda assim preserva algo de irresistivelmente humano quando se aproxima dos netos Ari e Uzi, levando-os para pequenas contravenções urbanas, passeios irresponsáveis e experiências que horrorizariam qualquer pai minimamente funcional. Chas tem razão em detestá-lo. O espectador, nem sempre.

A grande astúcia de Anderson está em filmar essa gente como se cada personagem fosse o verbete de uma enciclopédia familiar escrita por um narrador ligeiramente perverso, papel que Alec Baldwin desempenha com a secura apropriada. A casa dos Tenenbaum tem quartos que parecem relicários, corredores que funcionam como passagens secretas entre fracassos antigos, paredes em que o tempo ficou preso a uma paleta de marrons, vermelhos, amarelos queimados e verdes de museu escolar. Robert D. Yeoman fotografa esse mundo com precisão de maquete, e a trilha de Mark Mothersbaugh, atravessada por canções escolhidas com aquele zelo quase neurótico de Anderson, ajuda a sustentar uma atmosfera em que o ridículo nunca expulsa a dor.

O perigo de um filme assim seria virar uma coleção de manias. E, de fato, há momentos em que Anderson se aproxima do próprio maneirismo com uma confiança perigosa, como se a simetria dos planos, os uniformes afetivos, os letreiros, os objetos catalogados e os gestos milimetricamente mortos pudessem substituir a carne viva dos personagens. A diferença é que em “Os Excêntricos Tenenbaums” a afetação ainda tem sangue circulando por baixo. Gwyneth Paltrow faz de Margot uma mulher que aprendeu a desaparecer chamando atenção, com olhos pesados, voz baixa e uma recusa tão firme ao esclarecimento que cada detalhe de sua biografia secreta parece um novo quarto fechado. Luke Wilson dá a Richie uma fragilidade que o filme trata com cuidado raro, especialmente quando a paixão por Margot deixa de ser uma extravagância de roteiro e se torna uma condenação íntima. Ben Stiller, quase sempre associado ao descontrole cômico, aparece contido, tenso, vestido de vermelho como um alarme ambulante, carregando no rosto o luto pela esposa e a certeza infantil de que a próxima tragédia já está a caminho.

Wes Anderson antes da grife virar armadilha

Owen Wilson, como Eli Cash, entra pelo lado mais pândego da história, esse vizinho que gostaria de ter nascido Tenenbaum e acaba como apêndice alucinado da família, autor de westerns delirantes, sujeito a arroubos químicos e frases de efeito que não encobrem sua indigência afetiva. Bill Murray, por sua vez, faz Raleigh St. Clair, o marido neurologista de Margot, quase como um móvel antigo de boa procedência, educado, paciente, traído e incapaz de perceber que sua casa já foi abandonada antes mesmo de ser deixada fisicamente. Anderson distribui esses coadjuvantes sem desperdiçá-los, porque entende que famílias não se compõem apenas de parentes; vivem também dos intrusos, dos agregados, dos pretendentes recusados, dos amigos que queriam ser filhos, dos criados que viram testemunhas e dos noivos tardios que chegam quando a tragédia já aprendeu a se comportar à mesa.

A sequência em que Richie se recolhe diante do espelho, muda o rosto e tenta dar fim ao próprio sofrimento é o ponto em que a arquitetura caprichosa do filme deixa de parecer brinquedo. Anderson não abandona a composição, não suja a imagem para provar gravidade, não apela a uma solenidade alheia ao seu temperamento. Ele deixa que o choque venha justamente da limpeza, da organização do banheiro, do gesto calculado, da canção entrando como uma lâmina fria. A partir dali, tudo o que havia de caricatura nos Tenenbaum ganha outro peso. Royal já não pode ser apenas o velho canalha que quer cama, comida e perdão; Chas já não pode ser só o pai neurótico; Margot já não pode ser apenas uma charada de franja; Richie deixa de ser o ex-atleta romântico para se tornar o filho que carregou sozinho uma ideia impossível de amor.

“Os Excêntricos Tenenbaums” permanece como um dos filmes mais completos de Wes Anderson porque ainda não transformara integralmente seu estilo numa religião de si mesmo. Há preciosismo, há cálculo, há aquele gosto por personagens que se vestem como se nunca tivessem superado uma fotografia de infância, porém há também Gene Hackman dobrando o filme a seu favor, Anjelica Huston impondo dignidade a uma casa cheia de impostores e um núcleo de filhos que parecem ter descoberto cedo a pior parte do sucesso. Royal não merece exatamente absolvição. O mérito do filme é fazer com que sua presença, cavilosa e luminosa, pareça necessária para que aquela família volte a respirar dentro do próprio mausoléu colorido.


Filme: Os Excêntricos Tenenbaums
Diretor: Wes Anderson
Ano: 2001
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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