Como a substância fundamental de quase todas as relações humanas, o amor se submete a metamorfoses para não desaparecer na bruma corrosiva do tempo. Conforme se ganha alguma intimidade com a vida, notamos que o maior prazer dessa entidade divina e diabólica que mantém-nos aqui por um tempo muito curto ou longo demais é nos submeter a seus caprichos, cujas justificativas pessoa alguma no mundo, sábia ou tola, não pode nunca alegar conhecer. As personagens de “Objetos Raros” estão a todo momento raspando na insanidade, não muito certas do quão distantes podem ter ficado da dimensão real do mundo porque anestesiadas pelas formas mais ordinárias de sofrimento. Katie Holmes divide-se entre dar vida a uma dessas figuras e o posto de diretora do filme, dando conta de ambas as funções e provando-se uma realizadora atenta e sensível, ávida por tramas que rejeitam o óbvio.
Viver sem tempos mortos
Saber que a morte é uma certeza pode ser o prenúncio do vale de destruição irrigado pelo mar das lágrimas que vertemos, umas tantas sem medidas, exageradas, mas a maior parte saídas com aquela dor que só em nós dói (e dói muito!). Sobranceiro, o destino confunde-nos quase sempre, ao passo que também esclarece suas obscuras intenções, o porquê de nos lançar em abismos tão fundos e tão habitados dos monstros que nós mesmos criamos. Aplicadamente, Holmes e o corroteirista Phaedon A. Papadopoulos usam o romance homônimo publicado por Kathleen Tessaro em 2016 como ponto de partida de um melodrama típico, que nem por isso deixa de ter toques de sofisticação e originalidade, quase sem querer. Holmes demora a entrar em cena e, enquanto esse momento não chega, divide os holofotes com Julia Mayorga. Benita Parla é uma mulher que tenta se refazer depois de uma vivência traumática, e vai trabalhar num antiquário do Queens, refúgio das tais raridades do título. Diana Van der Laar, a personagem de Holmes, passa como um furacão ou um meteoro, criatura celestial ou satânica, lembrando bastante o anjo Damiel eternizado por Bruno Ganz (1941-2019) em “Asas do Desejo” (1987), o clássico de Wim Wenders. A diretora-estrela elabora boas situações dramáticas e resolve-as com a poesia possível no terceiro de quatro longas, além de “Eternal Princess” (2015), curta sobre a ginasta romena Nadia Comăneci, sua estreia na direção. Que continue assim.

