A vida é um feérico espetáculo, interminável, com mais de mil palhaços, motociclistas do globo da morte, trapezistas, domadores de feras e mulheres barbadas no picadeiro. Assim é, se lhe parece: a vida tem as dimensões e a natureza que se lhe queiram dar, e é dessa forma que muita gente procede, tentando digerir a estranheza do que um dia julgou costumeiro. O inefável balanço das horas, dias, meses, anos faz com que nos vejamos ludibriados pela vida e pensemos que poderíamos fazer um acordo com o destino: daríamos a ele uns momentos de descanso, a fim de que pudéssemos desfrutar um pouco mais o que vivemos. Amizade, comunhão e aquela urgência de sentir-se fazendo parte de um mundo que ignora quem ousa não ser rico, belo e jovem preenchem os cem minutos de “Eu Vi o Brilho da TV”, iteração de pensamentos saborosamente obsessivos de Jane Schoenbrun acerca dos mal-estares pós-modernos, entre os quais a presença nos lares de uma caixa que torna ondas eletromagnéticas e vibrações digitais em impulsos elétricos. Ainda forte mesmo com as redes (anti)sociais.
Alienação e horror
Não há nada mais corriqueiro nos mais de 140 mil anos de truculência do homo sapiens sapiens, fervida e refervida nos caldeirões da ganância, do poder a todo custo e do ódio que a banalidade, uma batalha perdida que insistimos em travar com os fantasmas que habitam nossas profundezas mais inacessíveis. Schoenbrun se esforça para chegar lá, investigando a humana necessidade da dopamina nossa de cada dia, ao passo que vamos mais fundo no abismo da prostração. Owen é um garoto normal que tenta vencer o tédio com visitas não anunciadas a colegas como Maddy, a telespectadora mais fervorosa do “The Pink Opaque”, a principal atração do Young Adult Network. É difícil afirmar o que mais fascina Owen, se a dissimulação charmosa da moça, pouco mais velha, ou a sua fidelidade ao programa, e a diretora-roteirista trabalha esse falso dualismo hipnotizando o público com a fotografia em rosa néon de Eric Yue, clichê tão surrado quanto eficaz, bem como a opção por mostrar um anti-herói que parece odiar o tempo. Esse sentimento recrudesce com as atuações de Ian Foreman e Justice Smith, criança e homem feito, antenados na inadequação combatente do protagonista.

