Vampiros envelhecem mal quando se levam a sério demais. Em 1897, Bram Stoker ainda podia fazer de Drácula uma ameaça aristocrática, sensual, estrangeira, quase uma doença que atravessava o Canal da Mancha com modos de conde e fome de predador; um século depois, Hollywood já o havia transformado em boneco de ação, chefe de quadrilha, demônio de academia, executivo de boate, piada involuntária. “Blade: Trinity”, escrito e dirigido por David S. Goyer, chega justamente nesse ponto em que a mitologia parece ter sido espremida até a última gota, no terceiro longa da série baseada no personagem da Marvel criado por Marv Wolfman e Gene Colan. O resultado tem sangue, couro preto, dentes pontiagudos, música industrial, piadas disparadas como cápsulas vazias e um herói que atravessa 106 minutos com a disposição de quem já cumprira seu expediente no filme anterior.
Blade, o caçador de vampiros meio humano e meio vampiro vivido por Wesley Snipes, agora é encurralado por uma campanha de difamação armada por Danica Talos, a vampira de Parker Posey, uma vilã que parece ter saído de uma festa gótica em que todos se levaram menos a sério que o diretor. Os sugadores de sangue, cansados de apanhar do sujeito de sobretudo e óculos escuros, ressuscitam Drake, ou Drácula, interpretado por Dominic Purcell, com a esperança de que o pai da raça lhes devolva alguma vantagem evolutiva, inclusive a habilidade de caminhar sob o sol. A ideia é boa no papel, e talvez só no papel: dar a Blade um inimigo primordial, deslocar a guerra para um patamar mítico, transformar a perseguição policial em cerco público contra um justiceiro que sempre trabalhou nas frestas. Goyer, todavia, prefere trocar a solenidade sombria dos dois primeiros filmes por uma algazarra de HQ vitaminada, mais interessada em parecer descolada que em sustentar o peso do monstro que invoca.
O herói deslocado dentro da própria franquia
Wesley Snipes continua fisicamente impecável no papel, uma lâmina ambulante, compacto, seco, quase mineral. Seu Blade nunca foi um personagem de muitas palavras, e essa economia fazia sentido quando Stephen Norrington e Guillermo del Toro o cercavam de sujeira urbana, seitas vampíricas, laboratórios, raves sanguinolentas e um mundo subterrâneo que parecia pulsar por conta própria. Aqui, o silêncio do protagonista ganha outra natureza. Blade olha, rosna, corta, salta, desfere golpes com a precisão esperada, só que o filme passa a agir como se já não soubesse o que fazer com ele. A entrada dos Notívagos, grupo de caçadores humanos liderado por Abigail Whistler, a filha de Whistler vivida por Jessica Biel, e por Hannibal King, o tagarela de Ryan Reynolds, confirma a tentativa de abrir a franquia para outro eixo dramático, talvez até para um derivado, e o vampiro-diurno que dá nome ao negócio vai sendo empurrado para o centro de uma história que já não lhe pertence inteiramente.
Kris Kristofferson retorna como Whistler com a dignidade de quem entende que certos mentores existem para morrer muitas vezes, sempre de modo cada vez menos comovente. Sua relação com Blade ainda guarda algum resíduo de afeto bruto, essa parceria de pai substituto e filho condenado a não ter lar, porém “Trinity” logo prefere investir em Abigail, que caça ouvindo música nos fones, dispara flechas com pose de atleta de campanha publicitária e raramente parece sujar as mãos no mesmo lodo moral em que Blade sempre viveu. Jessica Biel se esforça, tem presença física, sustenta bem as cenas de ação, embora a personagem seja concebida como uma imagem antes de ser uma pessoa. Ryan Reynolds, por seu turno, já ensaia aqui o repertório que depois o tornaria Deadpool: fala sem parar, desmonta a gravidade das cenas, chama atenção para o ridículo das situações e muitas vezes parece atuar num filme mais esperto que o filme em volta dele. Em alguns momentos, salva a sequência do tédio; em outros, denuncia a pobreza do conjunto.
Quando Drácula vira chefão de fase
Parker Posey entende melhor o tom da empreitada. Sua Danica Talos é afetada, venenosa, quase caricatural, e por isso mesmo encontra um espaço que Dominic Purcell nunca alcança como Drácula. O Drake de Purcell deveria impor medo ancestral, carregar no corpo o início de uma praga, fazer Blade parecer pequeno diante do tronco original de todos os predadores que o perseguem. Falta-lhe majestade, falta-lhe ameaça, falta-lhe sobretudo estranheza. Quando o conde se transforma numa criatura digital pouco memorável, “Blade: Trinity” deixa claro o tamanho de sua desdita: ressuscitou Drácula para fazê-lo brigar como chefão de fase, desses que aparecem depois de muitos capangas anônimos terem sido abatidos em corredores azulados. A fotografia de Gabriel Beristain conserva algum brilho metálico, e a música de Ramin Djawadi e RZA tenta manter o pulso urbano da série, mas a montagem fragmenta a ação em golpes sem respiração, cortes que simulam energia enquanto encobrem a falta de imaginação.
Há um filme curioso escondido nessa bagunça, um comentário sobre a transformação do vampirismo em corporação, com laboratórios, esquemas midiáticos, manipulação policial e uma máquina de propaganda capaz de converter o caçador em criminoso aos olhos do público. Também há uma fábula sobre heróis veteranos substituídos por jovens mais falantes, mais vendáveis, mais aptos a caber numa era de franquias que já começava a farejar spin-offs em qualquer personagem secundário com algum carisma. “Blade: Trinity” arrecadou cerca de 131,9 milhões de dólares no mundo, o bastante para não parecer desastre industrial, ainda que o desgaste artístico salte aos olhos. As histórias de bastidor, negadas ou contestadas por Snipes em entrevistas posteriores, só reforçaram a impressão de uma produção atravessada por tensões que a tela não consegue disfarçar.
Goyer havia escrito os três filmes da série e conhecia aquele universo, mas dirigir “Blade” exigia algo além de conhecer suas regras. Exigia sujeira, perversidade visual, paciência para a sombra, um senso de absurdo que não confundisse vampiro com acessório de vitrine. “Blade: Trinity” diverte em espasmos, sobretudo quando Reynolds e Posey assumem a cafonice sem pedir desculpas, e ainda há prazer em ver Snipes atravessar inimigos como quem executa uma coreografia de raiva antiga. O problema é que a lâmina perdeu fio. No lugar do predador solitário que ajudou a abrir caminho para o cinema moderno de super-heróis, ficou um produto barulhento, irregular, ansioso por parecer jovem. Blade continua de pé no fim, como sempre. Quem parece ter virado pó foi o filme ao redor dele.

