“Manual Prático da Vingança Lucrativa” acompanha Becket Redfellow, em Nova York, quando ele decide transformar ressentimento familiar em plano de ascensão social. Escrito e dirigido por John Patton Ford, o filme mistura comédia, drama e suspense para narrar a história de um homem que cresceu longe da fortuna dos Redfellow, mas descobre uma brecha capaz de colocá-lo novamente na fila de uma herança bilionária. O problema, como quase sempre acontece quando dinheiro demais entra na conversa, é que existem parentes no caminho.
Becket Redfellow, interpretado por Glen Powell, foi criado pela mãe, Mary Redfellow, depois que ela foi expulsa da família por engravidar ainda adolescente. O sobrenome permanece, mas os privilégios somem. Ele cresce sabendo que existe um lugar de onde foi afastado e uma fortuna que nunca tocou. Antes de morrer, Mary deixa ao filho uma ideia perigosa, a de que ele deve lutar pela vida que merecia ter. Essa frase vira quase uma herança paralela, menos rentável que os bilhões dos Redfellow, mas muito mais inflamável.
Adulto, Becket trabalha em Nova York como vendedor de ternos de luxo. A função combina bem com o personagem, porque ele passa os dias vestindo outros homens para uma riqueza que observa de fora. Glen Powell usa seu carisma habitual para compor alguém sedutor, ressentido e calculista, sempre perto da elegância e sempre longe da paz. Quando reencontra Julia Steinway, vivida por Margaret Qualley, a antiga amizade reacende a lembrança de uma vida que poderia ter sido sua. Julia agora está casada com Lyle, interpretado por James Frecheville, e circula em um ambiente social que Becket conhece mais por vitrine do que por pertencimento.
A fortuna vira armadilha
A situação muda quando Becket descobre que ainda pode herdar a fortuna da família por causa de uma brecha no testamento. A informação não é um milagre, mas uma tentação. O caminho até os bilhões passa por uma lista de parentes vivos, e o personagem decide tirar cada um deles do caminho. A partir daí, “Manual Prático da Vingança Lucrativa” assume seu lado mais perverso, mas sem abandonar a aparência polida. O sangue entra na história de terno, sapato lustroso e agenda de escritório.
O primeiro alvo é Taylor Redfellow, vivido por Raff Law. Depois da morte dele, Becket conhece Warren Redfellow, interpretado por Bill Camp, pai de Taylor e um dos poucos membros da família que demonstra interesse real pelo sobrinho distante. Warren oferece a Becket um emprego em sua firma de investimentos, e esse gesto muda a vida prática do protagonista. Ele ganha acesso, salário, prestígio e entrada em ambientes que antes o ignoravam. O problema é que a generosidade de Warren chega tarde demais para desmontar o plano já iniciado.
A presença de Warren também dá ao filme uma camada mais amarga. Bill Camp interpreta o tio com uma humanidade discreta, sem transformar o personagem em santo de família rica. Ele acolhe Becket, aposta nele profissionalmente e abre uma porta que parecia trancada desde a expulsão de Mary. Para Becket, esse acolhimento deveria bastar. Mas a fortuna continua ali, grande demais para ser tratada como detalhe, e a ambição já tomou assento à mesa. Quando o personagem começa a subir na empresa, seu risco também cresce.
Afeto no caminho do golpe
Enquanto planeja se aproximar de Noah Redfellow, vivido por Zach Woods, Becket conhece Ruth, interpretada por Jessica Henwick. Ela é namorada de Noah e se torna uma presença cada vez mais importante na vida dele. A relação entre os dois cria um desvio sentimental dentro de uma história movida por cálculo. Ruth vê em Becket algo além do sobrenome e da raiva herdada, o que torna suas escolhas mais desconfortáveis. Ele passa a viver uma rotina mais estável, constrói uma relação afetiva e parece, por alguns instantes, capaz de abandonar a corrida pelo dinheiro.
Jessica Henwick dá a Ruth uma energia menos cínica que a dos Redfellow e menos ambígua que a de Julia. A personagem funciona como uma chance concreta de vida fora do casarão, das ações financeiras e dos almoços de família cheios de veneno social. Mas Becket não sabe abandonar uma promessa de reparação quando ela aparece embrulhada em bilhões. Ele continua avançando, mesmo quando já tem emprego, amor e uma possibilidade real de futuro. É aí que o filme fica mais interessante, porque o protagonista deixa de ser apenas um injustiçado e passa a ser alguém incapaz de parar.
Quando o riso pesa
A comédia de “Manual Prático da Vingança Lucrativa” nasce desse contraste entre bons modos e brutalidade. Becket mata, mente, sorri, trabalha, paquera e sobe na firma com uma desenvoltura quase absurda. O filme tira graça da frieza com que ele atravessa situações socialmente elegantes enquanto carrega uma agenda criminosa. Não é uma graça aberta, daquelas que pedem gargalhada. É um riso torto, meio culpado, provocado pelo desconforto de ver um homem transformar a vingança familiar em carreira.
John Patton Ford, que já havia dirigido “Emily, a Criminosa”, volta a se interessar por personagens pressionados por dinheiro, status e falta de acesso. Aqui, porém, o tom é mais satírico. A família Redfellow aparece como um clube fechado, onde parentes valem mais pelo lugar na sucessão do que por qualquer vínculo afetivo. Ed Harris interpreta Whitelaw Redfellow, o patriarca que concentra a autoridade do clã. Sua presença endurece o ambiente e lembra que a riqueza da família não nasceu de delicadeza, muito menos de bons sentimentos.
O suspense entra quando as mortes começam a chamar atenção do FBI. Os agentes Brad Matthews, vivido por Stevel Marc, e Megan Pinfield, interpretada por Phumi Tau, passam a observar Becket e suas coincidências familiares. O personagem tenta fingir distância da herança, mas a sequência de perdas entre os Redfellow começa a formar um desenho difícil de apagar. A graça social cede espaço à pressão da investigação, e cada conversa passa a carregar a possibilidade de prova. Becket queria o sobrenome completo, mas ganha também vigilância, suspeita e uma coleção de perguntas incômodas.
Elegância com sangue frio
Margaret Qualley faz de Julia Steinway uma figura decisiva para o desequilíbrio do protagonista. Ela conhece Becket desde a infância, sabe de sua ferida social e percebe quando ele começa a se mover com mais dinheiro e menos inocência. Julia não aparece apenas como lembrança romântica ou tentação elegante. Ela também tem interesses, dívidas, um casamento em ruína e uma capacidade afiada de usar informação a seu favor. Quando volta a procurar Becket, a relação entre os dois já não pertence ao passado. Pertence ao risco.
“Manual Prático da Vingança Lucrativa” funciona melhor quando deixa o enredo caminhar por ações concretas. Becket perde espaço no trabalho, descobre a brecha da herança, aproxima-se da família, aceita o emprego de Warren, envolve-se com Ruth e passa a ser observado por investigadores. Cada passo oferece alguma vantagem e cobra um preço novo. O filme nem sempre escapa de soluções convenientes, e algumas viradas pedem boa vontade do espectador. Ainda assim, mantém ritmo e charme suficientes para sustentar a mistura de crime, ironia e drama familiar.
Glen Powell interpreta Becket sem pedir absolvição para ele. O ator trabalha bem o sorriso de quem sabe vender uma imagem enquanto esconde outra mercadoria no estoque. Ao seu redor, Margaret Qualley, Jessica Henwick, Bill Camp e Ed Harris ajudam a dar diferentes pesos ao mesmo tema, que é a herança como promessa, ameaça e doença de família. No fim das contas, “Manual Prático da Vingança Lucrativa” acompanha um homem que queria entrar no mundo dos ricos e descobre que a porta abre, sim, mas quase sempre por dentro de uma sala perigosa.

