Quando se infiltra nas relações sociais, o preconceito vira terreno fértil para a injustiça, alimentando medos que terminam em paranoia. A desconfiança passa a ser o padrão, levando indivíduos e comunidades a enxergar ameaça em tudo, num clima de invencível hostilidade. Fantasias geram acusações sem prova, os estigmas transformam-se em chagas indeléveis, mecanismos de controle baseados no terror reforçam estruturas que só fazem perpetuar as desigualdades e reina o caos. Escolas podem ser o ambiente perfeito para maledicências, ataques, tiranias, ódio, como se vê no delirante “O Professor Substituto”. Sébastien Marnier compõe uma atmosfera claustrofóbica de hipocrisia, na qual resiste um idealismo muito peculiar que não tarda a infundir uma loucura imanente, sensação que o texto de Marnier e dos corroteiristas Christophe Dufossé e Elise Griffon verte para um cenário apocalíptico estranhamente sedutor.
O futuro, esse monstro
Imaturidades, no plural, autoconfiança demais, soberba, e, às vezes, também desespero trazem à superfície uma visão de mundo sob lentes cor-de-rosa que distorcem a realidade, dando-lhe belezas que ela não tem e tapando suas falhas. Esse mal-estar geral ganha forma quando um professor de literatura atira-se da janela da sala de aula enquanto uma classe de alunos “intelectualmente avançados” faz um exame. Quase automaticamente, Pierre Hoffman o substitui, e logo sente pesar sobre sua cabeça a nuvem de trauma e segredos, até a conclusão. Enquanto isso, a fotografia meio nauseante de Romain Carcanade e a trilha sonora de Zombie Zombie coroam a performance kubrickiana de Laurent Lafitte e de um elenco infantojuvenil com os talentos brutos (e hipnotizadores) de Luana Bajrami e Victor Bonnel.

