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Na Inglaterra de 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Vera Brittain sonha com Oxford, com a escrita e com uma vida guiada pelas próprias escolhas. Em “Juventudes Roubadas”, drama biográfico dirigido por James Kent, Alicia Vikander interpreta essa jovem de família abastada que precisa brigar pelo direito de estudar enquanto vê o irmão Edward Brittain, vivido por Taron Egerton, e o namorado Roland Leighton, interpretado por Kit Harington, serem arrastados pelo entusiasmo patriótico e pela violência do front. O filme mostra esse grupo de jovens porque a guerra interrompe planos que pareciam sólidos, deixando Vera diante de uma pergunta que nenhuma universidade ensina a responder. O que fazer quando o futuro prometido começa a chegar em forma de carta, licença militar e notícia ruim?

“Juventudes Roubadas” começa em um mundo que ainda acredita na força de bons modos, livros e promessas. Vera Brittain quer estudar em Oxford, mas a ideia soa incômoda dentro de casa. Seu pai, Arthur Brittain, interpretado por Dominic West, prefere imaginá-la dentro das expectativas reservadas a uma moça de sua classe. A mãe, Edith Brittain, vivida por Emily Watson, observa a filha com mais ternura, embora também pertença a uma época em que uma mulher ambiciosa parecia uma visita fora de hora na sala de jantar.

Vera, porém, não trata Oxford como luxo. Para ela, estudar é um caminho para existir com algum controle sobre a própria vida. Alicia Vikander dá à personagem uma firmeza elegante, dessas que não precisam levantar a voz para incomodar uma família inteira. A atriz constrói Vera com uma mistura de disciplina, pressa e orgulho, sempre tentando provar que sua inteligência não cabe no papel decorativo que lhe oferecem. O resultado é uma protagonista que parece deslocada no próprio ambiente, cercada por afeto, mas vigiada por regras silenciosas.

O amor entra pela literatura

É nesse período que Roland Leighton se aproxima. Interpretado por Kit Harington, ele surge como um jovem sensível, inteligente e também um pouco encantado pela própria sensibilidade, o que combina bem com a idade e com o clima de grandes promessas. Roland escreve, lê, conversa e passa a enxergar Vera como parceira intelectual. Essa escolha é importante porque o romance entre os dois nasce menos de gestos grandiosos e mais de uma afinidade construída por palavras, leituras e cartas.

O filme acerta ao mostrar o amor como algo ligado à formação de Vera, não como desvio dela. Roland não rouba seu desejo por Oxford. Ao contrário, ele reconhece essa ambição e entra em sua vida num momento em que ela precisa ser levada a sério. A relação tem delicadeza, mas também tem urgência. Quando a guerra se aproxima, aquilo que era flerte, conversa e expectativa ganha outro peso. Cada encontro passa a depender de tempo disponível. Cada carta carrega uma tensão que nenhum casal deveria conhecer tão cedo.

O irmão também parte

Edward Brittain, interpretado por Taron Egerton, ocupa um lugar decisivo na história. Ele é o irmão querido, o companheiro de juventude, o elo de Vera com um grupo de amigos que acredita estar destinado a grandes realizações. Edward deseja servir, e esse desejo vem embalado pelo espírito de 1914, quando muitos jovens britânicos encaravam a guerra como dever, aventura ou passagem para uma espécie de honra pública. Visto de hoje, esse entusiasmo parece assustador. Visto por eles, parecia quase inevitável.

Taron Egerton dá a Edward uma doçura que torna sua escolha ainda mais dolorosa. Ele não aparece como soldado pronto, mas como rapaz tentando ocupar um lugar que o país passou a cobrar dele. A guerra, nesse sentido, invade a intimidade pela porta da família. Não é apenas uma notícia de jornal. Ela entra nas conversas, separa irmãos, interrompe estudos e muda o valor de cada despedida. Vera percebe que amar aquelas pessoas também significa assistir à partida delas sem ter qualquer poder real sobre o destino de cada uma.

Oxford perde espaço para o front

Quando a Grã-Bretanha declara guerra à Alemanha, em 4 de agosto de 1914, “Juventudes Roubadas” muda de temperatura. A paisagem de juventude, com passeios, leituras e planos, começa a ceder lugar a estações, uniformes e enfermarias. Vera conquista Oxford, mas a vitória já não tem o mesmo gosto. O mundo que ela queria acessar continua ali, com seus livros e salas de aula, porém o país agora exige outro tipo de presença.

A decisão de Vera de trabalhar como enfermeira voluntária dá ao filme uma camada mais dura. Ela sai do espaço protegido da família e dos estudos para lidar com corpos feridos, esperas e informações incompletas. James Kent filma essa passagem sem transformar a dor em ornamento. A guerra aparece menos por cenas de batalha e mais pelo que ela faz com quem fica. Uma carta atrasada muda o dia. Uma licença vira esperança. Uma notícia interrompe qualquer tentativa de normalidade. O drama cresce porque a rotina passa a depender de comunicados.

A dor chega por cartas

As cartas são um dos elementos mais fortes de “Juventudes Roubadas”. No começo, elas aproximam Vera e Roland. Depois, tornam-se quase documentos de sobrevivência. O filme usa esse recurso com sobriedade, pois cada mensagem pode trazer amor, medo, silêncio ou perda. Em vez de apostar em frases grandiosas, a narrativa valoriza o intervalo entre uma carta e outra. Ali mora uma parte enorme do sofrimento de Vera.

Os olhos de Alicia Vikander registram a mudança antes que a personagem consiga transformar tudo em palavra. Vera tenta manter alguma ordem, mas a guerra desfaz a lógica de merecimento que guiava sua juventude. Ser inteligente não salva quem ela ama. Ser corajoso não garante retorno. Ser fiel a uma promessa não impede que o mundo trate os jovens como peças substituíveis. O filme é sensível porque deixa essa descoberta aparecer aos poucos, sem apressar a dor nem transformá-la em espetáculo.

Um drama contra o esquecimento

“Juventudes Roubadas” também funciona como retrato de uma escritora em formação. Vera Brittain existiu, escreveu suas memórias e se tornou uma voz pacifista importante depois da guerra. O filme acompanha esse caminho sem entregar tudo em tom de aula. A escrita surge como necessidade, quase como uma tentativa de organizar aquilo que a experiência tornou insuportável. Quando Vera escreve, ela não enfeita a perda. Ela tenta impedir que aqueles nomes virem apenas estatística.

James Kent dirige o filme com uma elegância discreta. Há beleza nos figurinos, nas paisagens e na reconstituição de época, mas a força maior está na maneira como esses elementos vão sendo atravessados pela guerra. O campo bonito deixa de ser apenas cenário. A universidade deixa de ser apenas sonho. A casa deixa de ser abrigo garantido. Tudo passa a carregar a possibilidade de ausência. Até os silêncios, tão frequentes, parecem ocupar cadeiras que antes pertenciam a alguém.

O filme poderia cair numa solenidade pesada, mas escapa disso pela atenção aos detalhes humanos. Vera tem ambição, teimosia, afeto e raiva. Roland tem encanto, medo e fragilidade. Edward tem lealdade e juventude demais para compreender o tamanho do que aceita enfrentar. Esses personagens não são tratados como estátuas de época. São jovens tentando viver antes que a história chegue com botas sujas na porta.

“Juventudes Roubadas” emociona porque sabe que a guerra não rouba apenas vidas. Ela rouba conversas que não aconteceram, livros que não foram escritos, casamentos que ficaram pendentes, carreiras que mal começaram e famílias que precisaram aprender a esperar. Ao acompanhar Vera Brittain, o filme encontra uma personagem que transforma perda em memória escrita. E, sem precisar revelar seus golpes mais duros, deixa evidente que algumas juventudes terminam muito antes de envelhecer.


Filme: Juventudes Roubadas
Diretor: James Kent
Ano: 2014
Gênero: Biografia/Drama/Guerra/História/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
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