Em “Os Reis do Mundo”, Laura Mora Ortega acompanha uma viagem que começa nas ruas de Medellín e avança para o interior da Colômbia com a força de uma promessa quase impossível. Lançado em 2022, o drama de aventura apresenta Rá, vivido por Carlos Andrés Castañeda, como um garoto sem família por perto, sem casa e sem qualquer rede adulta capaz de protegê-lo. Ao lado de Culebro, Sere, interpretado por Davison Florez, Winny e Nano, vivido por Brahian Acevedo, ele forma uma pequena irmandade de sobrevivência, dessas em que a lealdade vale mais que qualquer regra escrita.
O ponto de partida é simples e doloroso. Rá descobre que tem direito a um pedaço de terra deixado por sua avó, uma mulher que havia sido expulsa de sua propriedade durante a violência paramilitar. Esse terreno chega até ele por meio de um programa de restituição do governo colombiano. Para qualquer pessoa cercada de documentos, endereços e adultos funcionais, seria uma notícia difícil, mas possível. Para Rá, é quase uma convocação para atravessar o país com os amigos, mesmo sem dinheiro, sem proteção e sem garantias de que alguém respeitará aquele direito quando eles chegarem lá.
Medellín como ponto de fuga
A primeira força de “Os Reis do Mundo” está na maneira como a cidade aparece na vida dos garotos. Medellín não é tratada como paisagem bonita para emoldurar sofrimento, mas como um espaço duro, instável e cheio de pequenas disputas. Os meninos ocupam calçadas, ruas e cantos que não lhes pertencem de verdade. Dormem onde dá, comem quando conseguem e inventam família entre si porque a família original desapareceu do campo de ação. Há carinho no grupo, mas também há irritação, bravata e aquela energia meio desgovernada de quem cresceu tendo que parecer mais forte do que é.
Rá funciona como o centro dessa movimentação porque carrega uma possibilidade concreta. Ele não quer apenas fugir da rua. Quer chegar a uma terra que tem nome, história e vínculo com sua avó. Culebro, Sere, Winny e Nano entram nessa jornada porque também precisam de um lugar onde possam existir sem pedir licença a cada esquina. A viagem nasce de um sonho, mas a diretora jamais deixa esse sonho virar propaganda de esperança. A cada avanço, aparece uma barreira, seja o medo, a fome, a distância ou a presença de adultos que olham para aqueles meninos com desconfiança.
A estrada vira prova de resistência
Quando o grupo deixa Medellín, “Os Reis do Mundo” assume a forma de uma aventura áspera. Os cinco seguem pelo interior colombiano em busca da propriedade herdada por Rá, mas a estrada não acolhe ninguém de graça. Há pessoas que ajudam, há outras que alertam, e há também uma sensação constante de que o país está cheio de portas abertas pela metade. Para meninos acostumados à rua, a liberdade do caminho pode parecer uma vitória. O filme logo mostra que caminhar sem destino garantido também significa ficar exposto a qualquer ameaça.
Laura Mora Ortega filma essa passagem com delicadeza, mas sem amaciar o percurso. A câmera se aproxima dos rostos, acompanha o cansaço dos corpos e deixa a paisagem rural surgir com beleza e perigo misturados. O interior colombiano guarda a promessa da terra, mas também guarda as marcas de expulsões, medo e abandono institucional. A avó de Rá perdeu sua propriedade em um contexto de violência, e o neto tenta recuperá-la em um país que reconhece o direito no papel, mas nem sempre protege quem precisa atravessar o caminho para fazê-lo valer.
A infância sem proteção
O filme cresce quando permite que os meninos sejam mais do que vítimas. Rá tem uma seriedade quase adulta, embora ainda carregue o impulso e a fragilidade de um garoto. Sere, vivido por Davison Florez, surge como parte essencial dessa irmandade, alguém que divide o peso da viagem e ajuda a manter o grupo unido quando a confiança começa a cansar. Nano, interpretado por Brahian Acevedo, traz uma presença mais inquieta, marcada por medo, ironia e desejo de pertencer. Culebro e Winny completam esse grupo com uma energia de rua que mistura afeto e desordem.
Há uma beleza particular nessa convivência. Eles brigam, provocam, se protegem e seguem adiante porque parar pode ser pior. O filme permite pequenos respiros de graça, mas nunca transforma a dor em espetáculo sentimental. O riso, quando aparece, vem da convivência entre eles, de uma fala atravessada, de uma pose de valentia ou de uma tentativa de parecer dono do mundo quando o mundo mal oferece um pedaço de chão. É uma graça breve, às vezes torta, mas necessária para que aqueles meninos não sejam vistos apenas pela falta.
Afeto em lugar inesperado
Um dos momentos mais humanos da viagem acontece quando os garotos cruzam com profissionais do sexo que lhes oferecem cuidado por um curto período. O filme não trata esse encontro como salvação, nem força uma lição moral. O que existe ali é algo mais simples e mais raro para eles. Um pouco de atenção, algum acolhimento, uma pausa no estado de alerta. Para crianças e adolescentes que vivem sem adultos de referência, esse cuidado passageiro tem um peso enorme, mesmo sabendo que a estrada voltará a cobrar movimento.
Essa passagem ajuda a definir o olhar de Laura Mora Ortega. “Os Reis do Mundo” observa seus personagens com compaixão, mas não os transforma em santos. Eles desobedecem, reagem, erram, insistem e às vezes avançam guiados mais pela teimosia do que por um plano seguro. Essa imperfeição é parte do que torna a crítica social do filme mais viva. A violência contra eles não aparece apenas em atos brutais, mas também na ausência de escuta, no atraso das instituições e na dificuldade de fazer uma promessa pública chegar a quem vive fora das salas onde as promessas são assinadas.
Uma jornada bonita e ferida
“Os Reis do Mundo” é um filme sobre deslocamento, amizade e dignidade, mas essas ideias só ganham força porque estão ligadas a ações muito concretas. Rá precisa chegar ao terreno da avó. Os amigos precisam acompanhá-lo sem se perder no caminho. O grupo precisa confiar em desconhecidos, atravessar espaços de risco e manter a união mesmo quando a viagem começa a gastar o corpo e a cabeça. O drama nasce desse atrito entre o direito anunciado e a vida real de quem tenta alcançá-lo.
A direção de Laura Mora Ortega encontra um equilíbrio raro entre dureza e lirismo. A cineasta não esconde a beleza da paisagem, mas também não deixa que ela apague a ferida histórica que move a trama. A aventura dos meninos tem energia, afeto e até uma insolência juvenil que impede o filme de afundar em sofrimento contínuo. Ainda assim, cada trecho da jornada lembra que a promessa de terra só vale alguma coisa se Rá conseguir chegar até ela com o próprio corpo inteiro e os amigos ainda ao lado.
“Os Reis do Mundo” é uma experiência que provoca uma sensação de travessia. O filme acompanha meninos que foram tratados como sobra e que, por alguns dias, decidem agir como herdeiros de um reino possível. O título tem ironia, ternura e uma pontada amarga. Eles são reis sem coroa, sem escolta e quase sem mapa, mas seguem porque a terra prometida de Rá é a primeira notícia concreta de futuro que alguém lhes deu.

