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Famílias costumam preservar suas tragédias com o mesmo zelo com que guardam fotografias antigas, armas descarregadas, vestidos de domingo, selas de cavalo e receitas que já não alimentam ninguém. No cinema americano, esse culto aos mortos sempre encontrou no Oeste uma paisagem adequada, porque ali os sentimentos parecem maiores quando cercados por montanhas, planícies, cercas, picapes cobertas de poeira e homens que falam pouco para não revelar que sangram como qualquer outro. “Deixe-o Partir”, lançado nos Estados Unidos em 2020 e levado ao público brasileiro em 2021, nasce dessa matéria áspera. Thomas Bezucha, diretor e roteirista, adapta o romance homônimo de Larry Watson, publicado em 2013, e encontra em Kevin Costner e Diane Lane dois intérpretes perfeitos para uma história em que o luto deixa de ser recolhimento e vira deslocamento, uma viagem rumo a uma casa onde a decência não entra nem pela fresta da porta.

George Blackledge, o xerife aposentado vivido por Costner, mora com a esposa Margaret, de Lane, num rancho de Montana no começo dos anos 1960. O filho James, um jovem de pouca permanência em cena, morre depois de cair do cavalo, e o filme entende rapidamente que aquela morte não precisa ser explorada com espalhafato. Basta o animal voltando sozinho, a expressão de Margaret, o corpo encontrado perto do riacho e o modo como George, um homem treinado para lidar com cadáveres alheios, percebe que sua própria casa foi atingida. Lorna, a viúva interpretada por Kayli Carter, fica com o pequeno Jimmy, o neto que passa a ocupar o lugar deixado por James, circunstância perigosa porque criança nenhuma deveria carregar a tarefa de reparar os mortos. Quando Lorna se casa com Donnie Weboy, sujeito de modos secos e mão ligeira encarnado por Will Brittain, Margaret enxerga antes de todos o que há de podre naquela união.

Diane Lane e Kevin Costner contra a brutalidade do luto

Diane Lane conduz “Deixe-o Partir” como quem não pede licença para sofrer. Margaret não é uma avó doce de cartão-postal, dessas que fazem biscoitos e distribuem conselhos à beira da lareira; ela é uma mulher acostumada a obedecer ao instinto, e seu instinto, ao ver Donnie agredir Lorna e o menino em plena rua, passa a rugir. George hesita, pondera, mede as consequências, talvez porque tenha usado distintivo durante tempo bastante para saber que a lei raramente alcança famílias que vivem como pequenos feudos. Margaret arruma as malas, põe comida no carro, leva a pistola do marido e parte. Costner faz muito com pouca variação aparente, o chapéu baixo, a voz grave, o corpo cansado de quem já conheceu a brutalidade e preferia não ter de visitá-la outra vez. Seu George parece sempre um passo atrás da esposa, e esta é uma das boas escolhas de Bezucha: o filme pertence à obstinação dela, enquanto ele funciona como a última parede entre Margaret e o desastre.

A jornada até a Dakota do Norte aproxima “Deixe-o Partir” de um western tardio, daqueles em que a cavalgada virou automóvel e a fronteira já não promete fortuna, só revela o que sobrou de gente endurecida pelo ressentimento. No caminho, George e Margaret encontram pistas, parentes atravessados, silêncios hostis e Peter Dragswolf, o jovem indígena vivido por Booboo Stewart, que mora à margem de tudo e reconhece nos dois velhos uma dor parecida com a sua, ainda que o roteiro não lhe dê todo o espaço que poderia. Bezucha filma esse deslocamento sem pressa indevida, valorizando quartos baratos, estradas vazias, refeições em mesas estranhas, a prudência de quem chega a um lugar onde todos parecem saber alguma coisa e ninguém deseja dizer nada. O suspense cresce justamente porque a ameaça não vem de um assassino mascarado ou de um plano mirabolante, e sim de uma parentela inteira que trata a violência como idioma doméstico.

Lesley Manville muda a temperatura do filme

A entrada de Lesley Manville como Blanche Weboy muda a temperatura do filme. Blanche surge com cabelo armado, cigarro, sorriso de anfitriã e olhar de carrasca, uma matriarca que comanda filhos adultos como cães mal alimentados e sabe transformar hospitalidade em intimidação. Manville compreende que uma vilã dessas não precisa gritar o tempo todo; basta servir comida, encarar Margaret um segundo a mais, escolher a palavra certa, tocar o neto dos outros como se já tivesse lavrado escritura sobre ele. A sequência do jantar na casa dos Weboy é o ponto em que “Deixe-o Partir” mostra sua verdadeira natureza, deixando o drama familiar escorregar para um thriller de seita rural, com Blanche e seus homens cercando George e Margaret por todos os lados, numa encenação que lembra a velha América dos clãs, da posse, da masculinidade covarde abrigada sob o guarda-chuva de uma mãe monstruosa.

O problema é que Bezucha, depois de construir com paciência esse duelo entre duas formas de maternidade, acelera quando o filme mais precisava conservar a pressão. O terceiro ato aposta numa explosão de violência que funciona como catarse, sobretudo pela eficiência física das cenas, porém também estreita um pouco o alcance moral da história. Até ali, o interesse estava no embate entre Margaret e Blanche, duas mulheres que defendem os seus por razões incompatíveis, uma tentando arrancar uma criança do perigo, a outra querendo anexá-la a uma dinastia miserável. Quando tiros, fogo e sangue tomam o centro, “Deixe-o Partir” ganha força de folhetim sombrio e perde parte da ambiguidade que o tornava mais incômodo. Ainda assim, o excesso não chega a destruir o que Lane, Costner e Manville haviam erguido com tamanha precisão.

Há filmes que parecem antigos por falta de imaginação, e há os que parecem antigos porque ainda acreditam em rosto, gesto, espera e consequência. “Deixe-o Partir” pertence ao segundo grupo. A fotografia de Guy Godfree aproveita a vastidão dos cenários sem transformá-los em cartão turístico, e a música de Michael Giacchino acompanha a tristeza dos Blackledge sem encharcar o drama. Bezucha talvez não tenha feito um grande western moderno, desses que reorganizam o gênero por dentro, contudo realizou uma narrativa sólida sobre avós que atravessam estados para descobrir se ainda existe alguma coisa capaz de substituir um filho morto. A resposta vem amarga, sentada no banco de um carro, com uma criança salva, uma mulher devastada e a certeza de que certas famílias só aprendem a se despedir quando já não resta mais ninguém para pedir que fiquem.


Filme: Deixe-o Partir
Diretor: Thomas Bezucha
Ano: 2021
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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