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Certos talentos nascem com a desdita de parecerem defeitos. Um garoto preto do Bronx que escreve bem demais, lê melhor ainda e, para desespero dos adultos incapazes de lidar com nuances, também joga basquete como quem nasceu para aquilo, logo se torna um problema estatístico, pedagógico e social. Jamal Wallace, o adolescente vivido por Rob Brown em “Encontrando Forrester”, não cabe na gaveta em que querem enfiá-lo. Gus Van Sant percebe isso desde a abertura e organiza seu drama de 2000, lançado por aqui em 2001, como uma história de formação em que a inteligência não redime ninguém sozinha, antes incomoda, denuncia, expõe a pobreza moral de ambientes que fingem premiar o mérito enquanto tratam o diferente como fraude em potencial.

Sean Connery, um mito trancado no próprio apartamento

Jamal vive no Bronx com a mãe e o irmão Terrell, interpretado por Busta Rhymes, divide as tardes entre partidas de basquete na quadra do bairro e cadernos que mantém escondidos, como se o ato de escrever fosse uma atividade clandestina. Seus amigos sabem que ele é bom de bola; quase ninguém desconfia de que o rapaz lê William Faulkner, James Joyce e o que mais lhe caia às mãos. Numa dessas brincadeiras masculinas em que coragem e estupidez costumam andar abraçadas, Jamal aceita invadir o apartamento de um velho recluso que observa a vizinhança pela janela. Foge assustado, deixa para trás a mochila e, quando ela retorna, encontra seus textos marcados, corrigidos, atravessados por uma inteligência dura, invasiva, talvez generosa. É a primeira aparição real de William Forrester, o escritor que Sean Connery compõe com uma mistura muito sua de majestade ferida, rabugice teatral e pânico doméstico.

Forrester é autor de “Avalon Landing”, romance vencedor do Pulitzer que o transformou num mito literário e depois numa espécie de fantasma urbano. Nunca publicou outro livro, nunca voltou a circular entre leitores, editores, professores e parasitas culturais de toda ordem. Vive cercado por livros, uísque, superstição e amargura, como se cada cômodo do apartamento fosse uma trincheira contra o mundo. Connery, já no outono de sua carreira, entende que o personagem poderia cair facilmente no estereótipo do mestre severo que, em meia dúzia de lições, ilumina o aluno prodigioso. Ele evita essa armadilha enchendo Forrester de impaciência, mau humor e vergonha. O velho corrige Jamal porque reconhece talento; aceita sua presença porque precisa de alguém que o arranque, ainda que aos empurrões, da múmia que se tornou.

O roteiro de Mike Rich avança quando Jamal, graças às notas excepcionais nos testes e ao desempenho nas quadras, recebe bolsa para estudar em Mailor-Callow, escola de elite em Manhattan, onde seu corpo é aceito com entusiasmo atlético e sua cabeça passa a ser vigiada com desconfiança. Aí entra Robert Crawford, o professor de literatura vivido por F. Murray Abraham, um desses homens que confundem erudição com alfândega e se ressentem de qualquer aluno que demonstre brilho sem pedir licença. Abraham dá ao personagem uma elegância azeda, de sobrancelha erguida e fala venenosa, fazendo de Crawford menos um vilão caricatural que um burocrata do prestígio, alguém incapaz de suportar que um garoto do Bronx escreva com uma força que ele próprio nunca alcançou.

Gus Van Sant entre o mérito e a suspeita

Van Sant vinha de “Gênio Indomável”, e é impossível não reconhecer um parentesco evidente entre os dois filmes. Há novamente um jovem brilhante, um mentor improvável, uma instituição que tenta domesticar o talento, um teste de pertencimento. A diferença está na textura. Em “Encontrando Forrester”, o diretor é menos nervoso, menos interessado na explosão emocional, mais atento à maneira como Jamal atravessa espaços que lhe cobram explicações antes de lhe oferecerem confiança. A fotografia de Harris Savides observa quadras, corredores, apartamentos e salas de aula sem espalhafato; a montagem deixa o filme respirar, às vezes até em excesso, e os 136 minutos cobram algum tributo de paciência quando a história se rende a engrenagens mais previsíveis, sobretudo na aproximação de Jamal com Claire, a estudante de Anna Paquin, personagem simpática, bem defendida pela atriz, mas um tanto funcional demais para a estatura do conflito principal.

O melhor do longa está nas sessões de escrita entre Jamal e Forrester. O velho manda o garoto datilografar sem pensar, proíbe a hesitação, recomenda que a primeira versão venha do coração e a reescrita da cabeça, frase que poderia soar como autoajuda de oficina literária caso Connery não a dissesse com a autoridade de quem também sabe estar mentindo um pouco. Forrester ensina técnica, sim, e o filme tem apreço por esse trabalho concreto — sentar, escrever, rasurar, voltar, cortar —, raro em dramas sobre artistas, quase sempre fascinados por inspiração súbita. Jamal, por seu turno, ensina ao mestre uma matéria menos nobre e mais difícil, a de sair à rua, enfrentar o estádio, pedalar pela cidade, aceitar que a literatura talvez tenha lhe servido tanto de abrigo quanto de cárcere.

Rob Brown, em seu primeiro papel no cinema, sustenta Jamal com uma serenidade admirável. Sua atuação não procura comover por fragilidade; o garoto sabe o que vale e justamente por isso se preserva, falando pouco, olhando muito, administrando a raiva com uma educação que chega a ser mais contundente que qualquer discurso. Quando Crawford o acusa de plágio, a trama encontra seu ponto de maior eficiência, porque junta a arrogância institucional, o racismo difuso, a inveja intelectual e o medo juvenil de perder a única saída que apareceu. Van Sant conduz esse trecho com firmeza, ainda que o desfecho no auditório, com Forrester rompendo o isolamento para defender Jamal, se aproxime perigosamente do tribunal sentimental que Hollywood adora montar quando precisa resolver uma injustiça diante de testemunhas emocionadas.

Ainda assim, “Encontrando Forrester” vence suas conveniências. Há nele uma confiança bonita, quase antiquada, na ideia de que uma frase bem escrita pode alterar o destino de alguém, desde que esse alguém também tenha a coragem de carregar o próprio nome fora da página. Connery transforma Forrester num monumento trincado, e Brown faz de Jamal um desses personagens que continuam caminhando depois que o filme termina, talvez porque nunca tenha aceitado ser invenção de professor, olheiro, colega ou benfeitor. O garoto encontra Forrester, claro. O achado decisivo, contudo, é outro: Jamal encontra um modo de não pedir desculpas pelo próprio talento.


Filme: Encontrando Forrester
Diretor: Gus Van Sant
Ano: 2001
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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