Em “A Máquina do Crime”, comédia de ação lançada em 2023 e dirigida por Peter Atencio, Bert Kreischer interpreta uma versão fictícia de si mesmo em uma aventura absurda que mistura Rússia, máfia, paternidade, ressaca moral e uma piada antiga que volta para cobrar juros. Ao lado dele, Mark Hamill vive Albert, seu pai rabugento e distante, enquanto Jimmy Tatro assume o papel do Bert jovem nos flashbacks que explicam a origem da lenda conhecida como “A Máquina”.
A premissa nasce de uma história real que Bert Kreischer transformou em número de stand-up e que, por anos, circulou como uma espécie de cartão de visitas do comediante. Em 1999, quando ainda era um calouro universitário, Bert viajou para a Rússia com colegas de faculdade. Entre festas, bebedeiras e más companhias, ele teria feito amizade com figuras locais, participado de uma noite caótica e recebido o apelido que o tornaria famoso. O filme parte dessa lembrança exagerada, ou mal lembrada, para imaginar o que aconteceria se as pessoas envolvidas naquela farra reaparecessem mais de duas décadas depois.
A piada perde a graça
No presente, Bert Kreischer é um comediante conhecido, podcaster e celebridade da internet. Ele vive de contar histórias sobre si mesmo, quase sempre com a barriga à mostra, a voz alta e aquela confiança típica de quem acha que o vexame fica mais elegante quando vira anedota. Só que a fama também o deixou descuidado. Depois de beber demais, ele pede que a filha mais velha, Sasha, interpretada por Jess Gabor, vá buscá-lo de carro, mesmo tendo apenas carteira provisória. A situação piora quando ela é parada pela polícia e Bert, por acidente, transmite tudo ao vivo no YouTube.
O vídeo viral prejudica sua carreira e também abala a relação com Sasha e com a esposa, LeeAnn, vivida por Stephanie Kurtzuba. Três meses depois, Bert tenta mostrar que mudou. Está sóbrio, faz terapia e tenta participar da vida familiar com mais responsabilidade. O problema é que ninguém em casa parece disposto a aceitar sua nova fase apenas porque ele decidiu anunciá-la. Sasha está magoada, LeeAnn observa com desconfiança e Bert tenta recuperar espaço dentro da própria família sem saber muito bem por onde começar.
Um aniversário interrompido pela máfia
A festa de 16 anos de Sasha deveria marcar uma tentativa de aproximação. Bert organiza um churrasco em casa, tenta parecer presente e lida com a chegada inesperada de Albert, seu pai, com quem mantém uma relação difícil. Mark Hamill entra na história como uma figura engraçada e irritante na medida certa. Albert critica, comenta, implica com os hábitos do filho e torna qualquer tentativa de paz doméstica um pouco mais complicada. Entre pai e filho, há afeto, mas ele vem embrulhado em cobranças, mágoas antigas e uma coleção de manias.
É nesse cenário familiar que surge Irina, vivida por Iva Babić. Ela é uma mafiosa russa e não aparece para pedir autógrafo. Irina acusa Bert de ter roubado, anos antes, um relógio de bolso antigo pertencente ao pai dela, Volgovitch. O objeto teria sido levado durante um assalto a trem em Moscou, quando o jovem Bert, em meio à confusão da viagem universitária, foi arrastado para uma noite criminosa. Irina quer o relógio de volta e ameaça Sasha caso Bert se recuse a colaborar. A festa acaba, a viagem começa e a piada de palco vira problema internacional.
Pai e filho em território russo
Bert e Albert são levados à Rússia, onde o comediante descobre que sua lenda ganhou vida própria. Ele é reconhecido em vários lugares, aparece ligado a uma marca de vodca e percebe que seu apelido circulou por caminhos que ele nunca controlou. A graça nasce dessa inversão. Nos Estados Unidos, Bert parecia dono da própria história. Em solo russo, ele vira refém dela. Cada pessoa que o reconhece pode abrir uma porta, mas também pode entregar sua localização a gente perigosa.
A busca pelo relógio obriga Bert a refazer passos da juventude. O filme usa flashbacks para mostrar o jovem Bert, interpretado por Jimmy Tatro, em festas com Igor, papel de Nikola Đuričko na fase adulta. Essas lembranças não chegam como confissão organizada. Elas aparecem aos pedaços, entre sustos, pancadas e descobertas. Bert recorda a amizade com Igor, o encontro com criminosos locais e a noite em que acabou envolvido no assalto ao trem. O passado, antes embalado como história engraçada, começa a revelar detalhes menos confortáveis.
A dinâmica entre Bert e Albert dá ao filme sua camada mais simpática. O pai não entende a persona espalhafatosa do filho, mas também carrega suas próprias falhas. Bert quer recuperar o relógio para proteger Sasha, enquanto Albert tenta mostrar que ainda pode ser útil, mesmo quando parece deslocado no meio de mafiosos, capangas e perseguições. A relação dos dois cresce no atrito. Eles discutem, se provocam e se irritam, mas cada perigo empurra a dupla para uma convivência menos defensiva.
Ação, gritaria e ressaca moral
“A Máquina do Crime” aposta em uma comédia física barulhenta, apoiada no carisma de Bert Kreischer e no contraste com Mark Hamill. Há lutas, perseguições, ameaças, lembranças alcoolizadas e uma boa dose de absurdo. Nem todas as piadas acertam com a mesma força. Em alguns trechos, o filme confia demais na gritaria e na bagunça, o que deixa certas cenas mais longas do que precisavam ser. Ainda assim, a energia do elenco ajuda a manter a aventura de pé.
Peter Atencio organiza a história alternando presente e passado para explicar, aos poucos, como Bert saiu de universitário festeiro para lenda involuntária do submundo russo. O recurso funciona porque a memória do protagonista é falha, parcial e bastante conveniente. Ele passou anos vendendo aquela viagem como um troféu cômico, mas agora precisa encarar as partes que ficaram fora do palco. O relógio, nesse sentido, não é apenas um objeto perdido. Ele é a prova concreta de que uma noite mal contada pode mudar a vida de outras pessoas.
Irina também ganha peso dentro dessa confusão. Ela não surge apenas como vilã interessada em vingança. Sua busca pelo relógio envolve herança, poder familiar e disputa por comando em um ambiente dominado por homens. A personagem de Iva Babić combina frieza, competência e irritação diante da incompetência alheia. Ao lado de Bert, ela cria uma parceria improvável, sempre atravessada por desconfiança e conveniência.
O filme funciona melhor quando assume sua natureza exagerada sem tentar parecer mais sofisticado do que é. “A Máquina do Crime” quer ser uma aventura de pancadaria cômica com pai, filho, mafiosos russos e uma celebridade obrigada a revisar a própria lenda. Seu maior acerto está em usar a comédia para expor a fragilidade de Bert como marido, pai e filho. Ele pode ter feito carreira sendo “A Máquina”, mas a família dele precisa de alguém bem mais confiável do que um homem famoso por sobreviver a uma bebedeira.
Sem depender de grandes surpresas, “A Máquina do Crime” entrega uma diversão irregular, mas carismática. A ação mantém o ritmo, Mark Hamill se diverte no papel de pai exausto e Bert Kreischer abraça a própria imagem com coragem suficiente para virar alvo da piada. O resultado é uma comédia de ação sobre fama, memória seletiva e responsabilidade tardia. Uma ressaca cinematográfica com passaporte russo, relógio desaparecido e terapia familiar feita no modo mais perigoso possível.

