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Casamentos sempre fizeram excelente papel no cinema porque reúnem, na mesma cerimônia, a promessa de felicidade, a ameaça do ridículo e a iminência da fuga. No universo de Enola Holmes, em que uma jovem detetive fala demais, pensa depressa demais e ainda precisa provar aos homens de seu tempo que possui um cérebro funcional, o altar só poderia ser uma armadilha. “Enola Holmes 3”, agora sob a direção de Philip Barantini, troca parte da leveza juvenil dos dois primeiros filmes por uma aventura mais sombria, situada em Malta, em 1886, onde a moça interpretada por Millie Bobby Brown descobre que amar Lord Tewkesbury talvez seja menos perigoso que entrar numa carruagem, vestir branco e tentar chegar inteira ao próprio casamento.

Millie Bobby Brown troca o altar pela investigação

O roteiro de Jack Thorne, de volta à franquia inspirada nos livros de Nancy Springer, entende que Enola cresceu. A menina que antes corria de bicicleta, abria sorrisos conspiratórios para a câmera e parecia fazer da inteligência uma traquinagem agora encara uma pergunta mais ingrata: que tipo de mulher ela deseja ser quando todos, inclusive os que a amam, parecem ter uma resposta pronta? A notícia do sequestro de Sherlock Holmes, vivido por Henry Cavill com uma melancolia menos ornamental que nos filmes anteriores, interrompe a cerimônia e empurra Enola para um caso que mistura códigos, perseguições, segredos familiares e uma conspiração de fundo colonial. O detalhe mais hábil do filme está justamente aí: a investigação não chega como distração do casamento, e sim como a forma mais verdadeira de mostrar quem ela é quando o mundo exige que escolha entre o nome, o ofício e o afeto.

Barantini não parece tão interessado no brinquedo colorido quanto Harry Bradbeer. Sua câmera prefere corredores estreitos, ruas de pedra, interiores de luz âmbar, grutas e carruagens em fuga, e essa alteração de temperatura dá ao longa um verniz de aventura histórica menos espevitada, ainda que o filme jamais abandone o expediente mais popular da série, a conversa direta de Enola com o espectador. Às vezes, esse recurso soa como uma muleta simpática, um jeito de explicar o que a encenação deveria resolver sozinha. Em outros momentos, Millie Bobby Brown o transforma em arma cênica, sobretudo quando a personagem tenta disfarçar, com uma frase espirituosa, o medo de perder Sherlock, a impaciência com Tewkesbury ou a suspeita de que Eudoria, sua mãe, continua sabendo mais do que admite.

Cavill desaparece, Helena Bonham Carter desestabiliza tudo

Millie segura o filme com aquela energia de atriz que já entendeu o valor comercial de sua própria insolência. Sua Enola não convence por ser invencível, e sim por parecer sempre a dois passos de tropeçar na própria autoconfiança. Louis Partridge, como Tewkesbury, ganha função dramática mais delicada: deixar de ser o belo noivo à espera da heroína e tornar-se alguém capaz de compreender que amar Enola exige abdicar do impulso de protegê-la como se ela fosse uma porcelana vitoriana. Os dois funcionam melhor quando o romance aparece em gestos práticos — um olhar interrompido por uma pista, uma discussão abafada pelo perigo, uma decisão tomada sem discurso — do que nas passagens em que Thorne força o casal a verbalizar o conflito entre destino conjugal e vocação profissional.

Henry Cavill, por seu turno, é beneficiado pelo sequestro de Sherlock. Presente mesmo quando ausente, ele deixa de ser apenas o irmão famoso que sombreia a protagonista e passa a representar um fardo afetivo. Himesh Patel entra como Dr. John Watson e areja a dinâmica da família Holmes, oferecendo a Enola uma ponte menos vaidosa até Sherlock. Helena Bonham Carter, no papel de Eudoria, continua uma aparição deliciosamente inconveniente, dessas mães que ensinam liberdade como quem entrega dinamite a uma criança curiosa. Já Sharon Duncan-Brewster, de volta como Moriarty, dá à vilã a frieza de quem enxerga no império britânico um tabuleiro de crimes antigos, e o filme cresce quando deixa que sua presença contamine o tom da brincadeira.

Há excesso, claro. A trama colonial envolvendo ouro afegão, medalhas, mensagens cifradas e culpas aristocráticas por vezes quer carregar mais peso histórico do que a franquia suporta sem fazer careta. “Enola Holmes 3” não tem a perversidade de um grande policial nem a densidade de um drama de época, e sua vocação familiar impede que a violência avance para onde Barantini talvez quisesse levá-la. Ainda assim, o diretor encontra um caminho digno entre o entretenimento e a gravidade, sobretudo quando usa Malta como espaço de deslocamento moral: Enola está longe de Londres, longe da casa, longe da infância, e cada pista parece arrancá-la um pouco mais da fantasia confortável de que independência e felicidade sempre caminham de mãos dadas.

No fim, o terceiro filme acerta ao entender que sua protagonista já não precisa derrotar os homens para provar alguma coisa. Precisa lidar com o fato, bem menos juvenil, de que até as escolhas certas cobram pedágio. Enola casa, investiga, desafia, erra, retorna ao próprio nome e segue adiante, enquanto Sherlock parece enfim admitir que a irmã não é uma versão menor dele. A franquia continua dependente do carisma de Millie Bobby Brown e de alguns atalhos narrativos bastante convenientes, todavia sai de Malta com mais corpo do que chegou. Para uma detetive que começou fugindo dos irmãos e da etiqueta, sobreviver ao casamento sem deixar o mistério escapar já é uma bela proeza.


Filme: Enola Holmes 3
Diretor: Philip Barantini
Ano: 2026
Gênero: Aventura/Policial
Avaliação: 4/5 1 1
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