Existe um tipo particular de comediante americano que transforma a própria biografia numa prova criminal. Não basta subir ao palco, contar uma vergonha, exagerar uma lembrança e esperar que a plateia ria da queda alheia; é preciso converter o vexame em mitologia pessoal, dar-lhe nome, bordão, camiseta, turnê, filme. Bert Kreischer fez exatamente isso ao transformar uma bebedeira universitária na Rússia, sua amizade involuntária com mafiosos e a fama de beberrão funcional numa identidade pública. “A Máquina do Crime”, dirigido por Peter Atencio, nasce dessa anedota, mas precisa enfrentar um problema maior que qualquer gângster eslavo: aquilo que funciona como relato de stand-up nem sempre respira no cinema com a mesma facilidade.
Bert interpreta Bert, o que já resolve metade da farsa e cria a outra metade. Vinte e três anos depois da viagem que o tornou conhecido como The Machine, ele está menos interessado em aventuras alcoólicas que em atravessar uma crise doméstica, lidar com a filha, sobreviver ao casamento e suportar a chegada do pai, Albert, vivido por Mark Hamill com aquela rabugice de velho que parece ter engolido uma coleção inteira de ressentimentos familiares. A situação ainda poderia render uma comédia de reconciliação paterna, dessas em que dois homens se abraçam depois de anos fingindo desprezo, mas Atencio logo enfia os dois numa engrenagem mais barulhenta: uma mafiosa russa, Irina, interpretada por Iva Babić, aparece para cobrar uma dívida do passado e sequestra pai e filho, obrigando Bert a refazer os passos de sua juventude etílica.
A melhor sacada do roteiro de Kevin Biegel e Scotty Landes está em tratar a lembrança como um território físico. O jovem Bert, vivido por Jimmy Tatro, surge em flashbacks como uma versão ainda mais inconsequente do homem que se tornaria, um universitário sem filtro, sem prudência e sem qualquer noção de perigo, aquele tipo de americano expansivo que entra num país estrangeiro acreditando que simpatia, álcool e burrice resolvem tudo. Tatro entende a piada com precisão: não tenta imitar Kreischer como quem copia um número famoso, mas encarna sua vulgaridade inaugural, seu entusiasmo de fraternidade estudantil, sua capacidade quase mística de transformar uma situação grave numa sucessão de impropriedades. O filme cresce quando põe esse passado ridículo para dialogar com o presente, porque ali existe alguma ideia de cinema, não apenas a ilustração preguiçosa de um monólogo popular.
O problema é que “A Máquina do Crime” gosta demais do próprio excesso. Há brigas, tiros, corpos arremessados, russos caricatos, piadas de paternidade, piadas de gordura, piadas sobre bebida, piadas sobre envelhecimento, piadas sobre traumas familiares, e nem sempre Atencio consegue separar o que é ritmo do que é apenas gritaria. O diretor, que vinha de um bom histórico no humor televisivo, sabe conduzir a energia de uma cena curta, mas sofre quando precisa sustentar a desordem por quase duas horas. A ação tem momentos de boa fisicalidade, sobretudo quando aceita seu lado cartunesco, mas frequentemente se rende àquela estética de comédia americana recente em que todo mundo fala alto demais para disfarçar que a situação já se esgotou.
Mark Hamill, entretanto, salva muita coisa. Albert poderia ser apenas o pai ausente, grosseiro, incapaz de elogiar o filho sem antes feri-lo, mas Hamill dá ao personagem uma secura curiosa, quase uma dignidade de velho humilhado por estar preso à celebridade absurda do filho. Sua presença cria contraste com Bert, que passa o filme inteiro tentando parecer mais vulnerável do que sua persona permite. Kreischer é engraçado quando se assume como corpo em descontrole, como adulto que envelheceu sem abandonar a irresponsabilidade como método de sobrevivência; torna-se menos convincente quando a história exige dele uma comoção mais limpa, uma espécie de acerto de contas emocional que o filme, no fundo, não trabalhou o bastante para merecer.
Ainda assim, existe algo simpático nessa trapalhada. “A Máquina do Crime” não tem a esperteza formal de uma comédia de ação realmente afiada, tampouco a ferocidade de uma sátira sobre celebridades que lucram com a própria degradação. O longa prefere o caminho mais fácil: pega um caso supostamente real, infla tudo até virar delírio mafioso e entrega ao espectador uma sessão barulhenta, irregular, por vezes francamente tola, mas não inteiramente descartável. Quando Bert e Albert atravessam a Rússia tentando sobreviver à lenda fabricada pelo próprio Bert, percebe-se que o filme poderia ter sido melhor se confiasse menos na algazarra e mais nessa ideia simples e cruel: um homem pode passar a vida inteira contando uma história até o dia em que a história volta para lhe cobrar direitos autorais.
No fim, Atencio entrega uma comédia de ação que tropeça nos próprios exageros, mas encontra alguma graça no encontro entre um filho fanfarrão e um pai que jamais comprou sua encenação. Não é um grande filme, nem pretende sê-lo; é um produto assumidamente pândego, às vezes cansativo, às vezes eficiente, feito para quem tolera o histrionismo de Kreischer e para quem sente prazer em ver Mark Hamill escapar, mais uma vez, da prisão confortável da nostalgia. “A Máquina do Crime” funciona melhor quando aceita que seu verdadeiro crime não está na máfia russa, mas na vaidade de um sujeito que transformou uma ressaca em carreira.

